13 de maio de 2013

Pregões a S. Nicolau (68): 1914

Milagre de S. Nicolau


Em 1913 não houve Festas a S. Nicolau em Guimarães. Regressariam em 1914, mas há poucas notícias do modo como então decorreram. Aparentemente, resumiram-se à entrada do pinheiro, no dia 29 de Novembro, e à declamação do pregão, no dia 5. O texto do pregão deste ano foi escrito por Leão Martins, que o dedicou à memória de João de Meira, entretanto falecido. Na versão imprensa, consta como pregoeiro o estudante do 5.º ano Francisco de Assis Pereira Mendes. No entanto, os jornais anunciavam que o pregão seria declamado pelo quartanista Mário Guimarães.


PREGÃO ESCOLÁSTICO
Recitado em 5 de Dezembro de 1914
pelo estudante do quinto ano
Francisco de Assis Pereira Mendes

À memória do saudoso douto e apaixonado entusiasta das Festas Nicolinas,
João de Meira.

Pio IX ao saber que a Festa não se fez
Porque a rapaziada assim o compreendeu,
Disse para consigo: — Ah! Ah! que desta vez
                               S. Nicolau morreu...”

E até o D. Afonso, outrora tão valente,
                               Baixinho, perguntou:
— “Estudantada nova, ingénua e inocente,
                               A Festa terminou,
A Festa tão antiga, a Festa de nobreza,
                               A mais original?
Oh! nunca fosse rei da gente portuguesa,
                               Nunca, para meu mal...”

Cada um assim pensava… ambos tinham razão...
— Pois se o ano passado a Festa não brilhou!!
O que lá vai, lá vai! termine-se a questão
Que o nosso Nicolau às lidas já voltou...

Guimarães já não tem, como antigamente,
Um aspecto caduco, intriguista, indecente.
Que ao nosso forasteiro outrora oferecia...
Guimarães despertou de funda letargia
E ao clarão duma luz fugiu do retrocesso
E disse em alta voz:
                               — “Eu cá vou no progresso!
Senão examinai:
                               — Já viram alguma vez,
                       Em solo português,
Cidade como a nossa, embelezada, enfim,
Conhecida lá fora — a Cidade-jardim?
— Já viram em sítio algum (e como as coisas são!)
Marquises de luar às portas do Jordão?
— Já viram alguma vez a luz que faz tonturas
Que ou alumia bem ou nos deixa às escuras?...
— Quando é que já se viu templos em árdua guerra?
Oliveira reclama e deita logo a terra
O colega S. Paio e, nestes tempos maus,
Semeia aquele largo a abundantes calhaus...
— Onde é que se percorre (isto por dois tostões!)
Quatro léguas ou três, de grandes dimensões,
Como daqui até Braga em carros do Barroso?
— Avante, Guimarães! caminha glorioso I!
— Qual cidade é que tem (não vão julgar que é troça!)
Esquadra policial activa como a nossa?
— Quando é que já se deu (ouçam, tenham paciência!)
Ao ler-se um testamento,
Herdarem capital o Manaca e a Vicência?
— Quando é que Guimarães teve o supremo gosto
De, manhã cedo ou tarde, à hora do Sol-posto,
Ouvir sinos tanger, com certo cuidadinho,
Pelo nóvel e importante artista o Arranjinho?
— Quando foi que as mulheres, à moda de Inglaterra,
Declararam-se cm greve, aqui, na nossa terra,
Como no Castanheiro há dias sucedeu?
— E depois, e depois?... tenham bem lá na vista:
Quando das eleições, um grupo socialista
                               Na cabeça lhe deu
Para a urna concorrer; e, se o grupo vencesse,
                                (Peta não parece!)
De braço erguido ao ar, diria em forte voz:
— “Quem manda no poleiro agora somos nós!
Chegou enfim a voz ao povo lutador
Que vivia oprimido, há muito, como um fardo...”
                                —Olha a mula, oh Bernardo!!

