3 de maio de 2013

A propósito do conflito brácaro-vimaranense

Grotesco do lado voltado a norte da torre da Igreja da Calegiada de Guimarães


A propósito do que escrevi na efeméride de hoje, o meu amigo Pedro Morgado deixou no Facebook o comentário que aqui reproduzo, com a devida vénia:

Vou cometer a ousadia de comentar um texto de quem sabe muito mais do que eu sobre o assunto. Contudo, creio que a Sé de Braga é bem anterior a essa data e este quase sempre em obras. O que estranho é que, tantos séculos depois, ainda se mantenham alguns costumes tão pouco inteligentes de parte a parte.

Como acho que esta questão tem algum interesse, partilho aqui a resposta que deixei no mesmo sítio:

Meu caro Pedro Morgado,

Não há ousadia nenhuma, até porque acerca da Sé de Braga sei o que todos sabemos. Repare que eu não disse que a Sé de Braga foi feita em 1213, assim como não disse que as quezílias brácaro-vimaranenses começaram naquela data. Sabemos que a Sé de Braga começou a ganhar a forma que lhe conhecemos no último quartel do séc. XI, com obras que se estenderam, pelo menos, até bem andada a segunda metade do séc. XIII. Sabemos também que as disputas entre Guimarães e Braga começaram bem antes da data da Bula de Inocêncio III. É por isso que eu digo que, mais arroba menos quintal, o antagonismo é tão velho como a Sé de Braga.

No entanto, não me parece que estes velhos costumes sejam sinal de falta de inteligência (embora algumas das manifestações que têm originado o sejam, manifestamente). Entendo que fazem parte na nossa idiossincrasia e que dão um certo colorido à paisagem humana do Minho. Nós, por aqui, não somos 'minhotos' no mesmo sentido em que os de Trás-os-Montes são 'transmontanos, os do Alentejo são 'alentejanos' ou os do Algarve são 'algarvios'. Nestas terras do Minho, o sentimento de pertença local prevalece: nós somos, acima de tudo, bracarenses ou vimaranenses. Entendo também que esta rivalidade tem sido, há muito tempo, usada como argumento reivindicativo tanto de Braga como de Guimarães em relação aos poderes centrais, e que tem aproveitado ambas as partes. Dou um exemplo: aqui há uns anos, Sócrates, então PM, anunciou que o Instituto Ibérico de Nanotecnologias ia ficar próximo da Universidade "de Braga". O lapsus linguae de alguém que nunca se enganava, foi aproveitado inteligentemente pelo dinossauro de Braga, que logo se mexeu para que o que era para ser na Universidade do Minho fosse para Braga. Do lado de Guimarães, deram-se sinais de insatisfação, que podem ser traduzidas num. "então e nós? também queremos!". Vai daí, receberam uma CEC como brinde do bolo-rei. Nessa altura, foi a vez de em Braga se dizer exactamente o mesmo, com o sucesso conhecido: foi para lá a Capital Europeia da Juventude que, se não é a mesma coisa que uma CEC, não deixa de ser um contrapeso interessante. Ora diga-me lá se isto é pouco inteligente de parte a parte?

Mas há, tem razão, práticas bem pouco inteligentes, muitas vezes subscritas por pessoas inquestionavelmente inteligentes, mas que tendem a perder a lucidez e a deixar-se cegar pela paixão quando se entra na dimensão futeboleira. E isto dá-se de ambas as partes.

Dou um exemplo recente: há incidentes que a todos nos deviam envergonhar no estádio D. Afonso Henriques no início de um jogo entre os principais clubes das duas terras. E os comentários, logo tratam de dividir os adeptos em anjos (os "nossos") e demónios (os "outros"), quando é absolutamente manifesto que naquela história não há anjinhos e que actos como aqueles deveriam ser condenados em absoluto, sem tentativas de explicação manifestamente maniqueístas.

Dou outro exemplo: depois de um jogo de futebol, à saída de Braga, um autocarro de um clube (se bem me lembro, do Benfica) foi apedrejado, num acto de vandalismo criminoso que só por acaso não terá tido consequências funestas. Logo em seguida, não faltaram dedos apontados ao vizinho que estava em sossego do outro lado da Morreira. Teria sido ele, só poderia ser, o autor de tal atentado, uma vez que "os nossos" são gente incapaz de tais actos. E, tivesse o caso acontecido em terras de Guimarães, é bem possível que se arranjassem explicações semelhantes.

Tirando esta vertente, que remete para a irracionalidade, vamos olhando para os desenvolvimentos do conflito entre Guimarães e Braga, que é tão velho como a Sé bracarense, com ironia e algum divertimento. As picardias que vamos trocando servem para nos animar um pouco nestes dias cinzentos como chumbo, apesar do azul do céu.

(O texto que acompanhava a efeméride que escolhi para hoje levava, confesso, uma dose homeopática e fraternal de veneno. A resposta que recebi, que não deixa de ser merecida, é um sinal deste nosso velho entretimento lúdico que, não sabendo explicar porquê, tenho a sensação de que do lado de Braga é levado mais a sério do que em Guimarães, onde é encarado com mais sentido de humor e auto-ironia.)

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