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Efeméride do dia: O teatro do mundo, segundo frei Bernardino

A Virgem e o unicórnio, pintura a fresco de Domenico Zampieri, séc. XVII. Palácio Farnese, Roma. 

31 de Julho de 1739
É doutorado em Coimbra frei Bernardino de Santa Rosa, da Ordem dos Pregadores, vimaranense muito ilustre, não só pelos cargos que exerceu na Ordem, mas também pelas obras que deixou escritas.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 87.)

Quando escreveu o seu Dicionário Bibliográfico, Inocêncio Francisco da Silva ignorou o escritor Fr. Bernardino de Santa Rosa, o que lhe valeu um remoque de Camilo Castelo Branco num texto que o romancista dedicou ao livro que transformou o ilustre vimaranense numa figura incontornável do pensamento português do século XVIII:
Mas o livro! Quem tem este livro? É coisa tão rara que até o meu amigo Inocêncio Francisco da Silva o desconhece. Chama-se Teatro do mundo visível. Encolher-lhe o restante do título seria um defraudar-lhe a substância: além de visível este teatro do padre é filosófico, matemático, geográfico, polémico, histórico, político, e crítico.
Esta referência de Camilo faria com que Frei Bernardino tivesse direito a um verbete no primeiro suplemento do Dicionário Bibliográfico, onde Inocêncio explica que a razão da sua omissão não era o desconhecimento, antes pelo contrário:
Deste Theatro tirou o sr. Camilo Castelo Branco assunto para um folhetim científico, que saiu primeiro no Diário de Notícias, e foi depois coligido nas Cousas leves e pesadas, de pág. 99 a 112. O meu amigo diz aí ser este livro coisa tão rara, que até eu o desconheço! Permita-me dizer-lhe que nesta parte se engana, pois conservo da tal raridade um exemplar há mais de vinte anos. O que porém é verdade; é que se me afigura ver nele um armazém de despropósitos, e absurdos peripatéticos, tal, que escrupulizei (como em outros casos semelhantes) de gastar na sua descrição, e em dar notícia do autor, algumas linhas do Dic. Este o motivo da omissão.
(Inocêncio Francisco da Silva, Dicionário Bibliográfico Português, Tomo VIII, Imprensa Nacional, p. 388)
Diogo Barbosa Machado, autor da Biblioteca Lusitana, contemporâneo de Frei Bernardino de Santa Rosa, não ignorara este escritor, descrevendo-o como egregiamente instruído nas letras humanas, História Eclesiástica e Secular e nas disciplinas Matemáticas.
Pinharanda Gomes publicou em 1984, no Boletim dos Trabalhos Históricos, um estudo sobre Frei Bernardino de Santa Rosa e a sua obra Teatro do Mundo Visível, enquadrando-a no contexto da polémica que suscitara a publicação da obra monumental, do iluminista galego Padre Benito Jeronymo Feijóo, Teatro Crítico Universal (publicada em 9 volumes, entre 1726 e 1740). Decerto mau físico, mas superior metafísico e simbolista, como o classificou Pinharanda Gomes, Santa Rosa procura desmontar o pensamento naturalista, racionalista e experimental com que Feijóo construiu o seu Teatro crítico Universal.
Escreveu Pinharanda:
