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Efeméride do dia: Tumultos no mercado, contra a carestia e os açambarcadores

Feira no largo de S. Francisco (1908)

11 de Agosto de 1894
O povo amotina-se no mercado de cereais por não encontrar pão para comprar e, sabendo que o que estava na feira tinha sido já comparado pelos regatões, obrigou os vendedores a pô-lo em venda ao público, pelo preço de 600 réis cada 20 litros. Foi para o mercado uma força do 20 de infantaria para conter o povo.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 136)

Era sábado. Dia de feira de cereais na Praça de D. Afonso Henriques (largo de S. Francisco), Logo pelas 7 horas da manhã, desrespeitando as posturas municipais, os açambarcadores fazem os seus negócios, arremataram o milho que estava à venda, pelo preço 780 a 800 réis cada medidas de 20 litros, para depois o revenderem mais caro, em grão ou na forma de pão, vendo-se o povo que mais tarde ia abastecer-se daquele género para os usos comuns da vida, em embaraços originados no seu elevado preço que causa alguma justificava.
A crer no que se escreveu nos jornais da altura, não havia razões para a escassez e para a carestia dos cereais que então acontecia, fazendo pairar o espectro da fome sobre os menos remediados. Escreveu-se que nas tulhas havia milho, e os milheirais prometiam excelente colheita. A ganância dos negociantes seria a explicação da crise cerealífera que atormentava as gentes humildes de Guimarães.
Não conseguindo comprar o milho que era o seu principal alimento, os populares amotinaram-se:

O povo vendo este abuso, e não tendo facilidade de obter dos carros que ali estavam, milho a retalho, porque os vendedores diziam que já estava vendido, amotinou-se, e enquanto que uma parte dos amotinadores corria da feira os açambarcadores, outra parte, armados de paus e de fueiros dos carros dos lavradores, rasgava os sacos e obrigava os vendedores a medirem o milho no preço de 500 a 600 réis. Nesta luta houve ferimentos, mas felizmente sem gravidade.
Enquanto isto se passava no mercado, pequenos grupos de homens e de mulheres, também armados de paus, percorriam as principais ruas da cidade em pesquisas de carros de milho que à força obrigavam a ir para a feira, a fim de ali serem vendidos pelo preço que tinham estabelecido, não faltando ameaças aos particulares.
O Comércio de Guimarães, 13 de Agosto de 1894

A tropa apareceu depois das 9 horas, tentando impor a ordem, mas os ânimos só serenaram com o desfazer da feira. Nessa altura, a tropa retira ao quartel, para regressar quando ainda ia no seu caminho. Um grupo de populares, tendo percebido que estava a ser carregado milho e um pipo de vinho (além de roupas para lavar), no quintal de João Joaquim de Oliveira Bastos, escrivão de direito da comarca de Guimarães, arrombaram a porta que das traseiras da casa e retirou o carro aos criados do escrivão, levando-o para a feira, para ali vender o milho. Entretanto, chegou a tropa, entregou-o de novo aos criados do escrivão e escoltaram-no até à saída da cidade, para que pudesse seguir para o seu destino, a quinta de Oliveira Bastos em S. Cláudio do Barco (o milho e o vinho que carregava destinava ao consumo do pessoal da quinta). Fez-se uma prisão.
Logo a autoridade administrativa tratou de tomar medidas para evitar que a situação se repetisse e alastrasse. Na madrugada do dia13, seguiu par as Taipas uma força militar, com a missão de manter a tranquilidade no mercado que ali acontecia às segundas-feiras. Segundo o Religião e Pátria, naquele dia tudo correu em absoluta ordem e onde um pequeno distúrbio foi imediatamente reprimido, sendo preso o seu principal instigador.
No dia 14, o substituto do representante do rei no concelho, fazia publicar um edital preventivo, onde se anunciava a que os compradores de milho e cereais por junto apenas poderiam adquirir aqueles produtos depois do meio-dia, em todos os mercados do concelho. Os que violassem esta determinação seriam presos, processados e punidos por desrespeito à autoridade.
No sábado seguinte, 18 de Agosto, aconteceu o que se previa. Na feira dos cereais, apenas apareceram um carro de milho, vindo de Serafão, e alguns sacos de cabeça. No entanto, a administração do concelho movimentara-se para que não faltassem cereais no mercado. Para o conseguir, assegurou a colaboração de grandes proprietários da cidade, que foram fazendo entrar na Praça de S. Francisco carros de bois carregados de milho, uns atrás dos outros, de modo a satisfazer as necessidades de todos. Faltaram os proprietários das aldeias, porque as autoridades não puderam providenciar as condições de segurança que exigiam. O milho foi vendido por preços que oscilavam entre 680 e 720 réis. Segundo O Comércio de Guimarães, os fornecedores foram os srs. visconde de Sendelo, visconde de Nespereira, dr. Martins Sarmento, Francisco Ribeiro Martins da Costa, José Ribeiro Martins da Costa, João Baptista Leite, e outros, sendo todos dignos de louvor.
No dia 15, aquando da realização do mercado quinzenal de Vizela, houve algum tumulto. Ddiz o Independente que um grupo de populares, levando um tambor à frente, exigiu de um negociante de cereais e de um proprietário das proximidades da povoação a venda do milho por preço inferior ao do mercado.
Escrevia-se no mesmo jornal,
Neste e noutros concelhos têm-se repetido infelizmente as lutas do proletariado contra a excessiva carestia do milho, e ainda que desaprovemos os meios de que este se tem valido para fazer vingar os seus direitos, é certo que o misero operário, lidando com as agruras duma vida caríssima, rodeado de família, a cuja subsistência tem de prover, se vê obrigado a reagir contra o monopólio que sordidamente se está fazendo.
Vimaranense, 17 de Agosto de 1894

