7 de maio de 2013

Pregões a S. Nicolau (62): 1908



O pregão de 1908 voltou a ser escrito por Delfim Guimarães. O pregoeiro foi António de Araújo Carvalho Júnior. Para além das referências a assuntos que estavam na ordem do dia, como um polígono que acabava a ser feito na praça que então se chamava de D. Afonso Henriques ou os passeios de automóvel, este pregão carrega um pouco mais do que era usual na brejeirice e na malícia: 
                   Ó Evas tentadoras:
Deixai que a nossa boca, em ânsias pecadoras,
Oscule essas maçãs tão rubras, sazonadas,
Que o vosso rosto tem, ó Evas desejadas,
Mesmo a dizer papai-nos, filhos, sem remorso
Que não vos fica, não, na garganta o caroço…




BANDO ESCOLÁSTICO
Recitado pelo académico
António de Araújo Carvalho Júnior
em
5 de Dezembro de 1908

Minerva erguendo a dextra altiva, triunfante.
Envolta em nuvens de oiro, de amplidão dos Céus,
Bradou a todos nós:
                                             — “Ó mocidade, avante,
                      “Deslumbra os risos teus!
“Retroceder jamais, ó mocidade em flor,
“Tu tens dentro desta alma o mais sagrado amor
“Para alegre te ajudar nas Fastas Nicolinas,
“Cobrindo-te de flores as capas e as batinas!
“Ó loira mocidade, ó bando estudioso,
“Que nunca morra em ti o canto harmonioso
                          “Que Nicolau adora!
“Que a tua Festa seja um sorriso de aurora,
                          “Em luz e esplendor!!...
“Avante, ó mocidade, ó mocidade em flor!” —
Disse… Depois num beijo infindo de saudade
Que fulgido tombou nos nossos corações,
A Deusa se sorriu na vasta imensidade
                      A irradiar clarões!
Olhos fitos no Céu, as lágrimas a flux,
Vimos subir Minerva aos braços de Jesus,
Sentindo dentro da alma força misteriosa
Da nossa Festa ser a festa mais formosa...

Festas de Nicolau! quem há que vos iguale
Se sois o coração de todo Portugal?!
Quem sois, ó imbencibles e vós, ó Fenianos?...
Girondinos, quem sois? quem sois Gualterianos?...
Tremei da nossa Festa leda, sobranceira.
Que grita no tambor, que clama no Zé-Pereira,
Tremei, ó vós, treinei da estóica reinação
Que devora água-de-unto além, na Conceição…
Nem carros triunfais ornados de oiro e rosa,
Nem mesmo a imorredoira fonte-luminosa
Que deslumbrou um cego e fez rir um defunto
Chegam à nossa Festa em bombo e água-de-unto…
Mas se acaso a quereis na ânsia culminante,
Na apoteose, louca, e ingente, e deslumbrante,
Que nos deixem descer aos antros da Folia,
Que nos deixem tirar as peias da opressão:
Vasconcelos, Ribeiro, Sanches, Zé Maria,
Moreira, Freitas, Pina, Gilberto e Aarão...

Olé!... quem anda aí de socos, a mexer ?!...
Ó João, da cá a moca… Então não querem ver
Um bravo milanês com fumos petulantes
A querer meter nariz na Festa dos estudantes?!...
Menino, toca a andar, que a coisa vista a seco
Não fica em pano-cru do Santos Parrameco
Meus ricos caixeirinhos, isto é para quem quer…
A nossa discordância, filhos, podeis crer,
Só findará no dia — ó discordante mágoa —
No dia em que os tanques deixem de ter água…
Entretanto, meninos, quem vence é a verdade
                     Despida de louvores:
Vós sois a eterna luz das Festas da Cidade,
                     Seus hélicos fulgores!!
Vá lá, vá lá um abraço cheio de desvelo
E um beijo ao avozinho, ao nobre João de Melo…

Os frescas tricaninhas, flores de todo o ano,
Onde é que se perdeu o vosso olhar magano
Para assim andardes tristes, a verter paixões,
Tratando o nosso amor com feros beliscões?!...
A gente cansadinha de vos ensinar
Os tempos quase todos desse verbo amar
Que vós com tanta graça — ó graça impenitente —
Já sabeis declinar no místico presente...
            Alto… Lá está o apito ingrato da Avenida
A chamar-vos à luta, a chamar-vos à vida,
Onde ides espalhar com o trabalho a amargura
                          Num cansado desejo…
                          Correi, dai cá um beijo,
Ó filhas estais a ver que é mesma umo loucura...

