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Efeméride do dia: À espera do comboio

(Fotografia da CP)

22 de Agosto de 1857
Tem esta data uma representação de 313 vimaranenses, a El-rei, pedindo que quando esta província fosse atravessada por uma via-férrea, fosse esta dirigida a tocar em Guimarães; e quando razões poderosas fizessem que a directriz fosse outra, pelo menos se construísse para aqui um ramal.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 168)
Introduzido em Inglaterra no início do segundo quartel do século XIX. Recebido inicialmente com desconfiança e medo, rapidamente se tornou num indicador de progresso. A primeira via-férrea portuguesa ligava Lisboa ao Carregado e foi inaugurada no dia 28 de Outubro de 1856, dando início a uma grande discussão sobre que linhas deveriam ser construídas a seguir e quais os seus percursos. Mas também se discutia sobre a razão de ser da prioridade do investimento nas linhas de caminho-de-ferro num país onde ainda faltavam estradas. Logo em 1857, avançou-se com o projecto da linha que deveria ligar as duas maiores cidades do país, Lisboa e Porto. Quase em simultâneo, começa a falar-se na construção da Linha do Minho, desde o Porto a Caminha, apontando na direcção de Vigo, na Galiza. O seu traçado esteve na origem de uma controvérsia que durou mais de dez anos.
A ideia inicial era a da instalação de uma linha que seguisse pelo litoral. Desde logo, não faltou quem defendesse uma outra directriz, que assegurasse que a linha do Minho serviria as vilas e cidades desta província. A certa altura, começa a ganhar forma a ideia de levar o caminho de ferro-do-Porto a Vila do Conde, fazendo a linha seguir pela margem esquerda do rio Ave, passando por Santo Tirso em direcção a Guimarães, seguindo daqui, pelas Taipas, para Braga, Barcelos, Esposende, Viana do Castelo, Caminha e Valença.
As diferentes localidades começaram a movimentar-se, cada qual defendendo o percurso que melhor a servisse. Braga e Barcelos enviam representações ao rei, pedindo que o caminho-de-ferro atravessasse aquelas povoações. Guimarães fez o mesmo. No dia 19 de Agosto de 1857, a Câmara remeteu ao rei uma representação em que começa por afirmar que a utilidade das vias-férreas é hoje tão universalmente sentida, que não há quem as não deseje, e as não reclame. Perante a eminência da apresentação de um projecto de carril de ferro do Porto a Valença em ordem a comunicar-nos com a máxima parte das Nações da Europa, a Câmara vimaranense argumenta com as vantagens dessa linha comunicar com as principais Cidades e Vilas desta Província. Porque, merecendo Guimarães pela sua posição, riqueza e indústria ser ponto de passagem da linha do Minho, a Câmara invoca a conveniência de se derivar daquela linha um ramal, que tocando nesta mesma cidade siga depois pelos concelhos de Braga, Esposende, e Barcelos.
Três dias depois, a 22 de Agosto, era entregue nas mãos do representante do rei em Guimarães, o Administrador do Concelho, um abaixo-assinado subscrito por 313 pessoas, em que, em nome dos habitantes de Guimarães, em que se pede que, quando esta província venha a gozar o incomparável benefício do ser atravessada por uma via-férrea, seja esta dirigida a tocar em Guimarães; e quando razões ponderosas façam que directriz seja outra, pelo menos se construa para aqui um ramal.
A definição do traçado da linha Porto-Valença arrastar-se-ia por mais de uma década, sendo particularmente acesa em 1866, afirmando-se como uma das razões do aprofundamento da rivalidade entre Guimarães e Braga que irá marcar o final do século XIX. Guimarães continuava a defender um traçado que servisse as vilas e cidades do Minho, enquanto que Braga perfilhava uma ligação mais directa à Galiza, passando, obviamente, pela cidade dos arcebispos, mas não por Guimarães. Será essa a solução adoptada. No dia 6 de Agosto de 1882, foi inaugurado o último troço da linha do Minho, que ligava Segadães a Valença.
Menos de dois anos mais tarde, o comboio também chegava a Guimarães. Mas esse será assunto para outro dia.


