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Pregões a S. Nicolau (98) 1946

S. Nicolau

O pregão de 1946 voltou a ser escrito por Joaquim do Amaral Pereira da Silva, como acontecera no ano anterior. O pregoeiro foi Armando Osvaldo Ribeiro da Silva (em cuja cadeira, muitos anos mais tarde, alguns de nós padeceram boa dose de tormentos). Aqueles ainda eram tempos de racionamento, em que se limpavam as armas depois da guerra, e em que o “Santo Vitória” ia batendo os rivais “em grandes desafios!”.


O Pregão de S. Nicolau
Recitado em 5 de Dezembro de 1946
pelo aluno do 5.° ano
Armando Osvaldo Ribeiro da Silva

Em fulmínio lampejo acorda a louca fama,
E a sua tuba diz, e ao mundo agro proclama,
Que é vida a Tradição e que para sempre existe
Nesta Terra de amor onde ela só subsiste,
Porque a lectícia nossa empresta luz e vida
E a nossa capa negra a recebe em guarida.
A festa de Nicolau é bem parte integrante
Da sua alma louçã, juvenil e ovante.
Sim! Pode um dia o sol resfriar a matéria
Bem como o gelo arder nos confins da Sibéria...
Mas nunca em Guimarães as Festas Nicolinas
Desprezadas serão pelos capas e batinas.

A mocidade é bela, é como a luz da aurora!
Dissipa a treva toda e vai pelo mundo fora
A impor sua alegria e seu festão de rosas,
Das mais lindas de Abril, rubras e olorosas.
Ela imprime por si conjunto à Natureza
Dando-lhe tons ridentes e laivos de beleza.
A mocidade é bela e é na nossa vida
A idade em que a dor ainda não é vivida!
E assim ela aqui está, connosco aqui se acha
A apontar-nos o norte e a ordenar a marcha.
*     *
*
Recordemos agora os mortos com saudade,
Dando-lhes o descanso e a suma Eternidade,
E rezemos baixinho, em nós, uma oração...
Que bem mitigue a dor em nosso coração!
*
*     *
Em UNO esforço o mundo anseia de se unir
Para manter a paz no presente e porvir.
Quer construir de vez o seu alto ideal
Fundado só no Bem para combater o Mal.
Deseja ver por terra, assim, a tirania
E zurzir com rancor quem tente rebeldia.