Feijóo nega a realidade da Atlântida, mas o dominicano prova logicamente a sua existência no mar Atlântico. Contra Aristóteles, Feijóo nega que o fogo etéreo exista no côncavo da lua, enquanto o pregador restaura o ensino de Aristóteles. Contra o iluminista, o dominicano argumenta que o Paraíso existiu, e ainda existe, ˗ “é o lugar genuíno destinado na terra para a felicidade dos homens inocentes”, possivelmente em lugar desconhecido. A existência do Reino do Preste João, negada por Feijóo, é dada como segura pelo opositor, que diz: tal existência é pelo menos “moralmente certa”. Contra Feijóo, Bernardino, diz que o ouro é primogénito do Sol, por ao metal mais nobre corresponder a causa mais sublime, o Sol.. E há gigantes e há pigmeus, contra o juízo do galego, por isso que a Bíblia se lhe refere, antes do Dilúvio. O mundo está cheio de rémoras, délfios, unicórnios e basiliscos, contra o que a cegueira de Feijóo julga ver. A rémora existe nos mares, e os unicórnios - em sublime texto abordados por Santo Alberto Magno - dormem no regaço das donzelas. É sinal de estupidez a negação do “canto ·do cisne”, pois o hábito do último canto do cisne pertence a uma variedade de cisnes, o cisne cantor, o que aliás ficou demonstrado na história natural moderna. Com efeito, segundo o pregador, a mais notável qualidade do cisne é o doce canto enquanto morre, sendo, por isso, figura do estoicismo cristão: viver bem e morrer melhor. O mundo está prenhe de: sereias, marinos e anfíbios, tanto como está sujeito aos “horrendos fenómenos”, como chuvas sanguíneas e batalhas aéreas.
(Pinharanda Gomes, “Bernardino de Santa Rosa, a Física Simbólica e a “Renascença Portuguesa””, Boletim dos Trabalhos Históricos, AMAP, Guimarães, 1984, pp. 90-91)
Camilo Castelo Branco classificou frei Bernardino de Santa Rosa como um Humboldt azabumbado, que caía em peso sobre as questões e esborrachava-as. No texto que publicou nas Cousas Leves e pesados, o romancista de Seide satiriza as demonstrações do dominicano acerca da existência de gigantes e pigmeus, de delfins e delfinas e de outros seres fantásticos que povoam o Teatro Visível do Mundo. A propósito dos unicórnios, escreveu:
O unicórnio é ferocíssimo; não obstante, assim que lobriga uma donzela, torna-se um borrego de mansidão: fenómeno observado em unicórnios de cocheman, duplamente ferozes, se a braveza lhe for contada pelo número das matérias-primas de que se fabricam bonitas bengalas.
Conta S. Alberto Magno: (duvidem, se podem!) que a presença das donzelas desbrava o coração do unicórnio, o qual, se o deixam adormecer no regaço delas, as meninas, se quiserem, podem levá-lo de pós si, como já se viu em Meca e noutros sítios. Ó singular magia das donzelas! Ó mãos de neve e cetim que tanto podeis sobre a fereza de tão formidáveis bichos, e sobre a bestidade de feras menos elegantes! Que enchentes de poesia nos entumecem as entranhas, se cogitarmos nos mistérios de amor que o padre Bernardino de Guimarães nos conta!
Que padre! que professor e que santo!
(Camilo Castelo Branco, Coisas Leves e Pesadas, em Casa de Luiz José D’Oliveira – Editor Porto, 1867, pp. 99-118)
Independentemente do rigor científico com que foi construído, o Teatro do Mundo Visível é, inegavelmente, uma obra relevante do pensamento português do século XVIII, por se colocar do outro lado, na polémica aberta pelos precursores do iluminismo ibérico, personificado nas obras de Feijóo e no Verdadeiro Método de Estudar de Luís António Verney. Uma obra a que o tempo ainda não fez a justiça duma reedição que a torne acessível.



