11 de junho de 2013

Efeméride do dia: Centenário do nascimento de Francisco Martins Sarmento

9 de Junho de 1933: inauguração do monumento a Francisco Martins Sarmento

11 de Junho de 1933
Comemoração do centenário do nascimento do dr. Francisco Martins de Gouveia Morais Sarmento. Às 2 horas da tarde, cortejo cívico; às 3, inauguração do monumento e descerramento do busto; às 5 horas, romagem a Briteiros, ao túmulo; às 9 horas sessão solene.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. II, p. 255)

Se fosse vivo, Francisco Martins Sarmento teria completado cem anos no dia 9 de Março de 1933. As festas do centenário foram promovidas pela Sociedade Martins Sarmento e tiveram o seu  ponto mais alto  no dia 11 de Junho de 1933.

Iniciaram-se com um cortejo cívico, que, às 14 horas, partiu da rua de Paio Galvão,dirigindo-se, pelo Toural e pela rua de S. Dâmaso em direcção à Casa onde nasceu Francisco Martins Sarmento (esquina da rua José Sampaio com o Campo da Feira), para em seguida, indo pela Oliveira, tomar o destino do em direcção do palacete de Francisco Martins Sarmento, no largo que tem o seu nome, onde seria inaugurado o monumento concebido pelo escultor António de Azevedo. Aquando da inauguração, um avião militar pilotado pelo Capitão Amado da Cunha sobrevoou Guimarães e lançou um ramo de flores sobre o monumento, que se juntou às que as crianças atiravam.

Em seguida, formou-se, junto à sede da Sociedade Martins Sarmento, um cortejo automóvel que partiria em direcção a Briteiros, para uma romagem ao túmulo do arqueólogo no cemitério local, onde foram depostas coroas de flores.

À romagem ao cemitério seguiu-se uma visita à Citânia.

As celebrações encerraram-se à noite, com uma sessão solene no salão nobre da Sociedade Martins Sarmento, onde usaria da palavra o presidente da Direcção da SMS, o Capitão Mário Cardoso, que além das palavras protocolares, apresentaria os convidados da noite: Mendes Correia, da Universidade do Porto, que iria proferir uma conferência sobre “Martins Sarmento e a consciência nacional”, o poeta António Correia de Oliveira, que recitaria poemas em honra de Sarmento, e o pianista e compositor Viana da Mota, que executaria peças de sua autoria, além de obras de Chopin e de Lizt.

Na mesma noite, houve um festival nocturno no Jardim Público e um concerto pela Banda dos Bombeiros Voluntários de Guimarães.

Na cerimónia do cemitério de Briteiros, Eduardo de Almeida pronunciou, junto ao túmulo onde estão os restos mortais de Francisco Martins Sarmento, o seguinte discurso:

Careceria de piedosa justiça este formoso e memorável dia da consagração espiritual de Sarmento — pois assim julgo o objectivo da Festa do Centenário —, se não viéssemos aqui, em romagem de comovida saudade, junto do túmulo, onde ele jaz, no descanso da eterna noite, a par da sua desvelada companheira.
A urna, já enegrecida pelo tempo, contém só um cadáver — o cadáver do homem, a máscara plástica do homem, o que do homem é transitório: o seu espírito, como o seu génio de investigador, venceu a morte, exceliu-se na imortalidade. Venceu a morte o seu génio de investigador, trazendo ressurgido à vida da meditação científica o ciclo de epopeia bárbara das civilizações pré-históricas, e animando de almas os castros soterrados e ermos.
Depois, na descida das citânias, ao tornejar os pobrezinhos casebres das aldeias, cujas pedras, tisnadas e humildes, assemelham ruínas que desafiam as ruínas dos séculos efémeros; ao ver, na lenta volta da faina, à hora suavemente inquieta do crepúsculo, o nosso íncola, tão duro e forte no trabalho, tão amoroso e apegado à terra—-à sua courelazinha pequenina e linda, na paisagem por seu labor modelada e colorida — que passou sob os vendavais do tempo, as arremetidas do inimigo e o sismo das convulsões sociais, sem se desenraizar; e ao encontrarem seus olhos, das janelas da sua casa em Guimarães, o velho Castelo e as velhas muralhas, inquiriu, delineou e ergueu a heróica ascendência, a tenaz continuidade, a rota e o sonho do Lusíada.
Uniu a morte com a morte e consorciou estas duas mortes com a vida: a vida dos rudes pelejadores das cítânias, a vida dos esforçados guerreiros de S. Mamede e a vida obscura, resignada, laboriosa do nosso camponês, do nosso homem — o próprio nome, o mesmo sangue, toda a História e o Destino de Portugal.
Assim o seu espírito venceu a morte.
Além de um claro e alto espírito, Martins Sarmento, dotado de uma assombrosa cultura, profunda e fecunda, com a fina sensibilidade dos temperamentos artísticos, foi, em época e meio de estagnamento cataléptico, um português de lei, de honradez intra­nsigente e ingénua, um homem virtuoso e justo, com a virtude da ousada e latejante defesa das causas e direitos do pensamento e com a justiça da sua afectiva dedicação pelas classes trabalhadoras e desprotegidas. Se as suas elaborações mentais, talvez apaixonadas, mas friamente conduzidas por métodos rigorosamente científicos, remontavam e dilatavam os horizontes da Pátria, mostrando a unidade e continuidade do nosso povo, a sua inteligência vivíssima e previdente ansiava por que a esse povo se desse a sorte condigna.
Foi um amorável coração — e o seu coração também venceu a morte. As academias celebram a obra do seu espírito superior; a obra magnífica do seu coração — a essa a rememoram as criancinhas nas casas da escola.

Peregrinos desta belíssima jornada, trazemos-lhe à sepultura as dores da nossa saudade e as flores da nossa gratidão — e eu não devo mais profanar com vãs palavras o nosso sentimento e o recolhido silêncio da morte.
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