19 de maio de 2013

As Poesias de António Lobo de Carvalho (28)


A João Xavier de Matos, namorando por grosso e miúdo quantas mulheres há em Lisboa.



Apenas vês deixada da costura
Por trás da adufa a tímida donzela.
Como um raio, João, com os olhos nela
Lhe encampas reverente uma mesura:

Safa-se a moça, e o pai que por ventura
Vem chamar o aguadeiro da janela,
Repara então que a filha se acautela
Dessa tua cismática ternura.

Por amante basbaque a bom capricho
Te aponta ao dedo o ginja furibundo.
Se é que pronta não tem a pá do lixo:

Casa-te, amigo meu, e logra o mundo;
Que é descanso maior ser corno fixo,
Do que andar putanheiro vagabundo.


João Xavier de Matos é um poeta contemporâneo de António Lobo de Carvalho, cuja biografia se cruza com a do poeta vimaranense. Foram amigos. Ambos padeciam as agruras da falta de dinheiro, ambos se envolveram em amores proibidos (Xavier de Matos enamorou-se por uma freira do Porto), ambos conheceram a prisão. Entre os seus mecenas contou com Frei Manuel do Cenáculo, que seria Bispo de Beja e Arcebispo de Évora.
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