28 de maio de 2013

Pregões a S. Nicolau (81): 1929

S. Nicolau

Segundo João Lopes de Faria testemunhou, as Festas Nicolinas de 1929 foram fracas e incompletas (não houve Danças). O pregão é obra de L. Coelho e foi recitado pelo estudante Luís Mendes Lopes Cardoso, do 5.º ano do Liceu Martins Sarmento.


Bando Escolástico
Recitado em 5 de Dezembro de 1929
pelo quintanista do Liceu Martins Sarmento
Luís Mendes Lopes Cardoso

À memória dos saudosos Mestres a Dr. Manuel de Jesus Pimenta e Dr. Pedro Gonçalves Sanches.


Schiu... Nicolau quer paz! Quer a maior brandura
Na arte de rufar! Fazê-lo com doçura,
Com mimo, semelhando a marcha de Chopin...
E tocado em surdina o Hino do pregão.
Saibamos recordar os bons Mestres antigos
Que várias gerações tiveram por amigos;
Mestres que em sua vida, atentos à instrução,
Ensinaram o bem e honraram a Nação.
Nas formas ideais, fluídicas, da Verdade,
Voara a sua alma até à Eternidade
Irradiando o trabalho, em luminosa esteira,
Que dir-se-ia o fanal para a nossa canseira
No decorrer da vida — o vivo cemitério
Mais negro que a noite a ressumbrar mistério!
Recordêmo-los, pois, na sua Santidade
Fazendo reviver a dor duma Saudade.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
As sombras colossais, no aspecto cismador,
Passam diante de nós sem provocar horror.
Podridão tumular, sinistra, fantasiosa,
Mas com aroma tal, igualando o da rosa!
Matéria a decompor-se, e o vento a levará...
Matéria que se move e desabrochará
Em quimera, ilusão, ondulantes, fagueiras...
Húmus, pus e terriço — as revelações ligeiras
Afogadas em pó; os sonhos de Grandeza
Desfeitos; — maravilha aberta à Incerteza
Onde átomos sem fim, raros, interessantes,
Prenhes de vida sã, espelham, flagrantes,
Este trabalho insano: a lida formidável
De servir de pospasto ao verme insaciável.

Moços, viva o respeito! É justa a homenagem.
Curvemo-nos perante esses Mestres queridos,
Que imaginamos ver, numa doce miragem,
Presos à lei da morte e da vida vencidos!

