22 de abril de 2013

Sobre a desaparição da Francisco de Holanda

Francisco de Holanda, página de De Aetatibus Mundi Imagines

Acabo de percorrer a Portaria n.º 156-A/2013, de 19 de Abril, dos Ministérios das Finanças e da Educação e Ciência, referente ao concurso de professores deste ano, para confirmar o que ouvia dizer mas que tinha dificuldade em acreditar: que a Escola Francisco de Holanda desaparecera do mapa. Uma busca rápida confirmou o que me diziam: sem anúncio prévio, desapareceu a designação da Escola Secundária Francisco de Holanda, de Guimarães, aparentemente engolida pelo Agrupamento de Escolas Egas Moniz. Como se não bastasse a imposição, contra tudo e contra todos, do casamento forçado entre a Francisco de Holanda e as escolas que estão agrupadas com a Egas Moniz, era preciso ir mais longe e tratar do baptismo do fruto indesejado deste matrimónio, passando com uma rasoira por cima de uma história e de uma identidade com quase cento e trinta anos.
A Francisco de Holanda é a escola onde homens como António da Silva Cardoso, Joaquim José de Meira, Abel Cardoso, António de Azevedo, José Craveiro, Hélio Osvaldo Alves, Santos Simões, António Freitas, entre muitos outros, formaram sucessivas gerações de vimaranenses. Criada, por exigência das gentes de Guimarães, num ano que ficou gravado letras de ouro nos seus anais, é uma referência identitária na cidade. Tem uma memória que honra e de que se orgulha. Merece respeito. 
A propósito do movimento que levou à criação da Escola Francisco de Holanda, recordo passagens do que escrevi aquando da celebração dos 125 anos de 1884, o ano que mudou Guimarães:

Este movimento fora lançado dois anos antes, com a criação da Sociedade Martins Sarmento, que nasceu como homenagem a um cidadão de Guimarães que tinha alcançado notoriedade e prestígio científico em Portugal e no estrangeiro, em resultado das suas descobertas arqueológicas. Desde cedo a Sociedade Martins Sarmento começou a desenvolver a sua actividade de “promotora da instrução popular no concelho de Guimarães”, com conferências e cursos de desenho e de francês essencialmente dirigidos a operários e a industriais, no pressuposto de que, com a melhoria das respectivas competências profissionais, ficariam em condições de concorrerem num mercado cada vez mais exigente e competitivo. Consciente de que aquilo que, por si só, a Sociedade Martins Sarmento era capaz de oferecer não seria suficiente para cumprir o programa ambicioso que desenhou, a sua Direcção resolveu recuperar um decreto que já levava duas décadas sem que se procurasse aplicá-lo, dando corpo ao movimento no sentido de reivindicar a sua concretização. Porque era de uma Escola Industrial que Guimarães necessitava. A história do ano de 1884 em Guimarães foi, em larga medida, a história do processo de reivindicação e de conquista de uma Escola Industrial, então percebida como um poderoso motor de desenvolvimento concelhio.

Em 1884, Guimarães conquistou a sua Escola Industrial. No dia 3 de Dezembro daquele ano, foi aprovado o decreto que instituiu oficialmente o ensino técnico em Guimarães. Dois dias depois, por portaria, foi-lhe atribuída a denominação de Escola Industrial “Francisco de Holanda”. Esta escola, com os pergaminhos de uma história mais do que centenária, há muito que é um elemento de destaque na paisagem cultural e social de Guimarães. Será possível usar de ligeireza e insensibilidade na tomada de decisões susceptíveis de desrespeitarem a identidade duma instituição com a sua dimensão e o seu peso? Pelos vistos, nestes tempos estranhos que vão correndo, é.
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3 comentários:

Sílvia Correia disse...

Calma! O desaparecimento do nome da nossa escola nas listas não resulta do agrupamento. Não foi a única, aliás. As listas não contemplam as escolas todas. Foi um erro detectado por vários diretores e já comentado em outros blogues.

Antonio Amaro das Neves disse...

Se não resulta do agrupamento, não percebo do que possa resultar. Então por que razão será que as (não) vagas da Francisco de Holanda aparecem no Agrupamento Egas Moniz? Pode ser que tenhas razão, é-me fácil admiti-lo, e que seja um erro, mas esse erro só pode ser fruto da falta de cuidado com que matérias importantes têm sido tratadas. E é um erro inadmissível num documento com força de lei. O que me leva a perguntar: o que andam a fazer os "especialistas" que estão ao serviço do Governo?

(Por outro lado, erro por erro, vem-me à memória outro: um dia, José Sócrates, então primeiro-ministro de Portugal, chamou Universidade de Braga à Universidade do Minho. Como resultado desse lapsus linguae, o Instituto Ibérico de Nanotecnologia acabou por ir para Gualtar, não sendo esse o lugar para onde estava destinado.)

Carla Mota disse...

Pois eu não acredito em erros grosseiros destes por parte do MEC. A não ser, erros deliberados... Estou bastante pessimista.