15 de julho de 2013

Guimarães na obra de Camilo Castelo Branco (2)

Ruínas da Citânia de Briteiros (fotografia de Francisco Martins Sarmento)

A Citânia de Briteiros (das Memórias do Cárcere)
A meia légua das Taipas, tem Francisco Martins uma quinta, chamada de Briteiros. Na casa magnífica da quinta vivia um par de cônjuges decrépitos, antiquíssimos criados de pais e avós do meu amigo. A extensão de salas, câmaras, corredores em longitude e forma conventual, de tudo me senhoreei. Escolhi o quarto, cujas janelas faceavam com um recortado horizonte de arvoredos, e a cumieira chã dum serro onde se divisam as relíquias de antiga povoação, que lá dizem ter sido Citânia, cidade de fundação romana.
Algumas horas ali passou comigo Francisco Martins; mas o máximo dos dias e as noites vivi diante de mim próprio, na soledade daquele quarto, ou em perigosas excursões à serra sobre um cavalo, que parecia vezado a passear sobre alcatifas.

Amanheci um dia entre as ruínas da presumida Citânia. Vi algumas pedras derruídas em cômoros, as quais denunciavam ausência de toda a arte, para de pronto desvanecer conjecturas de edificação regular. Existiam vestígios de cisterna, e descalçadas lajes dum caminho de pé-posto, que sem dúvida tinha sido estrada. A meu parecer, não irá longe da fundação da monarquia portuguesa a construção daquele presídio, se tal nome lhe cabe em vista dos estreitos limites do terreno plano. Pode ser que, nas guerras de desmembração, sequentes às primeiras conquistas do conde Henrique, guerras tão cruamente pelejadas nas circunferências de Guimarães até às indeterminadas fronteiras, aquele ponto, onde os visionários vêem cidades cartaginesas e romanas fosse singelamente um miradoiro de observação, que abrangia grande parte do território convizinho de Guimarães, então foco das operações militares da recente monarquia. Como quer que seja, a chamada Citânia faria derrear um antiquário, sem ele descobrir nas ruínas dela pretexto a narcotizar com um in-fólio a porção do género humano, que ainda crê nas visualidades de antiquários, e decifrações arrevezadas de pedras, e quejandos desfastios de sábios em medalhas e cipos – a gente mais estafadora do mundo. O Sr. Domingos e a Sra. Rosa (eram os cônjuges meus familiares) contaram-me que lá em cima na Citânia estavam moiras encantadas, que eles tinham visto em certas noites vaguearem em torcicolos com luzinhas pelo pendor da serra. Não desfaço na palavra do Sr. Domingos e da Sra. Rosa; mas inclino-me a crer que os velhinhos vissem pirilampos. O mesmo não direi de outra moira que viera num berço à flor do rio Ave; e no momento em que o encanto se lhe quebrou, o berço se converteu em alva fraga. Nenhuma dúvida há: lá está a fraga. A Sra. Rosa sabia as lendas todas, que Almeida Garrett publicou, já desluzidas da campestre originalidade em que mas ela repetiu.
Camilo Castelo Branco, Memórias do Cárcere, 1864
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