21 de abril de 2013

O conflito brácaro-vimaranense segundo Rafael Bordalo Pinheiro (3)

Página 327 da revista Pontos nos ii de 11 de Fevereiro de 1886.


Na sua edição de 11 de Fevereiro de 1886, a revista Pontos nos ii, de Rafael Bordalo Pinheiro, volta a abordar a questão que então dominava as discussões políticas em Portugal, o conflito que estalara entre Guimarães e Braga e que prosseguia em ritmo de escalada. Desta vez, publica um longo poema satírico, composto por 44 quadras, assinado por um tal Frei Lourenço de Braga. Os versos satíricos de Frei Lourenço zurzem a indignação que então grassava entre os vimaranenses. A certa altura, quase no fim, surgem dois versos premonitórios:

— Ó berço da monarquia,
Vais ser sepulcro do Fontes!


GUIMARÃES DESAGRADECIDO
ou
O ABUSO DA ARQUEOLOGIA
EXPOSIÇÃO MÉTRICA DE UMA NEVROSE MEDIEVAL
MCDLXXXVI
POR
Fr. Lourenço de Braga

Não vás de noite à Citânia,
(Nem já os sábios lá vão!)
Pois anda nela um fantasma,
Cumprindo negra missão.

O velho monge da serra
Diz ser o celta Carnal,
Que à gente de Guimarães
Jurou vingança infernal;

Pois mãos profanas tocaram
Na grande Pedra Formosa!
E trinta sábios vizinhos
Sobre ela fizeram prosa!

Afirma ainda um pasto
Que vira o celta, a cantar,
Abrir escura caverna,
À branca luz do luar;

E logo dela saírem
Os tais micróbios, que dão
A triste monomania
Da negra perseguição.

Dizia o canto : — Vingança !
“Ó feras de vinte patas!
“Tornai depressa esses sábios,
“Sem excepção, nervopatas!

Depois de leres o que segue,
Dirás, ó pio leitor,
Se tinham, ou não, razão
O velho monge e o pastor.

Dias depois. Guimarães
Acorda todo guerreiro.
Belona fica de esperanças,
E Marte mui prazenteiro.

E no Dom Afonso Henriques
O Divorçons volta à cena;
Há vivas mil a Naquet,
Há mil rugidos de hiena.

Enchem as altas cadeiras
Daquele circo romano
Tipos de raça normanda,
Gentes de aspecto inumano;

Rudes barões das cruzadas,
Feros armeiros da terra,
Velhos burgraves de Basto,
Que moram longe, na serra;

Pajens, donzéis, infanções,
Burgueses, padres e povo;
Todos de luto vestidos,
E todos de chapéu novo!

Que os velhos feltros de Braga
(Feltros sem lei e sem fé)
Tinham, há tempos, sofrido
Tratos de negra polé!

No palco, lonas pintadas
Com cenas da meia-idade;
Ao fundo, triste, uma sombra
Que faz lembrar a cidade!

Antes de abrir a sessão,
O Comité de salut
Enche de sangue um tinteiro,
Com gestos de Pedro Cru.

E vai, depois, majestoso,
Coberto de verdes loiros,
Tomar assento em cochins.
De verdes, cheirosos, coiros.

Passou-se logo à leitura
Dum documento solene
Era uma carta-homília
Do bispo de Mitilene:

Aos bons Fidalgos, meus Primos,
Dizia o tal pergaminho;
“A vós, arraia-miúda,
“Que fabricais ferro e linho;

“Saúde, paz e concórdia,
“E mais juízo e pachorra;
“Pois, em verdade, vos digo
“Que sois espelho de Andorra.

“Mover tal guerra aos de Braga
“Por causa duma assuada!...
“Se estais isentos de culpa,
“Dai-lhe a primeira pedrada...

“Pois não sofreu Margaride
“(Quer ele queira, ou não queira)
“De vós afrontas iguais,
“Por causa duma oliveira?!

“Dizei depressa: — peccavi
Dizei; que neste certâmen
“Só armas santas se usaram.
Sancta, sanctorumque. Ámen.

“Armas, que almas devotas
“Opor-se somente devam:
“Às armas de S. Francisco
“As armas de Santo Estêvão.”

Um coro de maldições
Rompeu os brandos conselhos;
Os moços... parecem tigres,
Parecem moços os velhos!

Tais, os bretões sequiosos,
Sentindo água no vinho;
Tais, famulentos judeus,
Mordendo gordo toucinho!

Ouviu-se, então, entre cenas,
Roncar medonho trovão;
E logo por entre chamas,
Abriu-se fundo alçapão.

E dele, novo Lusbel,
O Negro-Melro, danado,
Surgiu, de tanga vistosa,
E penas mil no toucado.

— Eureka! diz: “encontrei
“Um meio muito engenhoso,
“De Braga ficar contente,
“E Guimarães jubiloso.

“Que o berço da monarquia,
“Cercado de verdes montes,
“Forme por si um distrito,
“Um grão-ducado pró Fontes.

“Vereis então nesse paço,
“Sem folgo de monarquia,
“Brilhar, gentil, majestoso,
“0 Rei António Maria.

“Ele há-de dar-nos um bispo
“Para esta Sé sem pastor.
“Talvez o Guerra Junqueiro
“Tenhamos por Dom Prior.

“Um rio, grande, formoso,
“Há-de essa ponte banhar,
“Com lindos peixes vermelhos,
Tendo um Pimpão a nadar.

“Será composto o senado
“Por toda a tribo Minotes,
“Que o cidadão de Pombeiro
“Só pensa nos sans-cullotes.

“O castelão de Lindoso
“Talvez encontre afinal,
“Nas fundas trevas dum cano
“A pedra filosofal.

“E no jardim do Toural,
“Para que reste memória,
“O hábil Castelo Branco
“Terá estátua marmórea.

“Que este hábil Castelo Branco
“— Não vá haver confusão —
“Nem é rival do Antunes
“Nem do Palmela é irmão.

“Na velha torre feudal
“—São praxes de El-Rei Pepino—
“Hão-de ficar em reféns
“O Missas e Constantino.

“E disto ninguém suspeite,
“Nem vá tomar-mo a mal;
“Paulino vai para a Falperra
“Com a nova guarda-fiscal.

“Por esta tanga cabinda,
“Herança dum meu passado,
“Eu juro ser esta a traça
“De tudo ficar sanado.

“Mas, antes que tal suceda,
“As barbas não mais cortemos,
“Embora morram barbeiros,
“Todos à uma juremos.”

Sumiu-se, bradando todos
Com vozes de mastodontes:
— Ó berço da monarquia,
Vais ser sepulcro do Fontes!

Não mais se faz uma barba
Em toda aquela cidade!
São todos porta-machados.
Uns monstros de puberdade!

Enfim, quem quer pode ver
(É triste e custa dizê-lo):
As rosas de Margaride
Cobertas de negro pelo!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Por isso, se tu não queres
Viver em tal confusão,
Não voltes mais à Citânia.
Que nem os sábios lá vão.

Pontos nos ii, 11 de Fevereiro de 1886, p. 327

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