25 de maio de 2013

Pregões a S. Nicolau (78): 1926

S. Nicolau


Em 1926 houve festas incompletas, porque lhe faltou o número das Danças (não se realizaram por falta de música). O pregão teve os mesmos titulares do ano anterior. Escreveu-o o padre Gaspar Roriz e recitou-o Jaime Sampaio, agora aluno do 7.º ano de Ciências. Segundo O Comércio de Guimarães, o texto do padre Roriz agradou, e o pregoeiro recitou-o magistralmente, acrescentando:
“É uma “chistosa” resenha dos últimos acontecimentos passados em Guimarães, bem como uma crítica conscienciosa à moda, que para vergonha nossa, tantos adeptos conta...”
Neste ano, Portugal vivia em ditadura militar, instaurada com o golpe de Estado do 28 de Maio, mas não há referências no texto do pregão à nova situação política do país. Mas não fica de fora a ida do Regimento de Infantaria 20 para Tavira, nem o ressurgimento das movimentações autonómicas em Vizela. Tal como no ano anterior, boa parte do pregão foi usado para criticar as novas modas femininas, com cortes de cabelo arrapazados e caras pintadas.


Bando Escolástico
Recitado em
5 de Dezembro de 1926
PELO ALUNO DO 7.º ANO DE CIÊNCIAS
Jaime Ribeiro da Costa Sampaio

Ó Guimarães velhinho, o venerando ancião
que foste o criador o pai desta nação
de santos e de heróis, guerreiros esforçados,
cujos nomes Camões, em cantos sublimados,
num poema imortal, levou ao mundo inteiro,
tu foste, ó Guimarães, o berço do primeiro,
heróico português que caminhou ovante
a conquistar terreno a golpes de montante
para fundar a Pátria amada— Portugal
— jardim da Europa à beira mar plantado — e o mar
que murmurante vem às praias para beijar,
ó meu jardim em flor, a reluzente areia,
o palco imenso foi da pristina odisseia
que tornou grande, ilustre, ingente e imortal
esta Pátria bendita — o nosso Portugal!
Salve, ó Guimarães, ó ínclita cidade,
aceita as saudações da nossa mocidade!

Oh! mas como é ingrata a gente lusitana!
Na delenda Cartago, insólita e insana,
a que se assiste agora, é acinte sobre acinte:
primeiro foi o vinte, o nosso bravo vinte,
que conseguindo ao longe os fulgores da glória
dando em holocausto, nos altares da História,
os bravos filhos seus, foi condenado à morte.
Que triste, ó Guimarães, que triste é a tua sorte!
Levaram-te a bandeira — horror! — quem tal previra!
e a banda foi tocar para as bandas de Tavira!...
O teu velho Castelo, ó Guimarães velhinho,
chora ao ver que alguém quer desfazer o teu ninho
tirando-te o que é teu... E ao verem que tu choras
mandam-te um batalhão das tais metralhadoras:
quatrocentos piões e mais duzentas bestas...
Tuas compensações, ó Guimarães, são estas.
E vós, damas gentis, porque chorais assim?
Coitadas, eu bem sei: não tendes no jardim
a banda musical, tocando peças finas...
Têm mais sorte que vós as damas... marroquinas.
Ó belas, sossegai os vossos corações:
também tendes direito a ter compensações,
por isso vos darão à laia duma esmola
automáticos sons que vêm da pianola
em pequenos jardins chamados os cafés.
É música tocada apenas com os pés...

Do teu manto de arminho e pedras preciosas
quiseram, Guimarães, uma das mais formosas
jóias que tu tens arrebatar-te um dia:
Vizela quis fugir e quis formar concelho,
mas tu, ó Guimarães, corando, pobre velho,
de vergonha e de dor e justa indignação,
com brio e altivez lhe respondeste: “Não!
Não sairás de mim, ó filha estremecida;
no meu concelho és tu a jóia mais querida,
o meu encanto, o meu enlevo, o meu amor.
Tiveste vibrações de júbilo e de dor
nas horas de prazer, nos dias de amargura
da vida de teu pai. Tua alma nobre e pura
nunca deixou de dar, não recusou jamais
o amor que devera ter os filhos a seus pais.
Tu queixas-te de mim! Porquê, linda Vizela?
Acaso recusei sequer uma parcela
de cuidado e de amor, de esforço e de carinho
para que fosses sempre em meu manto de arminho
a jóia mais formosa? Ai! triste! ai! Insensata!
Não queiras ser, oh! não, Vizela, filha ingrata!”
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Num soluço de dor, sumiu-se a sua voz...
E os filhos de Minerva, os estudantes, nós,
também vamos falar, pois nos quoque gens sumus:
“Vaidades, ilusões, que semelhais os fumos
que dissipam no ar os ventos da Natura,
acaso não sabeis que é sempre uma loucura
pretender arrancar da juvenil memória
as lições que nos dão as páginas da História?!
Um dia deste à luz, sob frondosas franças,
o poeta genial das Andorinhas mansas.
O Bráulio que inda hoje as águas do Vizela
choram ao recordar a inspiração mais bela,
que ao pé delas nasceu, o Bráulio é muito nosso!
Vivendo junto a nós, era o poeta moço
o genial autor de bandos imortais.
A água sulfurosa, o parque e tudo o mais
podes levar, oh! sim! mas ouve: a Mocidade
não há-de permitir que o Cisne da Saudade
deixe de pertencer a esta nobre grei
onde nasceu Afonso, esse primeiro rei
que nos deu um jardim ornado de mil flores
onde o Bráulio nasceu, brilhando entre os cantores
dos sentimentos bons, do amor e da saudade...
Ohl isso não consente a nossa mocidade!”

