23 de maio de 2013

Vida e morte de S. Dâmaso

S. Dâmaso

Vida e morte de S. Dâmaso Pontífice Máximo, natural de Guimarães.

1. O Famoso Pontífice Dâmaso nasceu em Guimarães, uma das mais ilustres Vilas deste Reino, ainda que não no sítio em que hoje existe, mas em outro pouco distante, em que primeiro fora fundada aquela nobilíssima Vila, que querem alguns Autores fosse Cidade. Que fosse o nosso S. Dâmaso natural de Guimarães, ou da antiga Cidade de Guimarães, o afirmam confiantemente Escritores naturais e estrangeiros, ainda que alguns disseram, com pouco fundamento, nascera em Idanha do Alentejo e outros, com nenhum, e à força de estiradas conjecturas, lhe pretendem dar a Madrid por pátria.

2. Chamava-se a seu pai António, e como era pessoa de respeito, nobre e rica, o fez aplicar às letras, nas quais saiu insigne, e também na Poesia, como testemunham as muitas Obras, que nela nos deixou escritas. Ordenou-se de Sacerdote, e se antes de o ser vivia tão bem, como os que vivem lembrados mais da morte, que da vida; com a nova dignidade se empenhou a viver de maneira que se fizesse, pelos exercícios das virtudes, menos indigno de um carácter, de que apenas podem ser dignos os Angélicos Espíritos. Não o incitaria também pouco a viver bem a consideração da breve vida do homem, pois morre: quando apenas principia a viver: e nem o animaria pouco ao desprezo da vida a consideração das misérias dela, pois jamais teve algum gosto na, vida sem mescla de amarguras, ou tristezas. O certo é que esta vida é tão agradável aos insensatos, como molesta aos prudentes; pois os que a amam a não conhecem e os que a conhecem a desprezam como fez o nosso Dâmaso, que cuidava mais em viver bem, desprezando tudo o da vida, que em viver mal amando as vaidades dela. Não procuremos pois [ó mortais] viver muito, porque para sermos mãos larga é a vida, e para sermos santos tempo temos por breve que seja; procuremos fim empregá-la no derviço de Deus como o fizeram todos os Santos, e o praticava o nosso S. Dâmaso, por ponderar era a sua vida um ponto a respeito da eternidade.


3. Nasce com a rosa o gusano, e com a virtude a perseguição, para aquela ser lastimada do dente roedor não tem mais culpa, que o nascer rosa; a sua formosura é o seu delito: assim a verdadeira virtude do justo, para ser perseguida, murmurada e mortificada do pecador, não tem mais motivo, que o deixar-se ver formosa. O resplendor da sua beleza dá nos olhos à malícia humana, a qual, como fraca, e achacosa de vista, nem a pode sofrer, nem a pode ver. Há porém entre a virtude, e a flor uma grande diferença; pois esta, como delicada e caduca beldade, logo que a lastima o dente roedor, se desfolha, e perece; porém a virtude, como constante beleza, e sempre superior ao tempo, e à natureza, aumenta a sua formosura com as perseguições: das afrontas faz gala, das ignomínias tira mais calor, dos opróbrios realces para mais luzir. Enfim, um dos heróis em que mais campearão os candores e beleza da inocência, foi o nosso S. Dâmaso; vejamos-lo pois provado.

Boaventura Maciel Aranha, Cuidados da morte e descuidos da vida, Oficina de Francisco Borges de Sousa, Lisboa, 1761, tomo I, pp. 320-324
Partilhar:

0 comentários: