29 de maio de 2013

Pregões a S. Nicolau (82): 1930

S. Nicolau

O pregão de 1930 foi escrito por Américo Durão e lido por Adelino Sampaio e Castro. O pregoeiro, à imagem do que acontecia desde que foi retirada ao Liceu Martins Sarmento o estatuto de Liceu Central, deixando de poder oferecer os dois últimos anos dos cursos liceais, voltou a ser um “finalista” do 5.º ano.


Bando Escolástico
Recitado em 5-12-930
PELO QUINTANISTA
Adelino Pinto Sampaio e Castro

Cesse em Coimbra e em Lisboa este ano
Todo o esplendor das festas que fizeram!
Cale-se Braga e o seu desejo insano
De exceder Guimarães, — que o não mereceram!
Eu canto o berço ilustre lusitano,
A quem Minerva e Marte obedeceram!
Cesse tudo o que a antiga musa canta,
— S. Nicolau mais alto se alevanta!!

Tu, Vereação, amparo e segurança.
Do progresso e reformas desta idade!
E não menos tristíssima esperança,
De uma vaga de impostos na cidade!
Edis, terror da Indústria e da Finança,
Maravilha fatal da Cristandade,
Para que a nossa festa seja grande,
Deixai que só a Academia mande!

Tu, Imprensa local, tuba sonora!
— “Comércio”, “Vimarane”, “Velha Guarda”,
Que a tua voz faça nascer a aurora
De bondade e amor que aos homens tarda!
A noite cai rendida, a noite chora,
Sobre a tonalidade feia e parda
Destes casebres álgidos, mesquinhos,
Onde a miséria e a fome têm seus ninhos!

— Estátuas a mestre Gil Vicente,
A Franco, aos Mortos de África e da França!
Ó cidade mui sábia e mais prudente.
Tendes razão! O povo, assim não cansa
De as admirar, num pedestal ausente,
Feitas de ar, de palavras, de esperança
— Teatro, lactário, maternidade.
Sois também sem rival cá na cidade!

— Toural, ó sexta-feira de paixão!
Depois que certa noite escura e densa,
Caiu sobre a cidade... Desde então,
A sombra é mais profunda e mais intensa
Do que a treva, nas margens do Jordão...
Porque lá, quando a noite é grande, imensa,
Anda a sombra divina de Jesus,
Sobre as águas, num hálito de luz!

— E esse famoso ramo florescente
Da ciência arqueológica chamada,
Que baixou até nós ultimamente.
Num congresso de pândega rasgada,
E que volvendo distraidamente,
Os seus olhos, sobre a Citânia amada,
— Que o milagre de alguém ressuscitou! —
Comeu, bebeu, sorriu,... e abalou!...

— Ó sopeirinha, ó camponesa airosa.
Para cantar-te a minha frauta é ruda!
— Tu, por exemplo, eras bem mais formosa,
Se não falasses, se nascesses muda...
— Costureirinha, alvo botão de rosa,
Algum de nós por teu amor não estuda:
Diz que o teu corpo é um peregrino verso,
E os teus olhos a luz deste Universo!

— E vós, senhoras minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente!
Se eu tenho em verso humilde celebrado
Vossa graça e beleza alegremente,
Dai-me um som brando, forte, e delicado,
Para dizer o que minha alma sente!
E que o vosso juízo não condene.
O que o amor ao coração me ordene:

“Houve outrora um concurso de beleza,
“Sendo a maçã o prémio da mais bela,
“Que, entre constelações de áurea riqueza,
“Foi, nas estrelas, a mais linda estrela!
— Mulher! Por tua graça, e singeleza.
Minha maçã eu quero dar a aquela,
Que tiver numa torre de ilusão,
Um sonho, e no seu peito um coração!

Ser novo é ser leal, alegre e audaz,
Somos a fé, a esperança, a mocidade!
E olhai! Olhai! Minha alma de rapaz,
Trago-a, cheia de sonho e claridade!
E ser eu ou ser outro, isso que faz,
Se todos nós temos a mesma idade!?
Exaltemos o amor e a alegria...
Rufa o tambor! Já vai nascer o dia!..


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