Mas atendei, agora! “Isto é para os teus bigodes”.
Ó sociedade vil que desdenhar não podes
Da Guimarães velhinha! Houve certos momentos
Em que alguns filhos teus, revelando maus intentos,
Viram a bancarrota em suas algibeiras;
E quiseram provar, mesmo à força de asneiras.
Que a marcha progressiva, acelerada e forte
Desta fidalga terra, apresentava um norte,
Um rumo mui diferente ao que devia ter,
Com um desvio tal onde fosse mister.
Moveu-se o retrocesso, e pondo-se em escala.
Tudo, tudo parou... Nem sei a que se iguala
Este torrão querido, arrasado na Treva!
Já nem Portugal pode ser a mãe Eva!...
Totalmente despida, a parra sem verdura,
É vê-la saturnal, sem qualquer formosura:
Cabelo em desalinho, e de olheiras profundas.
Tendo as unhas das mãos tão sujas, tão imundas,
Que lembra a colareja impudica e bacante
A leiloar o corpo ao primeiro tunante
Que passe junto a si. Nada há que a enfeite,
Embora se lhe imponha o tal: “chega-lhe azeite”.
Mas o destino amigo, ao par do que havia,
Envolveu-a na luz duma nova alegria.
"Chamou-lhe sua querida, e prometeu salvá-la
Desde que a sua “crença” — incapaz de inflamá-la
E de a prejudicar, — fosse a denegação
Da sua vida má, digna de ter perdão.
E assim, para lhe arrancar aquele ar primitivo
Com que se apresentava, inventou o “motivo”
Do Passado apagar. De forma muito humana,
Largas dando ao amor que do peito lhe dimana,
Sem mais aquelas disse a um dos seus vassalos:
— “Escravo, o teu senhor (porque sofre dos calos)
Não pode ir à cidade abrir-se ao seu desejo.
Ordena-te que vás! Tomarás este ensejo
De entrares na Casa “High-Life”, e ali, perguntares
Quem! o Simão “Corado”, e se tu o encontrares,
Dir-lhe-hás para me mandar, quando tenha ocasião,
O Zé “Sopas” barbeiro. Ele é um sabichão
Que sabe do artigo e conhece da poda,
Pois ébarbeiro chic, o enlevo de alta-roda.
Depois segues adiante, e irás às “Novidades”
Por bom preço comprar todas as curiosidades
Que lá tenham à venda. E vais mais ao Pavãoo
— Costureiro de Fama — inquirir da razão
Por quanto confecciona um formoso vestido
Que a moral não ofenda, e tenha de comprido
Três palmos, pouco mais.
E alegre, e satisfeito,
Por tão bem discorrer, com um leve trejeito,
m calor de braseiro a tomar-lhe a cabeça,
Inundou-a de sol, fazendo esta promessa :
Vem cá ó meu amor! O que é velho pera ti
Para mim! bem novo, e jamais eu ouvi
Exprimir coisa alguma, inconsistente e vaga,
Que diga que o amor de repente se apaga
Sempre perdurará, açucarado e meigo,
Muito embora de mim queiram fazer um leigo
Que para amar alguém a pobre alma cedeu...
Quem sabe quanto tempo a dúvida viveu,
Sem que a devassidão de todo nela entrasse?
Depois, nenhum direito a que se renegasse
Esta grande vontade, a confissão de amor
Que inda há pouco te fiz com todo o meu ardor!
Já não és Messalina ou a mulher perdida
De quem se faça pouco! A mulher fementida
Que viveu no serralho! Hoje tens protecção.
Basta que o teu cabelo, aparado à “ninon”,
Dê azo a um chapéu, dos que a moda impõe...
Ora imagina tu, assim mesmo supõe
Que bem encadernada, a público virias!?
Ai, filha! Meu amor! Que vontade terias
De esquecer o teu nome e dais também ingresso
Nessa coisa liberal a que chamam Progresso!
Eu sei que é grande acliz(que ninguém o contesta)
Mas mesmo sem pensar, ou batendo na testa,
Distinguirás o real do que é mero engano:
Não tens um regimento? no sexto e sétimo ano?
O que te importa Isso? Eu, se assim o quiseres,
Ensinar-te-ei a ler e farei “pé de alferes”...
Crê que nada me custa ou gera a confusão...
O amor resolverá lôda e qualquer questão…”
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Ó monstros da soberba e que sois velhos tontos!
Ai que bom! ai que bom! Os quatrocentos contos?!
Guimarães tem dinheiro a rodos, não deseja
Que os de fora lhe dêem o que não lhes sobeja...

E vós damas gentis, a quem nós mais queremos!
É de uso e de costume, e consoante sabemos,
Romanzas vos cantar e mais nénias de amor,
Que sejam gritos de alma — o dulcificador
E saboroso elixir que o Doutor Fausto inventa,
Muito mais eficaz que a água de Juventa!
Senhoras, perdoai! A culpa não é nossa.
Também vós bem sabeis que nunca nos fez mossa
O dizer-vos a sério o que dentro do peito
Sentimos. A paixão é o truc mais perfeito
Que o “modernismo” usa a fim de traduzir
Aquele sentimento... alto que no porvir
Traz só felicidade à despida algibeira
Que até aí, por ceitil, demonstrava canseira.

Senhoras, perdoai! A culpa não é nossa.
E agora, isto é para ti (vê bem que não há troça),
Ó sopeira louçã, rival das açucenas!
Eu quereria ter as minhas mãos pequenas,
Leves como uma pena, a pele acetinada,
Pera irem remexer (sem te tornar “magoada”)
Os arcanos do peito. Almejava saber
Se preferes o futrica àquilo que eu te der,
Isto é, a peneirice à nossa capa preta.
Vê lá, não sejas tola! Eles têm boa treta
Para vos levar no conto. As meias que te oferecem
Pagam-nas os patrões. Ai, se eles o soubessem
Que tratos de polé por ai se veriam!...
Muitas contas a dar, decerto, eles teriam!
Ao contrário, cá nós, que somos uns doutores
Em doenças de peito, autênticos condores
Que os “Andes” da ciência, em vôo, ultrapassamos,
Se nos tendes amor, pela “perna” o avaliamos.
Deixai, deixai falar... Um amor “puxavante”.
Que vos entusiasme, é só o do estudante!

Amigos, atenção! Acabe-se a “laracha”
E toda a demais treta. Haverá quem nos escacha
Se tentarmos deitar os corninhos de fora...
Aqui, só Nicolau é o “santo” que se adora…
Tratemos de escapar a um voraz tufão,
De novo entoando o hino do pregão!
Ó mocidade louca! ó doida mocidade!
Abafemos dum rufo o rumor da cidade!

L. Coelho.
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