Elementos para a biografia de Jerónimo de Santa Rosa

Da biografia de Bernardino de Santa Rosa, ainda não sabemos muito mais do que aquilo que escreveu Diogo Barbosa Machado na Biblioteca Lusitana, a saber:
Fr. BERNARDINO DE SANTA Rosa, nasceu em a Vila de Guimarães da Província de Entre Douro e Minho a 15 de Agosto de 1707, onde teve por Pais a Manuel Pereira Soares, e Maria Pereira de Fontes. Na florente idade de dezasseis anos professou o sagrado Instituto da preclaríssima Ordem dos Pregadores a 8 de Setembro de 1723. Tais foram os progressos, que a sua perspicaz inteligência fez nos estudos Escolásticos, que mereceu laurear-se com as insígnias doutorais na Atenas Conimbricense a 31 de Julho de 1739. Depois de ditar aos seus domésticos as ciências severas, com grande crédito do seu talento, foi feito Qualificador do Santo Ofício, e Reitor do Colégio de Santo Thomaz de Coimbra, onde ou presidindo, ou argumentando lhe cedem a palma os maiores Professores da Teologia Escolástica e Polémica. É egregiamente instruído nas letras humanas, História Eclesiástica, e Secular, e nas disciplinas Matemáticas. Publicou Teatro do mundo visível, Filosófico, Matemático, Geográfico, Polémico, Histórico, Político, e Crítico, ou Colóquios vários, em os quais se representa a formosura do universo, e se impugnam muitos discursos do sapientíssimo Fr. Bento Jeronymo Feijoo.
(Diogo Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana, Oficina Patriarcal de Francisco Luís Ameno, Lisboa, 1759, vol IV, pp. 76-77)
Pinharanda Gomes reproduz, no essencial, o verbete da Biblioteca Lusitana, acrescentando-lhe algumas informações:
BERNARDINO DE SANTA ROSA (n. Guimarães, 15.8.1707) tomou este nome ao professar na Ordem dos Pregadores. Qual o seu nome civil é 1aspecto que ignorámos, embora admitamos que do sobrenome faria parte o patronímico Cardote. Com efeito, ao editar o primeiro tomo do Theatro do Mundo Visível, o P. José Soares da Afonseca Cardote, reitor do Mosteiro de S. Martinho de Sande (Guimarães) do arcebispado de Braga, declara ser “irmão do Autor” (2). Filho de Manuel Pereira Soares e de Maria Pereira Fontes, aos 16 anos (8.9.1723) professou no Convento de Guimarães da Ordem dos Pregadores 1de S. Domingos de Gusmão, onde exerceu várias funções, até se fixar no Colégio de Santo Tomás dos Dominicanos de Coimbra, em cuja Universidade obteve (31.7.1739) o grau de Doutor em Teologia. Até aí fora leitor de Artes na Universidade de S. Domingos da cidade do Porto, segundo um dos primeiros biógrafos, o padre Fr. Pedro Monteiro que, dada a pouca idade do biografado, pouco mais adianta, embora já o considere entre os letrados escritores da Ordem, apesar de, em 1739 - data da publicação do inventário de Pedro Monteiro o frade vimaranense só se haver dedicado a escrever poemas panegíricos, como esse, inédito, feito na morte da infanta D. Francisca de Portugal (+ 15.7.1736), filha de D. João V, acerca da qual, na infausta data, apareceram inúmeras produções poético-panegíricas. O dominicano Pedro Monteiro estava bem relacionado na corte joanina, sendo presumível que ele mesmo se encarregou de fazer chegar o poema de Bernardino aos destinatários, decerto com obtenção de algum favor adequado ao jovem, que tinha de prosseguir estudos. Mestre de “ciências, severas” - Filosofia e Teologia na sua Ordem, exerceu as funções de Qualificador do Santo Ofício de Coimbra (tal como Pedro Monteiro em Lisboa) em cujo desempenho proferiu importantes despachos e juízos acerca de obras impressas no seu tempo na cidade do Mondego, onde também foi Reitor do Colégio de Santo Tomás que a Ordem dos Pregadores possuía em Coimbra.
(Pinharanda Gomes, “Bernardino de Snta Rosa, a Física Simbólica e a “Renascença Portuguesa””, Boletim dos Trabalhos Históricos, AMAP, Guimarães, 1984, pp. 82-83)

Com a ajuda do nosso amigo historiador Rui Faria, pudemos apurar que Bernardino era mesmo o nome de baptismo deste escritor. Era filho de um mercador abastado, Manuel Soares Vieira Pereira, da Rua Sapateira, e de sua mulher, Maria Pereira. O pai era a originário de Armil, vindo de uma família de lavradores que viviam limpa e abastadamente de sua fazenda. Os seu avô materno era um pontilheiro da rua de Gatos. O irmão que lhe publicou o livro, P. José Soares da Afonseca Cardote, reitor de S. Martinho de Sande, era 13 anos mais velho (o sobrenome Cardote deve vir-lhe da mãe, sendo usado por uma do célebre Manuel da Cunha Maranhas, antigo sapateiro que fez fortuna na América espanhola).


Informações facultadas por Rui Faria:
Aos vinte dias de Agosto do ano de mil e setecentos e oito baptizei a Bernardino filho legítimo de Manuel Soares mercador e de sua mulher Maria Pereira da Rua da Sapateira, foram seus padrinhos seus filhos Manuel Pereira estudante e Rosa Maria, solteira, de que fiz este termo dia, mês e ano supra – O cónego cura Francisco de Oliveira.
(AMAP: Nascimentos 4, Paroquial n.º 365, fl. 121, n.º 1)

Era filho legítimo Manuel Soares Vieira Pereira, abastado mercador da vila, natural de Armil, Fafe, e de sua mulher Maria Pereira. Neto paterno de Manuel Soares e de sua mulher Madalena da Fonseca, moradores no lugar da Lama, freguesia de Armil, ambos daí naturais, lavradores que viviam de sua fazenda limpa e abastadamente. Neto materno de Bento Pereira e de sua mulher Catarina Francisca moradores na Rua dos Gatos freguesia de São Paio ou Catarina Ferreira ele pontilheiro que vivia do seu trabalho Maria Pereira nasceu em Creixomil (São Miguel), Guimarães a 5 de Novembro de 1668, teria quarenta anos ao nascimento de Bernardino.
Bernardino era irmão germano do P. José Soares da Afonseca Cardote (baptizado a 9 de Agosto de 1694, com habilitação sacerdotal em Braga sob o nome de José Soares, em 8 de Agosto de 1714). O apelido Cardote recebeu-o, provavelmente por via do avô materno Bento Pereira dos Pereira Cardote (não tendo ainda estabelecido qual a relação familiar, o mais certo é que Bento fosse um dos ilegítimos dos vários padres que a família Cardote teve).


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