21 de julho de 2013

Guimarães na obra de Camilo Castelo Branco (7)

Camilo Castelo Branco

GIL VICENTE
Descobri o sítio onde ele nasceu em Guimarães. Já o disse ao País em uma novela, e ninguém fez caso disso. El-rei não me deu o hábito de Santiago, que eu tinha de olho. Também eu desisti, por vingança, de fazer saber a el-rei e ao País onde nasceu Manuel Mendes Enxúndia.
Dos peitos nobres a vingança é esta.
Era filho de Martim Vicente, ourives, e neto de Fernão Vicente, sapateiro, morador no Casal da Laje, freguesia de Santo Estêvão de Urgeses, nos arrabaldes da antiga Guimarães. Gil Vicente é o criador da grande e gordurosa chalaça lusitana em diálogo e o revelador da linguagem usada na corte de D. Manuel e nas alcovas das rainhas quando elas davam à luz os seus infantes ou festejavam o natalício do Menino Jesus. Como só temos impresso o vocabulário desse século nas obras de Gil Vicente e nos falta a crónica dos costumes da vida íntima, não sabemos se o comportamento das famílias era cândido como os seus dizeres. As rainhas riam muito quando assistiam ao parto duma personagem em cena, ajudado pelas pitorescas reflexões da parteira, que, em presença de Suas Altezas, fazia o mesmo que fez o filósofo Alcidamas, com o mais cínico desvergonhamento, no banquete do grego Luciano. Com tal baptismo, raiou a arte cénica em Portugal, e não há confrontá-la com os mistérios franceses e italianos, com os milagres em Inglaterra e com as comédias de Nabarro, impressas em Nápoles em 1517.
Gil Vicente saiu da Idade Média com toda a sua originalidade estreme e crua.

(Camilo Castelo Branco, Cancioneiro Alegre, 1879)
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