19 de maio de 2013

Efeméride do dia: A procissão das Marafonas

O andor da procissão da Candeia ou do Rolo ou das Marafonas


19 de Maio de 1866
Véspera do Espírito Santo. - Realizou-se pela última vez a Procissão da Candeia, mais conhecida por Procissão da Marafonas ou dos Pães Bentos, que saiu este ano de S. Domingos por lhe pertencer sair dessa igreja. Albano Belino, no seu livro "Archeologia Christã" a fl.150, descrevendo o andor que ia nesta procissão e se conserva no museu da Sociedade Martins Sarmento, diz: " que esta procissão se efectuava a 10 de Junho e que saía de Santa Clara" (isso foi em 1848), devendo dizer que se realizava sempre na tarde da véspera do Espírito Santo, saindo alternadamente das igrejas de S. Domingos, S. Francisco e Santa Clara, cuja descrição faz o padre Caldas a fl. 364 no 1º vol. do seu "Guimarães".
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. II, p. 158 v.)

A procissão da véspera do Espírito Santo, conhecida como a procissão da Candeia, do Pavio, do Rolo ou das marafonas, é uma manifestação de penitência e agradecimento instituída quando Guimarães se viu a braços com uma epidemia de peste, em finais do século XV. Na procissão seguia um andor que foi recuperado por Albano Belino, em muito mau estado, do sótão do antigo edifício dos Passos do Concelho e entregue à Sociedade Martins Sarmento, não se sabendo que destino é que acabou por lhe ser dado.
Esta era uma das festividades que, todos os anos, eram promovidas pela Câmara de Guimarães. O Padre António José Ferreira Caldas, que assistiu à extinção desta tradição secular, descreve-a nos seus Apontamentos para a história de Guimarães:

Outra procissão notável, pela singularidade, era a do Espírito Santo, também chamada da Candeia ou Pavio.
Foi instituída em 1489, por voto do povo, em razão duma grande peste, que então grassava em Guimarães: saía alternadamente da igreja de S. Francisco, S. Domingos, e Santa Clara, recolhendo à Colegiada, acompanhada pela câmara, cabido e religiões da vila.
Precedido de algumas donzelas, festivalmente vestidas, cada uma das quais levava um açafate de pãezinhos redondos, cobertos e enramados de flores, era conduzido um pequeno andor, simbolizando a torre de Nossa Senhora de Oliveira, coroada pelas armas reais e por uma pomba, e cercada dum rolo de cera branca, que devia medir a extensão dos muros da antiga vila.
Enquanto a câmara, cabido, e religiões, chegados ao largo da Oliveira, acompanhavam o andor à igreja para oferecerem o rolo com a mais cera, à confraria do Espírito Santo; colocavam as donzelas sobre um andor, levantado no padrão da Senhora da Vitória, os açafates dos pães, que - depois de benzidos por um dos capelães - eram pelos vereadores lançados ao povo, das janelas da casa da câmara.
Em 1598, em que esta procissão era já conhecida com o nome de voto antigo do povo, autorizou o rei Filipe a câmara a gastar até a quantia de cinquenta cruzados com ela, e com as seis pregações nas festas de S. Sebastião, Corpus Christi, Santa Isabel, Anjo Custódio, véspera da Senhora de Agosto, e domingo de Ramos.
Mas apesar disto chegaram a fazer-se exorbitantes despesas com os pães bentos, que se costumavam mandar de presente aos ministros, justiças, e grandes do reino; até que em sessão de 4 de Abril de 1805 ficou resolvido reduzir-se toda a despesa aos dezoito alqueires de trigo, que o concelho arbitrava para tal fim: e em 1808, em sessão de 4 de Junho, taxando-se a mesma despesa em nove mil e seiscentos, aboliram-se os presentes; acordando a câmara, que apenas se mandassem pães aos conventos da vila, e o açafate deles, com sua rosca, ao cónego cura pelo trabalho de os benzer, e por virtude duma antiga sentença.
Esta procissão, que o povo chamava das marafonas, que eram as moças que levavam os açafates, saiu pela última vez à rua em 1866.
António José Ferreira Caldas, Guimarães – Apontamentos para a sua História, 2.ª Edição, Sociedade Martins Sarmento/Câmara Municipal de Guimarães, 1996, pp. 254-255)

Sobre a mesma procissão, escreveu Albano Belino (que se engana na data da festa: não tinha data fixa, realizando-se cinquenta dias após a Páscoa):

O curioso andor das candeias, que também aqui se representa, foi salvo por minha intervenção quando fundei no edifício da Ordem de S. Francisco um pequeno museu de arqueologia cristã. Encontrei-o, quase de todo desfeito, no sótão do edifício dos Paços do Concelho, sendo desde logo oferecido à Sociedade Martins Sarmento.
Este andor era conduzido na procissão das marafonas ou dos pães bentos, que anualmente se efectuava a 10 de junho, em cumprimento de uma antiga promessa feita por ocasião de grande calamidade. Nesta procissão, que saía da igreja de Santa Clara recolhendo na Colegiada, tomavam parte a Câmara e o Cabido. O andor ia adornado de velas de cera, que perfaziam o peso do rolo com que se devia cercar a muralha da cidade.
Finda a festa eram benzidos os pequeníssimos pães, repartindo-se por todas as autoridades e lançando-se duma janela do edifício da Câmara à multidão, que os apanhava. (…)
Albano Belino, Archeologia Christã, Lisboa, Empreza da História de Portugal, 1900, p. 150

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