27 de julho de 2013

Guimarães na obra de Camilo Castelo Branco (11)

Camilo Castelo Branco

– Diga-mo agora, minha mãe, que eu receio não poder ouvi-la na sepultura. Os ouvidos dos mortos estão cheios de vermes... A podridão é surda. Para onde iremos? Eu não quero morrer, mãe! Tenho dois filhos: tenho minha mulher, que nos está ouvindo, posto que esteja morta, e tenho minha mãe que me dá exemplo de coragem. Hei-de sobreviver ao degredo. Diga-me para onde iremos...
– Para a casa onde nasceu teu avô, se a casa ainda existir.
– Para Guimarães? Sei que meu pai tinha comprado esse pardieiro aos oficiais de meu bisavô cuteleiro...
– Comprou... Vaticinava-me o coração que eu iria acabar na casinha da rua de Infesta onde começara a sentir a felicidade. Pedi a teu pai que a comprasse aos mesmos a quem a déramos, quando meu avô morreu... Bem sei que me hão-de traspassar cruéis angústias quando entrar naquela casa... Não importa... Se me queres acompanhar, Jorge, vem comigo; depois, irás para Lisboa, melhorar a tua vida, que ainda pode ter algum contentamento, e vai ver-me uma vez por outra.
– Não nos separaremos – volveu o filho. – Desde que saí do sepulcro da Inquisição ainda não vi o sol da alegria que dá o sentimento íntimo da vida. Que me faz Lisboa? que me importam os triunfos de advogado, se já os não posso repetir? Não tornarei a ser o que fui... E que fiz eu?... A desgraça apagou-me a memória. De todos os meus estudos e triunfos apenas colhi uni amigo, um homem de quem o povo pedia a cabeça, quando eu o arrancava às mãos do algoz. Salvei-o, e... desprezava-o!... mas Pedro Supico de Morais, dando-me a liberdade e o direito ao trabalho, faria de mim o antigo homem, se eu pudesse recompor o cérebro que me fizeram pedaços e mo arrancaram nas lágrimas. Tenho obrigação de viver, porque sou filho, esposo e pai. Privaram-me dos meus filhos; levaram-mos como reféns da minha fé; serão jesuítas, serão padres, se eu quiser alguma vez, na minha vida, estreitá-los ao peito e dizer-lhes que sejam hipócritas para que seu pai não volte ao cárcere. A condição para que eu viva é que eles sejam imolados... a Deus! Seja assim... Vamos, minha mãe, vamos para o pobre casebre donde saiu seu pai a implantar na terra uma árvore de vergônteas malditas regadas com o seu sangue... Esperemos lá os meus filhos; não nos resta esperar outra alegria antes do último sono do sepulcro.
Nos últimos meses de 1707, Jorge Mendes e sua família residiam em Guimarães, na casa onde nascera Domingos Leite Pereira, setenta e oito anos antes. Ângela, se antevisse a cerrada tristeza que a esperava naquele recinto onde volteavam as sombras do avô e do marido, teria o egoísmo de se arredar de um suplício de nenhum modo compensado. No engano de Ângela há exemplos de muitos iludidos. Figura-se-nos que no sítio onde nos bafejou a felicidade ainda poderemos aquecer ao calor das recordações a alma retransida das glaciais desgraças. Pinta-se-nos na fantasia alucinada por saudades que as pessoas mortas, que lá nos floriram a vida, deixaram. toques de suave melancolia impressos na tela desluzida da nossa mocidade. Prelibamos o agro das lágrimas que vamos chorar; mas cuidamos que, depois das primeiras angústias, se nos há-de a alma ir serenando em doces quebrantos daquela melancolia cismadora que é o remanso, onde a vaga tormentosa quebra e adormece. Funesta miragem! Os repulsos das alegrias do presente que aí vão buscá-las onde lhes ficou o túmulo delas, encontram a desolação, as ruínas das coisas reais sobre as ruínas das imagens redivivas na saudade. Os mortos amados erguem-se ante nós; mas hirtos, taciturnos, com as pálpebras roxas da tabidez dos vermes, e outra vez se reclinam no seio da sua podridão. Tudo aniquilado e perdido! Se aí há desafogo algum, é para aqueles que se compenetraram da bem-aventurança da morte – o grande abismo de tudo, a eterna serenidade do nada.
O diadema de Santo Inácio de Loiola parecia perpetuar-se na ciência da sua progenitura espiritual. Os filhos de Jorge Mendes, António e Francisco Xavier, fadara-os o vaticínio dos mestres para os elevados postos da Companhia. Em 1709 eram eles os mais distintos alunos do colégio em Coimbra; mas o braço poderoso de Pedro Supico de Morais ousou chegar aí e arrancar do tesouro da próvida Companhia aqueles dois preconizados sucessores da dinastia do talento.
Jorge Mendes confidenciara-lhe a mágoa de se ver apartado dos filhos, sendo essa uma cruel pena a que o Santo Ofício expressamente o não sentenciara. Queixava-se de que os jesuítas desatassem os vínculos da família, degenerando em quase indiferença o amor que seus filhos tiveram aos pais, até à hora em que a Companhia os avassalara. Carpia-se por se ver obrigado a dissimular e transigir com essa ímpia tirania, receoso de recair nas masmorras do Santo Ofício e enredar os filhos na sua irremediável perdição se o acusassem de reincidência. Mostrava ter informações de que os seus inimigos se confederavam para reagir à influência do infante D. Francisco, suspeitando-o insidiosamente à Inquisição, que o trazia espiado pelos seus familiares em Guimarães, que eram os mais fidalgos e os mais devassos moradores da terra, Finalmente, pedia ao valido do infante prior do Crato que por algum modo fizesse saber a seus filhos que se não esquecessem dele, nem aceitassem como divino o sevo preceito que impõe aos filhos a barbaria de desprezarem seus pais por amor de Deus.
Pedro Supico não se considerava ainda bastante desobrigado com o defensor que o salvou do patíbulo ou do degredo perpétuo. Por mediação directa de D. Francisco de Bragança, os filhos do bacharel Mendes Nobre foram transferidos do colégio das Artes a fim de serem empregados no serviço do infante. Impugnou a Companhia alegando o primeiro voto e a vocação dos moços devotados liberrimamente ao instituto. Por secreta via, receberam os noviços conselhos do pai e do subsecretário de D. Francisco. Os rapazes, desoprimidos do temor de exporem o pai às insídias de inimigos, despiram o hábito com desafogo, e respiraram a haustos o primeiro ar de liberdade na juventude. Paulo tinha vinte anos, e dezoito Francisco Xavier. O primeiro estudou jurisprudência; o segundo continuou teologia. Nenhum estorvo lhes dificultou a carreira. Os padres da Companhia doeram-se da perda, mas não se vingaram dos trânsfugas, conforme os ardis da Monita secreta, delatados ao ódio público pelos atrabiliários amanuenses do marquês de Pombal, meio século depois.
Os filhos de Jorge Mendes alegraram a precoce velhice de seu pai, e assistiram aos paroxismos de sua avó. Ângela finou-se em 1712, à volta dos sessenta e oito anos. Dado que cortadas de dores, as fibras desta raça de gente resistiam com rara tenacidade de vida. Dir-se-ia que as molas orgânicas da matéria se desgastam menos quando sobre a alma é que as dores actuam.
(Camilo Castelo Branco, A Caveira da Mártir – Introdução, 1876)


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