A questão do traçado da linha do Minho do jornal A Tesoura de Guimarães
As nossas ideias, sobre caminhos-de-ferro de sobejo as temos feito patentes, e, não obstante o que temos visto escrito em contrário a elas, declaramos, que nas mesmas persistimos, por que ainda não vimos argumentos, que nos convencessem. Desejamos ardentemente ver o solo português cortado em todas as direcções por boas estradas macadamizadas; e sentimos amargamente, que, com raríssimas excepções, não vejamos em Portugal mais que caminhos estreitos e tortuosos, que oferecem a cada passo um precipício! — Qual será o motivo? — Todos respondem: porque não é possível por enquanto haver outros. Faltam os meios. —
Desejamos com ansiedade ver os rios encanados e navegáveis, e as suas barras livres, e desembaraçadas para a franca passagem desses armazéns, casas, palácios, e castelos flutuantes; e, com mágoa, não vemos mais do que dilatadas correntes cheias de baixos, e cachopos, com portos obstruídos! Qual será o motivo? — Todos respondem: não há meios para obras tão dispendiosas.
Desejaríamos depois disto boas estradas de ferro, prata, ou ouro, se as nossas possibilidades o permitissem, e os nossos interesses reais o demandassem, preferindo-as sempre no terreno, em que faltasse outro meio de cómoda e rápida comunicação; e as feitas por empresas puramente particulares, sem outra ingerência governativa, mais que a fiscalização, àquelas feitas pelo público; mas em contraposição a elas, sem termos estradas, pelas quais nos dirijamos aos caminhos-de-ferro, vêmo-lo contratado de Lisboa ao Porto, e em arranjos de contrato outro do Porto a Caminha, com direcção a Vigo, e outro de Lisboa a Elvas com direcção a Badajoz: sendo de notar, que os dois primeiros vão a par, ou quase a par do caminho espaçoso, que a natureza nos deu, sem nos pedir sequer o valor de cinco réis, e pelo qual velozmente passam transportes movidos a vapor!
O ferro-carril do Minho é, portanto, a ordem do dia não só no Porto e em Lisboa, mas também nesta província, muito particularmente depois que o nosso colega, o Nacional, disse, que, parecia, ia sofrer alteração a directriz, que a princípio se lhe dava; desviando-se dela em Vila do Conde para seguir a margem esquerda do Ave, tocando em Santo Tirso, Guimarães, Taipas, Braga, Barcelos, com direcção a Viana do Castelo, Caminha e Valença.
Já vimos uma representação de habitantes de Braga, e outra da Câmara municipal de Esposende, e, parece, se trata de promover outras em favor do projectado caminho-de-ferro do Porto a Vigo, compreendendo a terra dos representantes na direcção do caminho.
Bem sabemos nós aonde vão, ou podem ir tais representações, e o fim para que se promovem; porem, como é nulo tudo quanto dizemos, e pensamos, e só tem valor o posso, e quero, se havemos de pagar para comodidades dos outros, bom seria fizéssemos real a notícia, que, com tanta rapidez, chegou aos ouvidos do nosso colega, o Monitor, publicada no seu n.º 40, e mesmo, que se assinassem essas representações, que ainda estão no tinteiro, ou existem escritas em segredo: não se diga depois, que não temos comodidades, por que as não pedimos, vindo a ficar sem estradas de ouro, prata, ferro, ou cascalho.
Dispensamos qualquer outra consideração a este respeito, e oferecemos aos nossos leitores, com a devida vénia, aquelas que o mesmo Monitor apresenta no seu supra citado número.
As propostas para o contrato deste caminho são muito mais vantajosas, do que as condições do contrato já aprovado, segundo dizem, mas nem por isso deixam elas de ser ainda muito pesadas, e superiores às nossas forças; contudo, entre os males, preferimos o menor.

