5 de junho de 2013

Pregões a S. Nicolau (89): 1937


Em 1937, o autor do pregão volta a ser Jerónimo de Almeida, que leva, debaixo da sua assinatura, a menção “Premiado dos JOGOS FLORAIS do ano X”, referente à participação do poeta no concurso poético organizado pela Emissora Nacional, em 1936, para assinalar o décimo aniversário do 28 de Maio. O pregoeiro foi Carlos Pinto Leite, estudante do sexto ano. Este é um pregão de teor marcadamente apologista do Estado Novo e do seu chefe, António de Oliveira Salazar:

Portugal acordou dum gélido letargo
À voz de SALAZAR, que toda a gente admira!
Para assim como outrora, ao cruzar o mar largo,
Vencer os vagalhões que tentam pôr embargo
A quem só pelo Bem e pela Paz suspira!

Quanto ao cortejo do pregão, propriamente dito, naquele ano não terá sido particularmente brilhante (aliás como as festas em geral), por força da chuva impiedosa que caiu por aqueles dias. Segundo O Comércio de Guimarães, “ia pobrezinho, sem luz nem aparato”.


Festas Nicolinas
Pregão Escolástico
Recitado
em 5-12-937
pelo sextanista
Carlos Pinto Leite.


“... in campo S. Mametis, quod est prope castelum de Vimaranes”.
(Chronica Gothorum).

Há dias, ao passar ali junto ao Castelo,
Eu tive uma visão estranha e singular:
Vi um moço Guerreiro, o olhar altivo e belo
De quem sente queimá-lo um ardoroso anelo,
Montar no seu corcel e pôr-se a galopar!

Tinha o ar dos heróis, desses heróis antigos
Que de viseira erguida e de espada na mão,
Ousavam afrontar os mais hostis perigos,
Enchendo de pavor os campos inimigos,
No ímpeto brutal dum rijo furacão!

Atrás dele, num tropel de ferros que se abate
Sobre nuvens de pó dispersas em redor,
Corria a multidão dos homens de combate,
No anseio de quem vê a hora do resgate
Que libertá-la vai dum rude malfeitor!

Ressoam os clarins! Tremem pendões ao vento!
E pela vez primeira o sol de Portugal,
Clareando o azul do céu no seu deslumbramento,
Abrasa os corações no mesmo pensamento
De formar e firmar uma Pátria imortal!...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Vinha a tarde caindo em frémitos de glória...
E eu vi surgir além, uma figura audaz
Abrindo um grande livro — a Lusitana História —
E, a mão larga, traçar os louros da vitória
Da valorosa acção desse heróico Rapaz!

Pus-me, então, a pensar nesses feitos de antanho;
E como se assistisse a um filme patriótico,
Senti que Portugal se tornava tamanho
Como se o dominasse algum poder estranho,
No rútilo esplendor dum clarão apoteótico!...

___

Através dos vitrais de góticas janelas
Jorrava, agora, a luz duns Paços medievais,
Onde ao estrídulo som de argênteas charamelas,
Os nobres, mais gentis, e as donas, as mais belas,
Festejavam, com pompa, uns ricos esponsais.

Entre panos-de-Arrás e candelabros de oiro
Que ofuscavam a vista em delírios febris,
Lembrava o cintilar das gemas dum tesoiro
Os pajens reclinando o seu cabelo loiro
No regaço ideal dessas donas gentis!

Das altas chaminés erguidas para o espaço,
Subiam espirais de fumo, caprichosas,
Como se, num fluente e vaporoso abraço,
Tentassem envolver as pedras desse Paço
Que um vaidoso cinzel tornara tão formosas!...

___

Há momentos assim em que a alma se desprende
Evocando, a sonhar, todo um passado morto!
Há momentos assim em que a treva se fende
E um mágico cenário, estonteador, surpreende,
Cheio de luz e cor, o nosso olhar absorto!

Assim a recordar evoco nesta hora,
Curvado ante o altar da Virgem da Oliveira,
Esse Mestre de Avis, rendendo-te, Senhora!
Mil graças por servires aquele que Te implora,
No ardor primaveril da sua fé guerreira!

