14 de julho de 2013

Guimarães na obra de Camilo Castelo Branco (1)

Primaira edição de Memórias do Cárcere

Das Memórias do Cárcere:
Refrigerados os ardores da quase infantil saudade da terra em que entrevira o crepúsculo, o crepúsculo somente do meu primeiro dia feliz, saí do Porto, e fui a Guimarães não sei para quê, nem com que destino.
Não sei como é que os desgraçados se consolam viajando! Penso que a dor da alma venda aos olhos do rosto o que há belo na natureza, e na mudança das cenas dela. Só bem contempla, e folga de contemplar, o juízo que bem regula, e os sentidos desapaixonados e desprendidos de afectos, que mandam connosco a mortificação da saudade.
Vi lá em baixo, entre florestas e jardins, o berço da monarquia, a faustosa cidade que teve academia de sábios, que rivaliza com as mais graduadas, em seu tempo, na capital. Nada me lembrou de Guimarães, ao descortiná-la por entre a abóbada do arvoredo, senão que ali haveria um leito onde eu encostasse a cabeça esvaída de febre. Nem sequer me ocorreu que as mais lindas mulheres, que um viajante francês encontrara na península, eram de Guimarães; e que, numa aldeia daqueles arrabaldes, também o Sr. A. Herculano se depararam as mais formosas.
Muita coisa haveria bonita em Guimarães; mas o que não houve lá para mim foi um leito onde encostasse a cabeça.
Guiaram-me para o primeiro hotel da terra; denominado o da Joaninha. Este nome soara-me como de bom agouro.
Muita gente desadora o nome Joana. Eu também tinha esse capricho de mera eufonia, antes de Almeida Garrett lhe dar foros de lindeza, que os não tem de maior melodia Beatriz ou Laura. Antes das Viagens na Minha Terra, todas as Joanas, exceptuada a santa, vistas à luz da história, me pareciam viragos, mulheres-homens refractárias a ternuras, e desenfeitadas de seus naturais adornos.
Aí vai erudição a froixo, como é moda:
Joana de Navarra espostejou o exército do conde de Bar, como qualquer senhora de sua casa rasga peças de bretanha para o seu bragal.
Joana, mãe de Henrique IV, introduziu o calvinismo em França, e teve por isso o desgosto de morrer empeçonhada pelos católicos. Calvinista! Deus nos defenda. Outra Joana Henriques, rainha de Navarra, morreu em guerra, defendendo uma praça da Catalunha.
Lembro-me agora duma Joana, que me faz piedade. Era a mãe de Carlos V, denominada a louca. Ensandeceu-a o desprezo do marido, o arquiduque de Áustria, que a teve em ferros cinquenta anos!
Mas outra Joana me acode logo a desvanecer a piedade daquela: é Joana de Nápoles, que faz matar o marido, e casa com o assassino, e por isso veio a morrer esganada.
Uma outra Joana, sucessora daquela, é uma ladainha de reais escândalos e homicídios de amantes.
Com Joana d’Arc não simpatizo. Aquela heróica restauração de Orleães, se fosse obra miraculosa da donzela, nem assim a lustrava mais em minha opinião. Uma menina, que acutila ingleses por ordem da divindade, dá ruim ideia de Deus, e do seu coração. E que me dizem duma Joana, que teve o desaforo de fingir-se homem, e subir na jerarquia eclesiástica até fazer-se papa, e denominar-se João VIII?! A esta hora estava este João canonizado, se Joana, quando ia em procissão, não dá à luz do dia e dos círios um robusto menino! Ora vejam por que mãos tem andado a tiara de S. Pedro*! Não me lembram outras Joanas execráveis, senão a Sra. Joaninha da estalagem de Guimarães.
O diminutivo aqui é figura que os retóricos nomeiam antífrase. Joaninha é duma velhez repelente, e está curtida em camadas de lixo empedrado. A sua casa é um pântano de miasmas, e os seus leitos guardam nas furnas, roídas pelo dente dos séculos, muito bicho, coevo do rei Bamba, que lhe cravou a oliveira à porta. O repasto, que ali se dá na banca de pinho contígua ao leito, seria um cozinhado de Locusta, se tivesse a subtileza dos celebrados venenos da romana. É coisa que puxa pelo estômago, e o desmancha febra a febra.
Não vi onde encostar a cabeça febril, e lembrou-me que tinha ali um conhecido, um poeta, um homem de existência amargurada. Procurei o conhecido, e achei um amigo, como usam raramente ser os irmãos, em Francisco Martins.
Não vi onde encostar a cabeça febril, e lembrou-me que tinha ali um conhecido,
um poeta, um homem de existência amargurada. Procurei o conhecido, e achei um
amigo, como usam raramente ser os irmãos, em Francisco Martins.
Dera-mo a Providência. Os infelizes todos têm uma. Deus sonda os corações; dói-se dos que espiam culpas suas; e desce até eles, na imagem dum homem, quando todos os abandonam.
Pernoitei no ergástulo da Sra. Joaninha, e fui no dia seguinte para as Caldas das Taipas esperar que Francisco Martins me lá desse um leito em sua casa, e um talher à sua mesa.

*Isto corre assim contado em algumas histórias eclesiásticas. É fábula engenhada pelos protestantes, no intuito de desvirtuarem o pontificado. Agora os próprios protestantes rebatem a invenção da papisa Joana. (Nota da segunda edição.)


Camilo Castelo Branco, Memórias do Cárcere, 1864, do discurso preliminar.
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