4 de maio de 2013

"A Cidade", por Raul Brandão (2)


A Cidade

(continuação)
Das suas conversas nocturnas com o Pita saía sempre com a cabeça cheia de decorações e um sabor amargo à Vida-lama negra onde vestígios, espirros de oiro tivessem sido esquecidos. A sua experiência do mal de viver dava-lhe à fantasia rútila, recantos cheios de inédito e de amargura e era como se a sua alma fosse sacudida diante dele de toda a poalha negra ou escarlate que a Vida lhe deixara... Àquela hora só noctâmbulos esguios e com perfis rapaces quedavam pelas esquinas — figuras que, ao pé dos restos de cartazes púrpura, de grandes letras, faziam destaque e evocavam, perto da pompa e da grandeza, a miséria de sofrer e do ruminar da quimera pela noite...
Assim ele ficará de imaginação desperta, depois da conversa com o Pita e, febril, o cérebro em lume, ia agora pelo bairro pobre e desdentado, a seguir ainda à sua Fantasia. Em cada vulto que passava, procurava ver materializado o rasto de que Pita lhe falara, como um manto que cada um arrastasse, invisível e tecido a ideias e a sofrimentos...
— Pois quê!... — lhe dissera o Pita — donde provém que as feiticeiras leiam no passado do Homem ?... Nada se perde, cada um traz consigo, cometa que arrasta a cauda de lama ou de oiro, todo o seu passado, vestígios de ideias, crimes, horas de amargura e em que se beijaram lábios da Mulher, por quem a se perde... Creia na minha experiência da Vida!...
— E para ver… para ver esse rasto, que cada um arrasta a nimbá-lo, luaroso e ferido de lágrimas ? Serás tu Pita amigo, o Diabo, e queres em troca a minha Alma?..
— Não, não sou, com pena o digo, o Diabo... Quem me dera ser o Diabo, para ser moço, ter todo o Oiro e todas as lindas mulheres da terra. Ai o pequename de seios duros e lácteos como estátuas! o Oiro que dá o Poder, a Consideração Pública, os sorrisos de lábios de papoila das moças e a riqueza dos Bancos!... Não sou o Diabo!
E apontando com o seu dedo nodoso e descarnado para a Cidade, disse:
— Vai sofrer, espremer da Vida a tua experiência. Deixa que te calquem o coração, assiste ao despedaçar do teu sonho, à tua humilhação, e depois saberás….
Tomado de respeito por tanto saber, com humildade se despediu:
— Muito boas noites, senhor Pita !... Então não toma mais nada?
— Não tomo. Podes-te ir embora. Boa noite...


Com a cabeça a escaldar lhe parecia agora ver realmente o que o Pita lhe afiançara existir... Cada criatura que passava arrastava consigo uma cauda — poalha luminosa, de oiro ou cinza, feita de luar ou de escarlate. Lentamente pôde distingui-los, classificá-los, conforme o manto régio ou pobre que traziam. E na noite havia-os que deixavam um grande rasto rútilo, como estrelas cadentes, onde gemiam ais de mágoa, prolongados como um som de viola que se parte. Míseros ressequidos e sacudidos pela Dor e pela miséria traziam uma cauda cor de cinza, com chuveiros de miríades de centelhas de lágrimas, e a Poetas nimbava-os uma poalha de luar e de oiro. Velhas ardidas eram envolvidas por uma atmosfera baça onde o Oiro do imortal Amor ainda luzia. E alguns deixavam atrás de si restos de mantos todos púrpura, que se iam perder na lama e no esquecimento; outros, criminosos decerto, caminham numa nuvem negra, onde pedaços sangrentos escorriam como punhaladas, e havia-os todos verdes como a inveja, de cambiantes infinitas, com abortos de ideias, fetos de concepções à tona. Muitos arrastavam-nos, enormes pela lama, despedaçavam-nos de encontro às esquinas e alguns procuravam deitá-los fora, não mais pensar num Passado tenebroso...
(continua)

                                                                  Raul Brandão e Celso Hermínio (ilustrações).
O Micróbio, n.º 31, 14 de Fevereiro de 1895, pp. 46-47
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