30 de maio de 2013

Pregões a S. Nicolau (83): 1931

Repouso de S. Nicolau

O pregão de 1931 voltou a sair da pena inspirada de Jerónimo de Almeida. Foi lido pelo estudante Joaquim Viana da Fonseca. Por aqueles dias, escrevia-se no jornal: O Comércio de Guimarães:

O cortejo do bando escolástico, não se apresentou com o chiste de alguns anos. Quando o vimos, ia bastante desorganizado.
E foi pena, porque a letra do Bando, da autoria do nosso prezado conterrâneo o snr. Jerónimo Almeida, era uma mimosa e rápida resenha de alguns factos passados entre nós. Agradou.


FESTAS NICOLINAS EM GUIMARÃES
Pregão Escolástico
Recitado em 5 de Dezembro de 1931
pelo académico
Joaquim Viana da Fonseca

“Só de Ti, Nicolau, vem a alegria.
Só Tu ao coração prestas alento.”
Dr. João Evangelista de Morais Sarmento
(Pregão de 1818)

AUTOR:
Jerónimo de Almeida

Já se perde nas brumas da memória
A lembrança do tempo que passou,
Já ninguém contar sabe agora a história
De quando a nossa Festa começou!
Mas se alguém existir e tenha a glória
De afirmar que tal data desvendou,
De cuidados se tire e, sem assombros,
A nossa capa negra deite aos ombros!

Há quem diga que a Festa despontara
Entre os velhos alunos de Latim,
E a trombeta da fama a transportara
Desde as margens do Selho até Pequim!
Lá do alto do Céu, então, baixara,
Em resplendente nuvem de cetim,
Nicolau muito amado, o bom Patrono,
Que ali, na Oliveira, tem seu trono.

Houve sempre, no mando, pessimistas,
Sempre gente que diz de tudo mal,
Uns que têm ideias bolchevistas,
Outros que pensam só no vil metal!
Eu que nunca gostei de dar nas vista
De quem vai ao Café Oriental,
Antes quero comer duas sardinhas
Dentro da loja da Senhora Aninhas!

Lindo Berço da Pátria Portuguesa,
Não esqueças tuas nobres pergaminhos;
Avança para a frente com firmeza,
Abrindo novas ruas e caminhos!
Dá-lhes novos aspectos de beleza.
Passeios de cimento aos quadradinhos!
E, galgando muralhas e congostas,
À antiga Araduca volta as costas!...

Tu sonhaste um pequeno paraíso
À volta das ruínas do Castelo,
Para nele te mirares, como Narciso
Enamorado de seu rosto belo!
Começaram as obras... O granizo
Arrasou-lhe os canteiros, qual martelo!
Resolveu-se, por isso, nunca mais
Gastar o tempo em coisas triviais...

Anda travada enorme divergência
A respeito dos Paços do Concelho,
Os edis actuais pedem clemência,
— Que decida do caso o que é mais velho!
O cofre camarário abria falência,
De tanto que mexeram no aparelho!...
E se alguém me pergunta: '‘Abaixo ou não?!…”
Só direi: “Sou da mesma opinião!...”

Gritavam para aí, constantemente,
Que eram precisos bairros operários,
Que vivia em gaiolas muita gente,
Tal como os pintassilgos e os canários!
Meditou-se no caso seriamente
E formaram-se, logo, planos vários...
Mas enquanto não há melhor ideia,
Alugaram-se os quartos da Cadeia!...

Nesta vaga medonha de progresso
Que, há anos, inundou a nossa terra,
Já quase, Guimarães, te desconheço,
Nem percebo a razão porque se berra!
Cada passo que dás é um sucesso,
Mais um novo portento se descerra!
Não pode consentir-se, não tem jeito
Criticarem-te assim! — Não há o direito!...

Ó Senhor Delegado de Saúde,
Veja lá no perigo que nos mete!
— Ver poeira no ar eu nunca pude!
Era melhor correr-nos a cacete,
Que vassouras de dia! É muito rude!
Os pulmões mais robustos compromete!
Mas o caso não é para cantigas,
Pois até nos passeios dão bexigas...

Só tu, formosa Penha, eras capaz
De nos dares aquilo que nos falta;
Já o Sameiro fica para trás,
Porque a serra da Penha é bem mais alta!
Tudo ali são encantos, mimos, paz,
Com que nossa alma se distrai e exalta!
E para quem não leva um bom farnel,
Um Bar, um Restaurante e um Hotel!