A imprensa local, condenando as alterações da ordem pública e as violações da liberdade de comércio, mostrava-se compreensiva quanto às razões da revolta do povo, como de pode ler no texto seguinte:

A fome não tem lei
A fraqueza do povo, a decadência dos costumes, a falta de actividade e energia claramente se depreende do receio da fome que a todos actualmente preocupa.
Não é só às classes bailas e menos protegidas da fortuna que o receio pelo dia de amanhã faz distender os membros em convulsões de horror, mas também aos remediados que vendo a crise que atravessamos, a tempestade que nos ameaça e o pouco que os governantes se importam com o que acontecerá, receiam por si, por suas famílias e pelos seus haveres pois que cada dia vamos de mal em pior num caminhar vertiginoso que a imprudência do nosso governo cada vez mais acelera.
A fome é manifesta, o sofrer das classes menos remediadas inegável, e percebendo-se desde muito o rugir de monstro horrendo que hoje nos persegue, ninguém até agora viu um decreto, uma medida governativa que ponha cobro à carestia, e torne mais suave a vida do pobre artista e do pequeno industrial, que necessariamente tem de definhar-se à falta de alimento, por não poder nos mercados adquirir por preço razoável os géneros de primeira necessidade, que lhe são indispensáveis à vida.
O pão e o vinho estão excessivamente caros, e ao artista faltando-lhe o trabalho cerceia-lhe a féria, único recurso de que dispõe: e esta crise sentimo-la porque o nosso governo, em vez de facilitar aos laboriosos o meio de viverem honrados, desperdiça os magros recursos do tesouro em festas e bambochatas esplendorosas, para assim iludir o rei e os incautos, insinuando-lhes que vivemos num mar de rosas e nadamos em rios de dinheiro, quando a verdade sem rebuço é que a maior parte do povo estiola à fome.
Remedeie-se este mal, acabem as fantasmagorias, diga-se a verdade ao rei, e não se queira viver à custa do sangue do povo, porque, se paciente qual enfermo, tolera que o sangue em pequena dose, como se fez há dias com o decreto da contribuição industrial, não contente que o escarneçam, exibindo-lho o que ele não pode dar pelo pão de que carece, e vive, e isto por culpa dos governos que acham mais lisonjeiro o ser agradável ao rei e aos amigos, do que bem servir a pátria e fazer um bom lugar.
Porém, haja cautela que a grade massa popular, no delírio da fome, não comece a bracejar, (e essa sinfonia já se manifesta nos pequenos mercados) pois se o tufão se levanta, de pouco serve o amainar as velas, porque o naufrágio é certo.
E sendo assim, haja a máxima prudência e a maior cautela, porque se a lei tudo governa e a força tudo doma, a fome não receia a força, porque a fome não tem lei.
A. M.

Vimaranense, 24 de Agosto de 1894

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