22 de abril de 2013

Pregões a S. Nicolau (47): 1895


Milagre de S. Nicolau

Em 1882, os festejos dos estudantes a S. Nicolau foram modestos, tendo sido promovidos pelos estudantes de instrução secundária do Instituto Escolar da Sociedade Martins Sarmento. A chuva também não ajudou. Houve bando, que foi lido por João Maria Peixoto de Carvalho do Amaral e Freitas. Não conhecemos nem o texto, nem o seu autor.

Em 1883, os organizadores das festas voltaram a ser os jovens estudantes da SMS. Houve bando, tendo-se repetido a declamação do de 1852, do Cónego Oliveira Cardoso, e... pouco mais. O pregoeiro foi Joaquim Justiniano de Araújo Leão Martins.

No ano seguinte, as festas continuavam agónicas. Houve bando no dia 5, desconhecendo-se texto, autor e pregoeiro.

Depois, seguir-se-iam 10 anos sem as festas dos estudantes a S. Nicolau. Regressam em força em 1895. E voltou o pegão, o primeiro escrito pelo poeta Bráulio Caldas. A celebração do dia 5 de Dezembro foi assim descrita pelo jornal Religião e Pátria:
Depois, o bando, muito bem posto, troando à sua frente dezenas de tambores. É de Bráulio Caldas a poesia, fina de graça, e de dicção, rica de imagens e de galanteria. Recitava-o o académico Jerónimo Sampaio, e força é dizer que os graciosos versos de Bráulio Caldas não poderiam encontrar melhor intérprete.
O pregão de 1895 é inovador, afastando-se das fórmulas que até aqui eram usuais, passando a cumprir uma função de crítica satírica aos tempos que se viviam.

BANDO ESCOLÁSTICO DA FESTA ACADÉMICA
O S. NICOLAU EM GUIMARÃES
RECITADO EM 5 DE DEZEMBRO DE 1895
Por
Jerónimo Ribeiro da Costa Sampaio

D. VIRGÍLIO MARONIS, FRANCISCO BANDARRA DE PÂNDEGA E BREZUNDELLA, por sua majestade d. Xinfrim Banzé, juiz perpétuo da confraria de S. Nicolau de Guimarães, GOVERNADOR in partibus da briosa mocidade académica; POETA dos três costados; ESCRITOR honorário de várias associações científicas e literárias; TESOUREIRO substituto da Associação de Socorros-Mútuos Rabelais, Simão Simões & C.ª; CAMAREIRO-MOR da Sociedade do belo sexo; MOÇO FIDALGO do paço das Penúrias; PRESIDENTE EFECTIVO da sociedade do Sem Vintém; ENGENHEIRO director da grande e importante fábrica da Cabala & &
Mando a todos os súbditos académicos presentes e futuros, antigos e modernos

Que se faça cumprir; mas sob o meu comando
As prescrições da lei deste solene bando.

Prevenção: vou falar e todos tenham brio
De ouvir com a atenção, sem mais ninguém dar pio.

Eu faço aqui lembrar o antigo chafariz…
Quem estudante não é não mete aqui nariz.
Se o contrário fizer damos-lhe na pavana
Como galhardo fez ao negro Gungunhana.

Ó grande Nicolau da Lícia filho amante.
Das virgens protector, amigo do estudante.
- Tu és maior no céu que o grande taumaturgo,
Na terra muito mais, (aqui no nosso burgo).
Por isso ó muito amado, em nós tens um sacrário,
Havemos de fazer-te, em breve, um centenário.

Salvé ó Guimarães; herói de antigas eras!
É teu este festim das nossas primaveras.

D. VIRGÍLIO descera as entranhas da tumba
Ressuscitando a festa a toques de zabumba.

Há dez anos que estará a pobre, sem alento!...
Arquivada, entre o pé das fólios da sarmento!

Fez vigorar as leis, costumes, palavrórios
Do antigo Estatuto e de antros papelórios.