Senhoras, eu bem sei, mereço a vossa crítica:
julgais que no que disse a porca da política
veio meter nariz. Política?! Caxixa!
Despreza a Mocidade essa nojenta bicha
que traz o mundo inteiro em triste convulsão.
Política, para nós, há uma — o coração.
Os chefes de valor que mandam sobre nós
Senhoras, bem sabeis, esses chefes sois vós.
Quer cabelos useis em trança perfumada,
quer cortados à moda, em forma arrapazada
quer o vestido desça abaixo dos artelhos,
ou fique ainda um pouco acima dos joelhos,
Senhoras, sereis sempre uns anjos de candura,
a concepção mais alta, a concepção mais pura
da beleza ideal. Para nós a alma é tudo.
O resto é carnaval, é fingimento, entrudo...
A cabeleira loira, os lábios de carmim,
olheiras na mulher que nunca as teve assim;
a face rubicunda, o rosto coradinho,
que em casa é cor de leite e fora é cor de vinho!
que nome deve ter, Senhoras, isto tudo?
não é um carnaval, não é isto um entrudo?
E tu, tricana linda, ó pálida Julieta!
também te deixas ir, levada pela treta
dessa moda imbecil, à busca da pintura
para ficares a ser uma triste figura
pintada a pó-de-arroz e a rubro de carmim!
Vê lál não queiras ser, ó tricaninha, assim:
não deites nesse rosto as drogas nem a tinta,
se não quiseres ouvir cantar o “Pinta, pinta”...

Senhoras, Rui Chianca, o poeta ideal,
quer reconquistar o velho Portugal!
Veio numa embaixada, em ânsias de amor,
falar de Portugal, dum Portugal maior.
Neste berço de heróis — a nossa Guimarães —
abundam os heróis, sois vós, ó santas mães!
O velho Portugal de Ourique e Aljubarrota
há-de seguir da glória, em brilhante derrota,
o caminho da luz, da verdade e do bem,
se cada uma de vós aprender a ser mãe.
A mãe que o sabe ser, a grande educadora,
é que há-de promover a radiante aurora
da nova geração, viril, altiva e forte.
Oh! sim, há-de arrancar esta nação à morte
a que a querem levar os falsos portugueses
onde traidores houve, algumas, muitas vezes.
Senhoras, anjos bons da beleza e do amor,
haveis de conquistar um Portugal maior:
a luz do vosso olhar, e o encantador sorriso
farão da nossa terra, um céu, um paraíso
de graças e de amor, de paz e de ventura
como outro jamais houve em reinos da Natura.

Senhoras, vai surgir a mais bela manhã
da nossa Guimarães! Traremos a maçã,
o símbolo do amor, formosa e perfumada.
Aceitai-a, gentis! É bela a embaixada
que vem desempenhar junto de vós, ó belas,
a nossa mocidade em frases bem singelas.
Ela vem para dizer: Senhoras, o estudante
é sempre a alma grande, o coração amante
que não sabe enganar, que não sabe mentir,
que passa a vida alegre, a cantar e a sorrir;
mas faz isto baixinho, tremendo, cuidadosa,
para não despertar o bicho — a tal raposa
que, astuta, nos espreita à porta do Liceu,

Hoje, amigos, brincai! Reitor hoje sou eu!
Nesses bombos rufai com garbo e valentia!
Fazei que Guimarães se inunde em alegria.
Ide sempre a rufar, com engenho e com arte;
num rufo colossal que faça tremer Marte,
que faça até tremer as pernas a Saturno,
a Júpiter, Vulcano; e depois, por seu turno,
o mundo vá dizer: “Ninguém daqui nos tira”
ninguém pode mandar os bombos para... Tavira.
Amigos, e se alguém tiver tal tentação,
rufai bem e dizei: “Patego, olha o balão!”
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