Grisettes do amor? ó lindas moreninhas,
Que sois um dia inteiro a pespontar cetins,
Cantando alegremente como as avezinhas
Sorrindo docemente como os serafins;
                   Ó Evas tentadoras:
Deixai que a nossa boca, em ânsias pecadoras,
Oscule essas maçãs tão rubras, sazonadas,
Que o vosso rosto tem, ó Evas desejadas,
Mesmo a dizer papai-nos, filhos, sem remorso
Que não vos fica, não, na garganta o caroço…
Vamos, não vale zangar, seus melindrosos seres
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
                               Ó Rosinha, ai! ai! ai!
Lá estás tu a fitar a espada do alferes
Mau… mau… se continuas digo-o a teu pai...

Vai-se acabar, enfim, o octógono zarolha!!
No centro é erigida a estátua da Bolha!!!...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Guimarães, alta noite, ergueu-se do seu leito,
Vestiu-se de chaufeur, pôs uma rosa ao peito,
Correu para a garage, saiu em oito-e-nove,
Carregou no pó-pó com graça que comove.
Deu uma volta ao Jardim e foi com alegria
Paio Galvão em recta até Santa Luzia...
Tomou um pouco de ar, e passado um momento
Eis que pôs outra vez o carro em movimento
Meteu pelo Picoto, chegou ao Hospital,
Cortou para o Quartel e cansado afinal
Subiu ao seu casteIo, ao seu velho alcaçar
Que mais de sete séculos foi por consertar
Encostado a uma ameia, olhou com atenção
A sua espectrea sombra envolta em escuridão
Daí viu a batalha, esso lutar comum,
Na Região dos três contra os Heróis do um...
Que apesar de comum, a crássica irrisão
Arrotou urna em fora a grande sensação!!!...
Viu o pobre do Afonso, ainda de cadeira,
Apreçar uns fejões a uma regateira
Procurou o Toural e viu com frenesim
Sorrir arcos voltaicos aos mil pelo jardim...
Nervoso contemplou o seu grupo de Talma
Que escarneceu o Júlio, insofrido, sem alma,
Gritando-lhe invectivas e outras coisas mais,
Matando-lhe a Severa e os grandes Cardeais...
Viu inda em letras de oiro o bando assinalado
Que um estro-Madurino fez ano passado...
Viu a sportman-paixão a escancarar gavetas
E o Cristóvão a rir com as velhas bicicletas...
Fitou a sua imprensa e viu no meio dela
Uns típicos bebés a dar à taramela...
De repente sentiu tocarem-lhe no ombro,
Virou-se dum só pulo, trémulo de assombro,
E viu na sua frente a conclusão precisa:
D. Progresso a chorar, em fraldas de camisa…

                 Damas de Guimarães:
Quiséramos de rosas, Iírios e cecéns
Tecer uma grinalda para vos ofertar
Cingida com amor e fitas de luar!
                Ó líricas senhoras:
Deixai que as nossas almas ternas, sonhadoras,
Caiam aos vossos pés a soluçar paixões,
Contando-vos a dor dos nossos corações!

Santas de Guimarães, escutai a nossa alma
Que vos segreda a dor dos corações sem calma

                          Mais triste que a saudade
Anda toda de crepe a nossa mocidade,
Vivendo a lamentar-se como um rouxinol
Que chora desde a aurora até ao pôr-do-sol,
                          E não tem, ai! não tem
Um beijo de ternura que lhe faça bem!...

Santas de Guimarães, ai! tende piedade
Dos nossos corações, da nossa mocidade…

                        Ó loiras Julietas:
Por vossas mãos bordai as nossas capas pretas,
Fazei delas um manto de astros num sorriso
Mais belo que o manto azul do Paraíso!!

Santas de Guimarães, fazei um manto lindo
Das nossas capas pretas num sorriso infindo...

                    Ó filhas do luar:
                    Fazei das nossas dores,
                    As mais ridentes flores,
                    O mais formoso altar!

*
*        *

Às armas, lutadores heróicos do Porvir!!...
Que o mundo caia todo para trás a rir
Ao: travar-se a peleja infrene, alucinante,
Do silêncio querer vergar um Estudante!!...
Ó bravos batalhões, da História assinalados,
Heróis que atravessaste mares já navegados
Chegando até à Pisca, salvos, triunfais
— Força que força humana permitiu jamais —
Alevantai bem alto a fama Intemerata,
Fazendo reviver o Rei da Bambochata!!...
Avante lutadores, às armas batalhões!!...
                        — Força nesses tambores,
                        Fogo nesses canhões!!!...


Guimarães em 1908
Delfim Guimarães



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