31 de julho de 2013

Bernardino de Santa Rosa e o Basilisco

Basilisco
O Basilisco é uma figura lendária, em cujo corpo se misturam a serpente, o lagarto e o galo. É um ser do mal, capaz de matar apenas com o olhar, não havendo outro meio de o matar se não o próprio olhar. Para tanto, será necessário coloca-lo perante um espelho. No século XVIII, com os avanços dos conhecimentos do mundo animal e dos processos de funcionamento do olhar, a ciência afirma que o Basilisco não existe. O Padre Jeronymo Feijóo, no seu Teatro Crítico Universal, nega a existência daquele ser híbrido e maléfico. Bernardino se Santa Rosa responde-lhe, afirmando a realidade do bicho:

Nega o sapientíssimo Feyjó esta venenosa eficácia aos olhos de basilisco na sua Historia natural. O seu fundamento é este: Supõem, que a potência visiva carece de actividade fora do órgão, em que se exercita; e nesta suposição, nega que possa a vista do Basilisco chegar a ofender os sujeitos distantes. Porém, dado que a potência visiva careça da dita eficácia, não pode negar o mestre Feijó, que os olhos do Basilisco possam ser meio, por onde se exalem eflúvios, ou hálitos venenosos, que impelidos de alguma virtude oculta do mesmo Basilisco possam em determinada distância ofender os viventes, em cujos corpos se entranham. Vários são os caminhos da natureza: e como nos consta do facto em tantas memórias fidedignas, este me parece o modo mais fácil, e expedito para declarar como esta Serpente por meio da sua venenosa vista pode causar tantas ruinas. Isto é, concedendo a suposição de Feyjó, que na verdade admito, porque estou naquela sentença, que afirma que a visão de qualquer objecto se faz pela recepção das espécies dentro da petência visiva. Porém se é verdadeira a opinião dos Platónicos, seguida de muitos Perspectivos, a qual diz que a visão se faz pela extramissão dos raios visórios, então facilmente se pode dizer, que os raios vibrados pelos olhos de basilisco abrasam aos viventes distantes com venenosas actividades. Enfim, qualquer pedra que mova o celebrado Crítico há-de tropeçar. Claramente tropeça quando diz que é fábula o que refere Gaspar dos Reis de um Basilisco, que escondido na muralha de certa cidade de Ásia, matou com a vista muita gente do formidável exército de Alexandre Magno, que a sitiava; pois nega este fatal acidente unicamente porque o não referem os três famosos Historiadores dos belicosos progressos daquele Príncipe, como são Plutarco, Arriano e Quinto Cúrcio.

Bernardino de Santa Rosa (O.P.), Theatro do mundo visivel, filosofico, mathematico, geografico, polemico, historico, politico è critico ou Colloquios varios em todo genero de materias: em os quaes se representa á formosura do Universo é se impugnaõ muytos discursos do sapientissimo Fr. Bento Jeronymo Feijó ..., Na officina de Luis Seco Ferreyra, 1743
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