23 de abril de 2013

O conflito brácaro-vimaranense segundo Rafael Bordalo Pinheiro (4)



Caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro, publicada na revista Pontos nos ii, nº 42, 20 de Fevereiro de 1866, p. 333
[Tocar para ampliar]
Na edição de 11 de Fevereiro de 1886, um poeta inspirado e profético, que assinava como Frei Lourenço de Braga, publicou na revista Pontos nos ii um longo poema, que já aqui vimos, em que, a dado passo, anunciava:
— Ó berço da monarquia,
Vais ser sepulcro do Fontes!
Não seriam necessários muitos dias para que a profecia se cumprisse: no dia 16 do mesmo mês, Fontes Pereira de Melo abandonava o Governo, onde seria Substituído por José Luciano de Castro. Para o seu derrube, muito contribuiu o modo desastrado como o Governador Civil do distrito, o Marquês de Valada, lidou com o conflito que opunha Guimarães a Braga (entretanto, fora substituído no cargo por Peito de Carvalho). A caricatura que saiu nos Pontos nos ii de 20 de Fevereiro satiriza a queda de Fontes Golias às mãos do seu bailio, o Marquês de Valada, que o atinge com a pedrada do conflito entre Guimarães e Braga.
Na página que antecede a caricatura, a rubrica Crónica trata do mesmo assunto, em prosa ilustrada pela pena de Bordalo, que a seguir se transcreve.


Crónica
Os governos do nosso país são como os carros americanos: arrastam-se pesadamente, dolorosamente, mas enfim, mais dia menos dia, lá chegam ao termo da carreira.
Não  situação que não tenha o seu Algés, o seu Intendente ou o seu Príncipe Real onde encontre o extremo da linha.
O sr. Fontes, porém, descobrira o meio de evitar esse extremo fazendo-se condutor num carro da circulação.
Assim, a jornada seria eterna, se o garoto do Bailio não lhe tivesse colocado nos rails o pedregulho de Braga e Guimarães, por sobre o qual o carro da governação não pôde saltar, do que resultou sair da linha, obrigando a cair as bestas e fazendo empalidecer de medo a maioria dos passageiros — ou seja antes os passageiros da maioria...
O citado pedregulho complicava, ao que parece, com o próximo casamento do príncipe herdeiro, por onde se conclui que o carro da circulação descarrilou na linha do Príncipe Real...
Com a agitação que lavra pelo país o grande homem receava muito que os ares se entroviscassem e que chegasse até a correr sangue por ocasião do casamento do príncipe real.
E lá isso é que ele não queria que corresse, porque a menor pinga daquela matéria podia manchar-lhe para todo o sempre o seu dólman bordado e flamante como uma antiga colcha da Índia.
O sr. Fontes viu-se pois entalado entre a cruz da demissão e a caldeirinha do sangue fresco.
Optou pela cruz, mas só ele sabe as lágrimas que chorou para se resolver a botá-la às costas!...
Antes de opinar por essa resolução, mais difícil de tomar de que meia canada de ruibarbo, o sr. Fontes fez tudo quanto pôde, no propósito de convencer o sr. Hintze a que desistisse de arrastar o ministério ao Vale Escuro.
A queda do ministério não podia ser mais dolorosa para o sr. Fontes de que no momento actual.
Não que lhe importasse o chimbalau que ia apanhar a sua fiel maioria; porque o sr. Fontes, do alto do seu pedestal, considera tanto a citada maioria como os pintassilgos, do alto seu poleiro, consideram o fundo movediço da gaiola...
Mas, caindo o ministério, já s. exa. não pode, como fizera contas, mostrar o seu garbo de príncipe de sangue e o seu capacete de plumas de arara nos festejos do casamento do príncipe seu colega!
E foi por causa disto que o sr. Fontes se lançou aos pé do sr. Hintze, pedindo-lhe pelas alminhas dos seus defuntos que deixasse estar o governo tem-te não caias pelo menos até ao dia do nó cego no matrimónio do príncipe presumpto.
— Ó colega! dizia-lhe ele com a voz entremeada de soluços; tenha dó e compaixão dum pobre aleijadinho que não o pode ganhar.
E punha as mãos e as pernas como o sr. marquês de Valada, a fingir que estava aleijadinho.
Mas o Hintze ficava de cal e areia.
— Olhe que eu morro de ralação se não mostro o dólman no casamento do príncipe!... Não mi matis, não mi ralis...
E o Hintze, de pedra!
— Ora veja se esta formosura pode ficar no fundo do baú! e mostrava-lhe o rico dólman.
E o Hintze de granito!
— Se estas plumas podem ser relaxadas à traça do cabide! e apresentava-lhe o capacete de plumas.
E o Hintze de pedreneira
E mostrou-lhe tudo, desde as vestes exteriores até os segredos mais recônditos da sua fina roupa branca; mas o Hintze tanto mais inabalável quanto abalado ele sentia o dente histórico dos trambolhões ministeriais!
E foi assim que ele caiu, aniquilado pelo próprio filho que acalentara em seu seio!
Nós já lho havíamos prognosticado: aquele mancebo, que aumenta os impostos do pão para aliviar os da piteira, é como o filho da citada piteira: cresceu para matar a mãe!...
Pontos nos ii, 20 de Fevereiro de 1886, p. 331
Partilhar:

0 comentários: