3 de abril de 2013

Pregões a S. Nicolau (28): 1858

S. Nicolau, Amesterdão 

O Bando Escolástico de 1858 foi novamente escrito por José Ferreira Mendes de Abreu (Fatinho) e recitado por João Pinto de Queirós, tendo sido e impresso na Tipografia do A Tesoura de Guimarães, jornal que noticiava o modo como o número pregão foi executado naquele ano:
No domingo saiu o bando a horas competentes, com todo o asseio e boa ordem, fazendo o clarim calar os tambores quando o pregoeiro recitava o bando escolástico, que deixámos transcrito. O pregoeiro ia rica e elegantemente vestido e, o carrinho que o conduzia, vistosamente ornado, podendo dizer-se bem de todos os máscaras, tanto de pé, como a cavalo.
A Tesoura de Guimarães, n.º 226, Guimarães, 7 de Dezembro de 1858

RECITADO NO DIA 5 DE DEZEMBRO DE 1858.
POR
João Pinto de Queirós,

Já sonorosos pelos ares voam
Os ecos festivais, que ovantes soam.
Ah! surge, Guimarães, que vai de novo
Assomai deslumbrante para o teu povo
Lindo sol, que espargindo seus fulgores
Fará reverdecer já murchas flores;
Trazendo por contraste em mimos tantos
A meiga natureza seus encantos;
E tudo pois envolto num delírio
Já parece olvidar cruel martírio.
É, sim, de Nicolau festivo dia,
Que amanhã volve cheio de alegria.
Ah! vós, formosas, vós que num sorrir
Fazeis veras delícias de um porvir,
Vós, ante quem se abatem corações.
E cedem ferocíssimos leões!
Vinde amanhã colher viçosa palma,
E Condigno prémio da firmeza de alma
Simbolizado na maçã mimosa:
Qual outra oferenda haver mais grandiosa,
Mais sublime, e tão cheia de primor,
Que mais dê provas de sincero amor?
Ah! que recordações e mui fatais
Nos apresenta a história em seus anais!
De fortes muros Tróia guarnecida
Foi até aos alicerces destruída!
Um pomo, uma mulher causou tal guerra
Que em muito sangue fez nadar a terra!!
Mas qual de vós se mostrará ciosa,
Impondo gestos carrancudos e irosa!? =
Que ginja da ciência aos campeões
Queira usurpar os foros e isenções!?
Atrevendo-se mesmo sem vergonha
Com máscara cobrir a carantonha!
Jamais de Nicolau na festa ingente
Foi dado figurar estranha gente:
Mal do que praticar um tal delito-, =
Ai dele!!... em vão exclamará contrito.
Ninguém o livrará de ser molhado
No tanque do Toural, e apregoado,
Qual levando canastras, de sardinha
= Exclama = a regateira: “eh! la fresquinha!”
Nem vós, mimo da terra, lindas rosas,
Tristes soltando preces lacrimosas,
Do castigo isentá-lo podereis...
Ilesa respeitai as nossas leis.
E para dardes provas manifestas
De que sois liberais, e até modestas:
Amanhã generosas sede, sede,
É da ciência o filho que isto pede.
À dama, que é só dama, o estudante
Prefere a criadinha mui galante
Quer na sala, e entre vós, cosa assentada,
Quer more, na cozinia enfarruscada.
Deixai, que, nas janelas, as primeiras
Figurem, entre vós; de companheiras;
Que as segundas de rosto lavadinho
Espreitem por detrás, lá num cantinho.
Mas, ah!... formosas, lembra-me o balão’!...
É mania francesa de nação -
Esta lembrança inspira tal horror,
Que impressões mais não posso ter de amor! =
Avante, ò sócios meus, fazei patente
Do grande Nicolau o dia ingente:
Ao tambor, ah! lançai esforço tanto,
Que o estrondo seja tal, que faça espanto =
Que trema a terra, o céu, e o mar profundo,
E os ecos vão topar no fim do mando.
J. F. M. d’Abreu.
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