Quem do alto do castelo olhar por um funil.
A eléctrica verá, lá baixo, em Creixomil...
Quem numa padaria o trigo for comprar
Pela lei não poderá o pãozinho apalpar...
Como qualquer potinho à fonte não pode ir
                                Sem testo... para o cobrir.
Pois de contrário o guarda exclamará assim:
— “Pelo código atendendo, oh filha, estás multada...
Um escudo para a Câmara e outro para mim,
                                Larga, não custa nada!”

— Deixa de ti falar, oh velho Guimarães
E recebe de nós sinceros parabéns!...

— “Adeus, formosa flor! é seu meu coração!
Vá! não seja tão má! diga adeus...
                                                   — “Queim, João?
— “Casta donzela! seja meiga! ai! quem me dera
Estar unido a si! Oh! que felicidade
Seria para os dois, amor...
                                           — “Não que antom era!
                                — “Sim, na realidade,
Não sabe o quanto sofro... imenso padecer..
                                — “Não que antom deve ser..
— “Atenda ao que lhe digo, eu falo-lhe com fé...
                                — “Isso! não que antom é...
— “Feia!!... porque não crê na minha confissão?
                                — “Queim? Jo... não vai, João...
— “Malcriada mulher! para si não tomo a olhar...
                                — “Está bem, deixa ficar...

Um dia Guimarães ia sendo roubado.
Vizela, sua filha, de sangue endiabrado,
                                Destarte lhe falou:
— “Mocidade para mim, meu pai, já terminou.
Cansada de viver, sem confortos, sem luz,
Mal posso suportar o peso desta cruz
Que me aprofunda a dor. Quero-me libertar,
Juntamente com os meus. Desejo-me casar,
Ter uma vida nova, enfim, estar liberta,
Deste freio cruel que minha boca aperta..
Solte-me da prisão... que eu seja independente,
Liberdade gozar como toda essa gente
Que vive feliz. Pai: satisfaça ao pedido,
                                Conceda-me o meu dote...”

                                E não compadecido,
Furioso Guimarães, cansado e já velhote,
À filha respondeu:
— “É demais... todavia eu dar-te-ei o que é teu..
Mas tanta pressa, filha, (ele disse sorrindo...)
Não é tua essa ideia... isso vem do Armindo
E de outros tantos mais. Querem-te desgraçar...
A cantiga é de morte... a tua autonomia
Só para depois... deixa-me a mim governar.
Os de Vizela, então, queriam mais folia?
                                Que esperem lá por isso!
Maldito seja quem te meteu no toutiço
Essa ideia mesquinha, avara e tão manhosa!
Péssima educação, minha filha vaidosa!
Ai de ti e dos teus! Mas isso o que me importa?
Lá fora, filha ingrata, anda, fora da porta,
                                Não estou para te aturar...
Poltrões! poltrões! poltrões!l Pensavam em me matar...”

E o velho Guimarães pondo a mão na barriga,
Da afronta se vingou fazendo-lhe uma figa...

— Damas de Guimarães! Deusas cheias de graça!
A luz do vosso olhar que nossa alma inebria
É balsamo suave... é brisa que perpassa...
Deste viver atroz sois a nossa alegria!
Damas de Guimarães! oh anjos da bonança!
Que a minha terra cria e conserva e retêm:
Vós sois o nosso guia em quem temos esperança!
Se padecemos nós, vós padeceis lambem.
Damas de Guimarães: se a nossa Festa brilha
É porque auxilio há, mas de certo valor!
A ninfa que deslumbra, a deusa maravilha
Da Festa a Nicolau — sois vós o Protector!

                                Rapazes, atenção:
A lei de Nicolau decreta, neste dia,
A todo o estudante amigo da folia,
                                Que o bombo entre em acção.
Rufai valentemente! a Festa é de valor!
— Que importa que arrebente a caixa ou o tambor?
— Que importa que o barulho aumente em grande escala
                                Se cada pele que estala
Atroa muito mais que os célebres canhões
Usados lá na guerra? Avante! sem receio
                                E força nos pulmões!
Arrebentai, enfim, tudo de meio a meio I
De parte a perfeição. Inútil é o acerto.
Instrumentos — deixai ficá-los sem concerto,
Para que essr. gente diga, hoje, neste dia:
                                — “Cada um dos canhões
                                Da nossa artilharia
Tem muito mais valor que os seis dos alamões!!”
Leão Martins
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