Porém isto não é senão um vão desejo...
Porque andando para trás, lembrando um caranguejo,
Só promove sessões donde advém o pleito
Gerador da discórdia... e logo nada é feito!
*     *
*
Convencendo se vai a gente de mansinho
Que é melhor e faz bem, não se beber mais vinho;
Que o bacalhau, deitada a rede, não vera nela;
Que a batata excedeu, há já muito na tabela;
Que a massa já não vem de Itália nem da América;
Que, agora, o azeite é ama coisa quimérica;
Que o racionamento é uma realidade
Oh! que perdurará por toda a eternidade!
Que para sempre acabou o arroz, o feijão;
E que, hoje, se transforma em bolas o sabão!
Que jamais morrerá alguém com os diabetes
Visto o açúcar faltar e a cana dar foguetes;
Não podemos comer, como dantes, sardinhas
Assadas a granel na boa Sôr’Aninhas!
Convençamo-nos, sim! Tenhamos paciência,
Pois sempre nos faz bem fazer abstinência
*
*     *
Guimarães, ó querida e velha Guimarães,
Excedes em donaire a Paris e Orleães!
Teu desenvolvimento e civilização
Orgulha os filhos teus, como toda a nação,
A própria Mumadona ao ver-te, assim, um dia,
Contigo, Guimarães, espantada ficaria,
Pois quando te deixou, eras criança ainda,
E hoje és já mulher e tens beleza infinda!
No tempo em que viveu, nada decerto tinhas
Que definisse bem teus traços ou as linhas!
Não tinhas na Avenida uma “chic” estação
Ou na Penha e S. Pedro ouvias carrilhão,
Os bancos do Toural e os bancos do Jardim
Pintadinhos de fresco e da cor do carmim;
O Campo do Amorosa — essa obra de glória—,
Não havia também, nem o “Santo Vitória”
Que no jogo da bola, e apenas por seus brios,
Tantos rivais batesse em grandes desafios!
No centro do Toural, entre arbustos floridos,
Um monumento assim aos “géneros desconhecidos”:
O “laço”, para os cães que faziam das suas,
Em só pôr cheiro mau nas tuas limpas ruas;
Não tinhas, como agora, as lindas tabuletas
Comos malditos sinais, em que avultam as setas,
A indicar o caminho, a marcha e direcção
Que melhor servirá para matar um “peão”;
Não se gastava, oh não, tanto impresso papel
Em só reproduzir as loas do “Azemel”;
Não tinhas como hoje, em ideal e anelo,
O projecto real do Parque do Castelo,
Muito embora existisse então, a pedregosa
Ponte de Serves já velha e mui ruinosa...
Do correio a maldita e reles traquitana
Com o seu lázaro burro e carga desumana:
Ao grande Molarinho, em honra e memória,
Monumento que até honra os da pré-história;
E os palácios pagãos, ali, de S. Tiago
Abraçando o jardim em delicado afago...
Nada tinhas então, é certo e é verdade (!),
Além do teu pendão de franca lealdade,..
Mas, olha: — desconfia e sempre, ó Guimarães,
Quando te falem sobre aquilo que ora tens…
Só podes ufanar-te, e com toda a razão,
Sempre que digam que és o berço da Nação!
*     *
*
Na festa a NICOLAU não há admissão
Para ti, caixeirinho e moço de balcão!
Nem tu podes, pipi,— mas vá, não tenhas pelo —,
As ruas passear com poupas no cabelo!

Mas também para ti, que só a sola bates;
Proibido será que faças disparates!
*
*     *
Ó mestra do dedal, gentil costureirinha,
De quem a rósea boca amor sempre adivinha:
Tens grácil porte e tens os lindos sonhos ledos
Que dão graça e perfume aos teus melhores segredos.
Deposita em nós, pois, amor que seja vida
E terás afeição… que não é fementida.
O nosso estudo é feito de coisas belas
E só fala de amor, do céu e das estrelas!

Tricaninhas, de andar tão leve e tão galante!
Com a vossa chinelinha alacre e saltitante,
Mais vossa ingénua graça e riso sedutor,
Subi assim, connosco, aos párâmos do amor!
Vinde escutar baixinho, à luzdàs madrugadas;
As dolentes canções que são nossas baladas…
Vinde, pois, que por vós o coração palpita
Dentro do nosso peito e com mágoa infinita!

E vós, damas gentis, ouvi e escutai!
Este nosso PREGÃO quase que no fim vai..,
Mas, antes que se acabe, eu direi que amanhã
É dia de entregar nossa loira maçã
Na ponta duma lança, erguida ao alto e em riste,
Como em luta medieva a que se não resiste,
É só por este gesto e tanta fidalguia,
Por tanta distinção, amor e galhardia,
Que rogamos em troco, e mais não é preciso,
A esmola duma graça e a esmola dum sorriso.
*     *
*
— Companheiros! Estão findas as nossas tretas!
E postas bem ao alto as vossas maçanetas
Num toque nicolino, infrene mas potente,
Nos zabumbas batei, mas impiedosamente,
Com vosso pulso forte, ao meio, bem no centro!
Dai-lhes rijo (ó égua!...) e as peles que vão dentro,
Para que o ruído lembre aos grandes militares
Depósitos de pólvora a irem pelos ares..
Rufai, rufai conforme o mande o catatau,
Que a festa nossa é, e honra a NICOLAU.
Dezembro de 1946.
Joaquim do Amaral Pereira da Silva


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