É por isso que Braga tem ciúmes
E anda triste a pensar no Bom Jesus,
Desde que ergueu o olhar aos altos cumes,
Descortinando, ao longe, estranha cruz…
Resplandecia a Penha de mil lumes,
Num halo apoteótico de luz!
E ficou a saber, quem nos inveja,
Que essa cruz indicava a nova Igreja!

Todo aquele que subir até lá acima,
Leve o seu coração tranquilizado,
S. Cristóvão a todos guia e anima,
Num penedo gigante consagrado.
O reparo da estrada já se ultima,
Ficando todo o piso alcatroado...
Poderão os “chauffeurs” cá da Parvónia,
No volante mexer sem cerimónia!...

Histórico pelote de D. João,
Oratório sem par de Aljubarrota,
Pulsa mais forte o nosso coração,
Lembrando, de Castela, hoje a derrota!
O Tesouro saia da escuridão,
Mercê dum invulgar compatriota!
Louvemos, pois, assim quem, com tal gesto,
Dum rico património salva o resto!

Sombras vãs de futuros monumentos,
Promessas sem valor daquele e deste,
— Onde estão esses belos ornamentos,
De que qualquer cidade se reveste?!...
Ó fugazes e belos pensamentos
Que, às vezes, atingis o azul celeste,
— É preciso deixar aos nossos netos,
Mais papéis recheados de projectos!...

“Cesse tudo o que a musa antiga canta”
Pois iremos, enfim, ter um Teatro,
Está delineada, há muito, a planta,
Só ele valerá por três ou quatro!
Quem, por isso, quiser pintar a manta,
Pode ouvir o Menano, que idolatro!
E ao fitar os seus lindos arrebiques,
Saudades terá do “Afonso Henriques”!...

Adorado Toural, tão soalheiro,
Testemunha das nossas desventuras,
Foi por causa da crise do dinheiro,
Que estiveste alguns anos às escuras!
É preciso arranjar um sinaleiro
Para tão perigosas conjunturas!
E se fazem de ti como a um boneco,
Reclama o Chafariz, mesmo assim seco!

Companheiros de estudo, confiança,
— Parece, desta vez, que não me engano,
O Liceu tem andado numa dança
Dizem que volta o 6.° e 7.º ano!
Entretanto ninguém ainda descansa,
Com receio de mais um desengano!
Ó Senhores Professores, por quem sois,
Arranjai os dois anos — são só dois!

Edison morreu! se, acaso, morre
Quem tão alto o seu nome assim ergueu!
O seu génio imortal o mundo corre,
E, em ondas de harmonia, sobe ao céu!
Mas se ainda há alguém que não discorre
Sobre o grande valor que se perdeu,
Que vá ao “Gil Vicente” hoje ao Sonoro,
—Não é isto verdade, ó Teodoro?...

Eu não sei o que mais possa existir
Que fascine os mortais cá deste mundo:
— Eles voam no espaço, sem cair!
Eles descem ao pélago profundo!
Só falta aparecer um elixir
Que ressuscite os mortos, num segundo!
Se até — ó maravilha! — os próprios moucos,
Ouvem daqui bailados em Marrocos!...

Ó Senhoras gentis, castas donzelas,
Esperança da nossa mocidade,
Abandonai as frígidas janelas,
Vinde gozar connosco a liberdade!
O porvir da mulher não tem cancelas,
Podeis andar e rir-vos à vontade!
Mas se fordes à urna — por favor! —
Votai unicamente pelo Amor!...

Costureiras do “High-Life” tão catitas,
Aboliu-se da moda a saia curta
Com que o diabo andava a fazer fitas,
Para ver se o juízo, à gente, furta!
Não vos julgueis, pintadas, mais bonitas!
— Não se pinta, também, a flor da murta.
Usai só de pomadas higiénicas,
Se quereis que vos chame fotogénicas!

Silvos do Castanheiro e do Proposto!
Da Avenida, Minhoto e Vila Flor!
Pagai a Nicolau o vosso imposto,
Aumentando o ruído do tambor!
Sirenes! buzinai com maior gosto!
Ó sinos de S. Pedro, mais calor!
E saiba todo aquele que não freme,
— Aqui em Guimarães nunca se treme!


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