2 de maio de 2013

Pregões a S. Nicolau (57): 1904

Milagre de S. Nicolau


O pregão de 1904 voltou a ser escrito por João de Meira, tendo Ernesto Avelino de Brito como pregoeiro, e é um documento, a vários títulos, histórico: é nele que, pela primeira vez, é introduzida a expressão “Festa Nicolina”, que virá a transformar-se na designação própria das velhas festas escolásticas de Guimarães, os festejos dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau. No mesmo ano, há uma reportagem publicada no jornal Independente, em que se descreve a “posse” do Padre Monteiro, onde se fala nas “Festas Nicolinas”. O pregão tem a data de 1 de Dezembro, a notícia saiu no dia 11. Portanto, não restam dúvidas quanto à primazia do uso do termo que hoje dá nome à festa. O crédito autoral tem que ser atribuído a João de Meira (que, aliás, também deve ser o autor do texto sobre a “posse" do Padre Monteiro). Antes disto, quem mais se tinha aproximado desta designação havia sido Bráulio Caldas que, no preâmbulo do pregão de 1899, fala, por duas vezes, na "jurisprudência Nicolauina".
Este pregão tem também importância histórica por ser por ele que sabemos que houve pregão no ano de 1825, cujo teor conduziu à prisão aquele que o escreveu, Agostinho Vicente Ferreira de Castro e Freitas. Era natural de Guimarães, filho de José Ferreira Guimarães e que, no ano lectivo de 1915-1916 estava no segundo ano do curso jurídico da Universidade de Coimbra. Em 1835, um decreto nomeou-o delegado do procurador régio em Guimarães, tendo-se despedido, ao assumir funções, do cargo de vigário-geral de Guimarães e Amarante, saindo na procissão do Corpus Christi de casaca e vara branca presidindo ao clero (o que causa alguma estranheza, uma vez que era secular). No mesmo ano, de foi nomeado juiz para Fafe. Fez parte da Sociedade Patriótica Vimaranense. Morreu com cerca de 46 anos de idade, no dia 21 de Janeiro de 1843, quando era Juiz de Direito em Amarante.



Pregão Escolástico
Recitado em 5 de Dezembro de 1904
Por
Ernesto Avelino de Brito

À memória do dr.
Agostinho Vicente Ferreira de Castro e Freitas
preso em 18 de Dezembro de 1825
por ter escrito o Pregão de S. Nicolau,
consagra o autor.

Quatro vezes Apolo percorrera
Com o doirado carro cintilante,
Serenamente, na azulina esfera,
Seu eterno caminho triunfante,
Já depois que Dezembro sucedera
Aos frios de Novembro agro e cortante,
Quando surge afinal o fausto dia
Porque suspira a alegre Academia!
O grande Nicolau, que está sentado
Aos pés daquele que governa o Céu,
Ouvindo do festejo o enorme brado,
O barulho, o fragor, o escarcéu,
Assim fala ante o trono sublimado:
— “A véspera do meu dia amanheceu;
Não há Santo, Anjo ou Serafim,
Que em festas possa comparar-se a mim!
Oh Nicolau! Não há, não há, por certo,
Por isso os outros Santos dão cavaco...
O templo de Minerva está deserto,
Que vós tudo mandais (e um pouco Baco)
É dia em que, por ancestral concerto,
Te festeja o estudante forte ou fraco,
Rico ou pobre, simpático ou bonito
Seja o gordo Rodolfo ou o magro Brito…
Por isso, ó Nicolau, se é teu o dia,
Põe-nos sob a tua alta protecção,
Livra-nos do Ribeiro, do Faria,
Moreira, Vasconcelos e Aarão;
Pina, Queirós, Fiúza, Maria,
Hermano e o novíssimo Pavia!...
Que nós sozinhos, cá por nossa banda.
Arranjamos o Sanches e o Miranda...

Caxeirinhos, tomai um ar feliz!
Em cada canto há hoje um fontenário,
Mas está seco o velho chafariz,
O antigo chafariz quase lendário,
E assim não lavareis lá o nariz
E todo o corpo, o que era necessário.
Pois desde que a parteira vos lavou
Nunca mais água limpa em vós passou!
A Antifumista agora vos encrava!...
Fazíeis realçar vossos encantos
Com charuto Reinita que durava
Três domingos, afora os dias Santos,
E que sempre, à noitinha, se apagava
Para outro dia causar novos espantos.
Agora, antifumistas os patrões,
Se fumais, comereis três cachações!

Costureiras da Lucas, das Narcisas,
Da Raquel Penaforte e outras mais;
Raparigas já grandes e petizas
Que os pentes do Lerdeira trabalhais,
Ou que teceis o linho das camisas,
Dos lençóis, das toalhas, dos bragais;
Vós criadas — cozinheiras ou de sala,
Que se adrega de calhar ides na mala.
Ir na mala, tricanas, não é bom,
É caso sério, embora haja quem ria...
Antes, porém, a mala que o caixão,
Que o caixão só nos leva para a Atouguia;
Mas se quereis melhor, em reinação,
Vamos todos a Fafe um belo dia;
Está pronta a linha! É rápido. Talvez
Ir e voltar não leve mais de um mês.

E agora, ó minha Alma, de joelhos,
E agora, ó minha fala, docemente;
Coração sobe aos lábios, diz os velhos
E sempre novos temas de quem sente...
Coração fala franco. Teus conselhos
Prometemos seguir eternamente,
Se te vais exprimir de tal feição
Que te compreenda um outro coração...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Senhoras! Entre as Deusas do alto Céu
Ergueu uma maçã guerra ateada
Nas celebradas bodas de Peleu...
E nas folhas da Bíblia Sagrada
Lá vem escrito que a maçã perdera
O velho Adão, e Eva idolatrada...
Essa sorte decerto não espera
Nossa maçã, recordação da festa
Que à vossa faz a nossa primavera.
Tão humilde maçã, e tão modesta,
Logo ao vê-la se vê que a guerra dura
Por causa dela o mundo não infesta...
Logo ao vê-la se vê que a desventura
Que lançou nossos pais do Paraíso
Não cabe dentro de maçã tão pura...
Aceitai-a, Senhoras, e um sorriso
É quanto em troca dela nós queremos,
É quanto ao coração nos é preciso...
— Nem a mais esperar nos atrevemos...

Rapazes! Nossa música divina
Capaz de estremunhar até Morfeu!
A música da festa Nicolina
Que a terra abala e desconjunta o Céu!
Mais força, se é possível, mais ferina,
Que nada não é bastante este escarcéu!
Façamos tal restolho, tal chinfrim
Que o inferno pareça aqui assim!...
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