29 de julho de 2013

A Citânia, segundo Luis Vermell (1870)

Luis Vermell y Busquets (1814-1890) - auto-retrato de 1846.

Quando descrevia o Castelo, no seu Guimarães – Apontamentos para a sua história, António Ferreira Caldas, a dado passo, registou: à entrada da torre de menagem lê-se hoje a seguinte - L. Vermell 1868 - nome dum viajante espanhol, que assim quis legar aos vindouros a memória da sua visita ao castelo de Guimarães. Anos mais tarde, Albano Belino referir-se-ia à mesma inscrição, na sua Arqueologia Cristã: Na ombreira direita da porta dessa torre gravou-se em 1868 um nome que, por estranho ao monumento, devia ser apagado. É o nome de Luis Vermell, pintor-escultor espanhol que residiu em Braga até ao ano de 1870. No mesmo livro, ao descrever um oratório existente na rua de Nossa Senhora do Leite, em Braga, Belino escreve que foi habilmente pintado em Dezembro de 1870 pelo pintor-escultor espanhol Luís Vermell, que viveu durante algum tempo em Braga. A pintura está assinada: Original de Luiz Vermell (o peregrino Español).
Luís Vermell y Busquets foi pintor, escultor e miniaturista de retratos. Era espanhol e viveu entre 1814 e 1890. Viveu em Portugal na segunda metade de novecentos, tendo exercido as funções de pintor escultor da casa do rei D. Fernando, consorte de D. Maria II. Sabemos que se dedicou também aos estudos históricos e arqueológicos, tendo viajado por Portugal, registando as suas observações num livro de viagens do qual, tanto quanto sabemos, apenas se publicaram alguns trechos. Nas advertências com que abria a publicação de um excerto do sexto tomo das suas viagens inéditas, dedicado às Caldas da Rainha, retrata-se enquanto historiador:

Fique-se a certeza que nunca escrevi uma só linha por sugestões de ninguém e que tudo tem sido livre e independente. Sempre fui, sou e serei apologista do que me pareça bom ainda que fosse de meus inimigos. Nunca serei adulador; indulgente muitas vezes, alguma justiceiro: eis aqui alguma coisa do que se exige ao historiador.
D. Luis Vermell y Busquets (o peregrino espanhol) Origem do Hospital Real e da Vila das Caldas da Rainha, Lisboa, Typographia Universal de Thomaz Quintino Antunes, 1878, p. 5
Acerca do período em que terá vivido em Braga, apenas conhecemos o que escreveu Albano Belino. Que esteve no Castelo de Guimarães em 1868, demonstra-o a assinatura que deixou na torre de menagem. Visitou por duas vezes, pelo menos, a Citânia de Briteiros, que descreveu no seu livro de viagens, e desenhou a Pedra Formosa. Em 22 de Março de 1870, o jornal Fraternidade publicou um Breve estudo para esclarecer um ponto da história de Portugal, retirado do quarto volume das suas viagens inéditas. Trata-se de um documento interessante, escrito antes de Francisco Martins Sarmento se ter dedicado ao estudo sistemático daquela estação arqueológica. Aqui fica, traduzido (foi publicado em castelhano).

Breve estudo arqueológico para esclarecer um ponto na história de Portugal, estudo que o autor extrai do quarto volume de suas viagens inéditas e dedica, humildemente, à ilustre Sociedade Arqueológica de Lisboa.

Visto o notável desta povoação (Caldas das Taipas) tomo um rapaz por guia e encaminho-me para Santo Estêvão de Briteiros (uma légua de distante), onde chego ao pôr-do-sol. Hospeda-me em sua casa o meu conhecido da outra vez, o jovem P. Manuel Duarte de Macedo, eloquente orador; desfruto novamente com a sua conversa de grande inteligência, também no idioma grego.

Dia 20, concluo o desenho da grande pedra, que comecei aquando da minha primeira visita: é raríssima pela sua forma e ornamentos, e, como eu disse, foi trazida da vizinha serra da Citânia.

Dia 21: Pela manhã, dirijo-me à dita montanha, onde chego em três quartos de hora, e observo-a melhor do que da primeira vez.