José Inácio de Abreu Vieira.
~*~
Eis o que diz o Monitor:

“Segundo lemos no nosso colega o Nacional de sexta-feira, parece que sofrerá alteração a directriz que a princípio se indicara para o ferro-carril do Minho, e que em lugar de ir inteiramente pelo litoral, pelo contrário acompanhará a margem meridional do Ave, para também abranger Santo Tirso, Guimarães e Santo António das Taipas.
Agrada-nos ainda mais este traçado, por que ele vai atravessar as mais importantes cidades do Minho — o Porto, Guimarães, Braga e Viana, ligando com elas os distritos mais férteis, e algumas das maiores vilas da província.
Demais, é certo que um caminho-de-ferro nunca pára, e, realizado ele, o veríamos estender ramais para povoações mais distantes, que não quereriam ver-se excluídas deste imenso benefício.
Entretanto é muito para sentir se a Póvoa de Varzim ficar excluída dele.
A Póvoa de Varzim é a vila mais populosa de Portugal.
A Póvoa de Varzim tem uma indústria importantíssima, a do peixe, em que se empregam mais de 300 embarcações, e talvez delas dependam 12.000 almas, ou a subsistência delas.
O consumo da Póvoa de Varzim, sobretudo de pão e vinho, é enorme.
Se a Póvoa de Varzim pudesse levar a sua pescaria, tão fresca como sai do mar aos mercados do Porto, de Guimarães, de Braga e de Viana, gastando só minutos no trajecto, e por mui pequena despesa, é de presumir que em mui breves anos duplicaria a sua indústria marítima, e a sua população, com manifesto proveito do Estado.
Seria pois árduo que, por coisa do meia légua, que nem tanto é a distância de Vila do Conde à Póvoa, esta vila só viesse a usufruir parte dos benefícios, e que o transporte por tão curta distância lhe custasse quase tanto, como a condução para o Porto ou para Guimarães!!
Além disso, é preciso não perder de vista que a Póvoa de Varzim é importantíssima para os banhos do mar. Que de Braga, Guimarães, e todas essas vizinhanças vai imensa gente procurar saúde naquelas praias, e por isso a ramificação para a Póvoa não deve ser desprezada.
Estamos certos que a Póvoa de Varzim não se conservará silenciosa em tão momentosas circunstâncias, e elevará uma petição a Sua Majestade contra um projecto ou novo traçado, que a prejudicaria de uma maneira dolorosamente sensível ao desenvolvimento da sua indústria, e muito mais à sua propriedade.”
A Tesoura de Guimarães, 21 de Agosto de 1857

A representação da Câmara municipal desta cidade, que em lugar competente publicamos, parecerá aos nossos leitores, de fora desta cidade, um desmentido, ao que a tal respeito dissemos no artigo de fundo do número anterior, visto que sendo ele escrito no dia 20 , a representação tem a data de 19.
Antes de escrevermos este artigo, tínhamos escrito outro no dia 17 , no que se diz, que o papel sofre tudo quanto queiram pôr-lhe — e no artigo do n.° anterior, a que nos referimos, dissemos — que as representações estavam ainda no tinteiro, ou existiam — “escritas em segredo.” —
Que a Câmara havia de requerer não nos era óbvio, por que sabemos, que estas representações convêm, e sabíamos das recomendações que havia para as promover, e de algumas pessoas a quem se tinha encarregado promove-las; mas a verdade, é, que o povo “graúdo e miúdo” era estranho a estes manejos, ignorando agora mesmo, que são 8 horas da noite do dia 24, a maior parte dele, que existe tal representação, porque ela não foi movida por entusiasmo manifestado pública ou particularmente, mas sim por que a Câmara pensou como nós pensamos, ou por que cedeu às diligências, de quem a promovia; sendo certo, que, conquanto tenha a data de 19, só foi entregue no correio para a sua direcção no dia 22 por horas da tarde.
De resto, tanto a ela nos não opomos, que até a aconselhamos. Se devemos pagar, e é “vantajoso”, um caminho-de-ferro do Porto a Vigo, de melhor vontade pagaremos, e mais vantajoso será ao comércio em geral, que as vilas e cidades do interior se comuniquem rapidamente com as vilas, e cidades marítimas, e que por esta forma se nos dê no espaço de anos, uma estrada tal, que ponha o Porto, Vila do Conde, Póvoa do Varzim, Santo Tirso, Guimarães, Braga, Barcelos, Esposende, Viana, Caminha, Valença, Monção e Melgaço tão próximas umas das outras, que sejam todas elas consideradas uma, e a mesma cidade; fazendo-se desta sorte um caminho verdadeiramente comercial para a província do, Minho, e não uma via de comunicação entre Vigo e o Porto mais própria para tomar banhos do ar do mar, do que para promover os menores interesses da província.
Somos obrigados a dar esta satisfação, porque não toleramos sequer uma suspeita de que escrevemos dominados por paixão com menos respeito à consciência, ou à verdade.
J. I. de Abreu Vieira.