Ei-lo junto de Ti, o coração em chama,
Suplicando jamais seu ânimo se esgote!
Ei-lo junto de Ti, na devoção que o inflama,
Esquecendo, um instante, o povo que o aclama,
Ao deixar-Te ficar o seu áureo pelote!...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
___

Guimarães!—por quem és!—oh! nunca olvides isto;
A Pátria aqui nasceu e irradiou, ansiosa
Por um dia transpor, levando a Cruz de Cristo,
Os ardores tropicais, dum horror imprevisto,
E as fúrias, sem rival, da vaga procelosa!

A Pátria aqui nasceu... E já que foste o Berço
De santos e de heróis de mundial renome,
Eu chego a ter orgulho em te cantar em verso,
Sentindo o coração inteiramente imerso
Neste sagrado amor que a todos nós consome!

Portugal acordou dum gélido letargo
À voz de SALAZAR, que toda a gente admira!
Para assim como outrora, ao cruzar o mar largo,
Vencer os vagalhões que tentam pôr embargo
A quem só pelo Bem e pela Paz suspira!

Portugal acordou para gritar, bem alto,
Que o sol ainda ilumina a terra lusitana!
E que mesmo através de tanto sobressalto,
Não receia a traição dum temeroso assalto
Que o tente apunhalar, em luta desumana!

Portugal acordou... E uma Pátria mais linda
Dir-se-ia ressurgir das brumas do Levante!
Uma Pátria onde o sol, numa ternura infinda,
Nas veias, palpitar, nos faz o sangue ainda,
Levando-nos, depois, a caminhar avante!...

E Guimarães terá aquilo que deseja
E é justa aspiração do seu ardente povo,
Pois já o mesmo sol, que nestes céus adeja,
Os monumentos seus os ilumina e beija
Na auréola imortal que anima o Estado Novo!

É a Pátria que remoça! E dos montões de ruínas
Em que ela se revia em hálitos de fé,
Renascem, outra vez, mil formas peregrinas
A cantar e a sorrir, por entre azuis neblinas,
Como na hora em que a Pátria as levantou de pé!...
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Senhoras! escutai! Um só sorriso vosso
É meiga luz do céu a alumiar a terra!
É um raio de luar, em trémulo alvoroço,
Banhando a negridão do mais profundo poço
Onde o rancor se ateia e se prepara a guerra!

Quando o homem perdido em áspera jornada
Olha em volta de si e não acha ninguém,
Tombando-lhe o suor na face afogueada,
Vai pedir um carinho à sua Bem-amada
E um pouco de esperança à sua própria Mãe!

Mas se o homem, em vez dum coração no peito,
Tiver nele um chacal a vomitar babugem,
Não há sonho de amor que não fique desfeito
Entre as garras brutais desse ser imperfeito,
Cujos lábios, também, como os das feras, rugem!...
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Tricaninhas! bem sei! — a culpa não é minha! —
A vida, para vós, não corre muito boa!
O salário é pequeno e o corpo se definha
Desde pela manhã até quase à noitinha,
Em frente do tear, que a cabeça atordoa!

Mas tende paciência! À vida a todos custa!
E a alegria a fez Deus, para aqueles, apenas,
A quem o trabalhar, cantando, não assusta,
Pois hão-de ter, por fim, a recompensa justa
Que afasta, para longe, as mais agudas penas!

De resto, eu compreendo as vossas arrelias;
Porém até que Deus melhor desígnio mande,
Confiai no destino; e com economias,
Habilitai-vos, sim, também nas lotarias,
Para ver se vos saí, um dia, a sorte-grande!...
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E tu, ó Nícolau! idolatrado Santo!
Concede uma indulgência à nossa pequenez!
Transforma, num sorriso, o nosso amargo pranto.
Consentindo, também, que tão humilde canto
Suba da Terra ao Céu, para cair-te aos pés!

E quando lá chegar às portas do Infinito,
Onde o Senhor te pôs em majestoso trono,
Pede a Deus que abençoe este torrão bendito,
Que em nossos corações sempre hás-de ver escrito
— Serás tu, Nicolau, o nosso bom Patrono!

Mocidade! aprumar! O busto firme e recto!
A bandeira é uma só! E Portugal não morre
Enquanto sentir asco a esse ideal abjecto,
Que ansiando por trazer todo o mundo inquieto,
Como, outrora, Caim, já para o abismo corre!...

Jerónimo de Almeida

(Premiado dos JOGOS FLORAIS do ano X)
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