Um historiador que eu li diz que estas ruínas são de cidade, e que S. Tiago pregou nela e lhe deixou S. Torcato como Bispo. Eu acho que nunca foram de povoação, pois que nem rasto de telhas semicirculares ou fragmentos arquitectónicos se vêem; o que vejo é uma ampla calçada, pela qual subi, e, de cada lado do ponto onde agora termina, a base circular raquítica de duas torres, do mesmo tamanho de mais de 18 que eu descobri, ainda entre muita pedraria lavrada, apesar de a levarem. Algumas estão juntas aos pares e são construídas de pedras irregulares ligadas com terra. Não obstante, de uma ainda existe a parte inferior da sua porta voltada para o Este. O diâmetro desta torre é de 4 metros e 55 centímetros e, como eu disse, parecem todas iguais. Duas ainda se vêem encerradas em restos de paredes quadradas, cujas faces ficam a apenas um metro de distância da torre. Numa percebe-se uma abertura subterrânea, que suponho ser um caminho estratégico que sairá noutro ponto à mesma altura, mas o vulgo, não podendo internar-se mais do que alguns metros no que lhe parece uma mina, devido à sua obstrução, diz, como de costume, que esconde tesouros de mouros, mas ainda mais se entretém a avaliar a sua extensão, imaginando como os habitantes desta cidade árida e alta iam buscar água ou levar os cavalos a beber a nada menos do que a meia légua de distância, vendo-se um arroio caudaloso que corre a Noroeste, à mesma altitude e mais perto. Além do mais, esta montanha é granítica, circunstância que torna ainda mais inverosímil tão gigantesco trabalho.

Dos muitos troços de muralhas em direcções irregulares que circundam o alto, do seu lado Oeste, o melhor conservado tem 2 metros e 12 centímetros de espessura; a sua altura é, agora, reduzida. Destas muralhas, umas são feitas de pedras enormes, outros com pedra pequena e terra, mas já derrubadas. A julgar, pois, por tais amostras de fortificações e pelas torres, parece que este cume foi um acampamento romano, por estas serem do mesmo estilo das construções que examinei no Monte de Santa Tecla, na foz do Minho.

– Aqui, na plataforma do monte, há uma capela dedicada à S. Romão, e, por ontem não se achar a sua chave, eu não pude ver uma perna antiga de pedra encontrada nestas ruínas.

Aqui também estava a grande e rara pedra que copiei, e deitada como a têm, tal como a encontraram. Eis aqui o único monumento, ainda que tosco, respeitado pelo tempo e pelos homens, que dá crédito a ter existido nestas alturas, remotamente, um templo pagão. Digo pagão, porque a forma da pedra, as cordas que nela se vêem e a sua disposição extravagante, pois sugerem cabeça, braços e pernas, dividem seis espaços rebaixados, cheios de gregas e meandros, os buracos na parte inferior que se dirigem ao semicírculo calado, a sugestão de ser afeiçoada para um homem operar sobre esta obra, que parece uma riquíssima mesa, tudo tem vislumbre de altar para sacrifício. Metade do seu ornato é de melhor qualidade, e dir-se-ia que o todo foi trabalho de dois artistas.

Estranho muito que aquele monumento da antiguidade, tão conservado, rico e, talvez, único em Portugal, seja tão desconhecido e não tenha sido transportado para o Porto ou para Lisboa, ou que, pelo menos, dele se tenha tirado uma fotografia digna, porque me consta que não foi feita, apesar de se conhecer há tantos anos esse procedimento útil e exacto, e sendo agora tão fácil viajar!

O total da pedra, tão merecedora de figurar num museu, é de 2 metros e 91 centímetros de largura, por 2 metros e 32 centímetros de altura, e apenas dois palmos de espessura, em partes menos. Foi conduzida por 24 juntas de bois, na primeira metade do século passado, e até se conta que a um dos animais cornudos, úteis e, aparentemente, mansos, lhe custou o perder o rabo entre estas rochas.

É digno de memória um chantre da Sé de Braga, de que não me souberam dizer o nome, por ter promovido a trasladação e o salvamento deste tesouro arqueológico, que por esta altura já teria desaparecido, como desaparecem as torres, sem que sejam tão atraentes, às mãos de pastores rústicos ou de romeiros de instinto destruidor, pois bastariam 24 horas de romaria por ano para profanar esta solidão sem vegetação, mas com abundância de lagartos e outros répteis, que estes agora são os vis moradores do acampamento muito fortificado e parcialmente visível, e da sonhada cidade de Citânia, que vários historiadores antigos também a negam.

Luis Vermell
(El Peregrino Español)

Fraternidade, n.º 15, Guimarães, 22 de Março de 1870
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