Representação que o S. Majestade elevou a Câmara municipal desta cidade.

CÓPIA.

Senhor — A utilidade das vias-férreas é hoje tão universalmente sentida , que não há quem as não deseje, e as não reclame. — Por isso se porventura algum projecto aparece neste sentido, são logo os povos os primeiros, que o bem dizem, e aplaudem. Assim sucedeu a esse, que, ou foi, ou vai ser submetido ao Governo de Vossa Majestade para um carril de ferro do Porto a Valença em ordem a comunicar-nos com a máxima parte das Nações da Europa. Se este projecto for acolhido por Vossa Majestade, como é de crer que o seja, mais vantajoso será por certo, se comunicar com as principais Cidades e Vilas desta Província. — E então, sendo indubitável, que Guimarães pela sua posição, riqueza e indústria é das primeiras, que merece ser contemplada naquela comunicação, vem a Câmara desta cidade lembrar com todo o respeito a Vossa Majestade a conveniência de se derivar daquela linha um ramal, que tocando nesta mesma cidade siga depois pelos concelhos de Braga, Esposende, e Barcelos.— E pois que é tão palpável a justiça e utilidade desta pretensão, fica esta Câmara intimamente persuadida e confiada de que não recorre em vão ao trono de Vossa Majestade.
Guimarães em Câmara de 19 de Agosto de 1857
Presidente
João Carlos de Araújo Portugal.
Fiscal
Domingos António da Silva.
João António de Oliveira Cardoso.
Custódio José Gomes.
João de Castro Sampaio.
A Tesoura de Guimarães, 25 de Agosto de 1857

Representação que os habitantes de Guimarães elevaram à presença de S. M. depositando-a, para a remessa, nas mãos do ilustre administrador deste concelho.
SENHOR.
Tendo esta cidade de Guimarães uma página muito brilhante em nossa história, avultando bastante na carta geográfica do país, e, mesmo incomunicável como está, sendo tão reconhecidas sua riqueza e indústria, por certo deve merecer a atenção do Governo de VOSSA MAJESTADE, fazendo-a quinhoar das vantagens às outras grandes terras concedidas. Sabendo pois que ao Governo de VOSSA MAJESTADE vão ser apresentadas propostas para a construção duma via-férrea desde o Porto a Valença, e imitando o exemplo da Câmara Municipal que nisto foi muito fiel intérprete; dos povos a seu cargo, vão os abaixo assinados respeitosamente aos Pés de VOSSA MAJESTADE, e
Pedem, quando esta província venha a gozar o incomparável benefício do ser atravessada por uma via-férrea, seja esta dirigida a tocar em Guimarães; e quando razões ponderosas façam que directriz seja outra, pelo menos se construa para aqui um ramal.
E R. Mc.e

Levou 313 assinaturas.
Guimarães 22 de Agosto de 1857.

A Tesoura de Guimarães, 15 de Setembro de 1857

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