Mas para que nunca mais se esqueça o festival
Ordena D. Virgílio a luta eleitoral.

E renhida e sangrenta!... em votos guerreados
Como a eleição geral dos nossos deputados.

Eu mando reformar o Código Civil,
Aos artigos da posse hei-de acrescentar mil.
                               *
Em posse ficará, depois de lauta ceia
Dançarem uma valsa ao club e à assembleia.
O místico estudante, o triste visionário
Há-de cantar à noite a fado do Hilário
Enquanto alegres nós, dançamos, sem vintém
Uma valsa de Strauss e outra de Chopin,
Será posse cumprir com alma e coração
A nova lei que manda a lei da instrução.
A grande lei de quatro e de noventa e cinco,
- D. Virgílio é quem manda e manda com afinco.
Pois quando ele ditara a magna lei de bronze
Pensava em quatro ou cinco em entre dez e onze...
Em posse ficará fazer uma postura
Para iluminar a azeite a triste rua Escura.

Musas de Anacreonte - abri-nos os salões
E reserva o Champanhe em doces libações...
Confeitos e missanga e o fino puro e terno
Que, Horácio tanto amou nas vinhas de Phalerno.
Para que nós sem perder o tino à galhofeira
Possamos dar mais brilho à nossa brincadeira.

Hoje, o Compêndio audaz, que nos atroa e massa,
Recolhe-se a quartéis, connosco não faz praça.

A Gramática, esbelta e cheia de quindins,
Faz oração mental... não entra nos festins.

O Cornélio e o Fedro e outros figurões
Dormem a sono solto ao lado de Camões.

As ciências naturais e o X da Matemática
Deixam ficar em zero a sua dogmática.

A Literatura, a História e a Filosofia
Foram comer marisco ali ao Zé Maria.

E o Velho, - o Latim, de barbo amarelada,
De óculos a meio pau, fungando uma pitada,
Remorde-se de inveja e cheira e faz pirraças
Ao discípulo que toca e dança e diz chalaças.

Tricanas, colibris das fábricas de linho
Vinde ouvir, sem temer, a voz do meu carinho.
Se já perdeu de moda a música e o canto
Das notas magistrais do tal carvalho santo.
Vinde ver, adorar, num largo prazenteiro
Como está levantado o nosso bom pinheiro.
Um pinheiro elegante, esbelto e de arrebiques
Tal como a pedestal de D. Afonso Henriques.
O pinheiro maior, o mastro mais gigante
Que ao longe e ao largo canta a festa do estudante.
                               *
Vós, senhoras gentis, de pura e fina raça.
Fidalgas de solar, cheios de mimo e graça.
Vós todas, ó gentis da terra, que adoramos,
Escutai, recebei o brinde que vos damos.
Reparai como canta amor e amizade.
O grupo juvenil da nossa mocidade.
É posse, é obrigação dar-vos as maçãzinhas.
Esses pomos de amor, perfeitos, coradinhas.
Essa prenda que vai na lança de Cupido
Ferir o coração mais duro o ressequido.
Mas, em troca, gentis, volvei um terno olhar
Para estes Romeus que vivem do luar...
Nóss vivemos na Lua a cantar madrigais
E andamos por aqui, gastando o cobre aos pais,
Mas… perdão… nossos pais já foram como nós
E a História não mentiu; já fala dos avós!
Rostos de branco e creme - ó magnólias puras
Que perfumais nossa alma! ó anjos, ó venturas.
No meigo azul o sol rebrilha para amar-vos,
E nós, como rivais, sonhamos para dar-vos
Um palácio primor, feito de crisântemos!
Embalado na brisa, onde vos adoremos.
Iguarias de amor em esplêndidas faianças
De rosas e lilás, de sonhos e de esperanças!...

Agora, um terno adeus, chora ao longe a saudade,
Ao descer ao Poente o sol da mocidade!

Companheiros – partir… que rufem os tambores,
Saudemos Guimarães, este jardim de flores.

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