4 de abril de 2013

Escritores vimaranenses (58): Manuel Tomás


MANUEL TOMÁS, natural de Guimarães, e nascido (segundo Barbosa) em 1585. Ignora-se a sua profissão, bem como as demais circunstâncias relativas à sua vida, passada quase toda na ilha da Madeira, onde (ao dizer do mesmo Barbosa) morreu afinal assassinado por um filho de um ferrador, aos 10 de Abril de 1665, quando contava 80 anos de idade, sem que todavia se nos patenteie o motivo que houve da parte do assassino para praticar tal atrocidade!— E.
Insularia de Manuel Thomás, a João Gonçalves da Câmara, conde da Villa-nova da Calheta. Anvers, em casa de João Meursio impressor 1635. 4.o de xx-494 pág., e mais uma no fim com a errata.
É um poema heróico em dez livros ou cantos de oitavas ritmadas, que tem por assunto o descobrimento da ilha da Madeira.
Sei de exemplares vendidos, quando bem tratados, de 1:200 a 1:600 réis. Poucos tenho visto no mercado.
O Phenix da Lusitânia, ou acclamação do serenissimo rei de Portugal, D. João IV: poema heróico. Ruan, por Lourenço Maurry 1649. 4.° de XXIV-382 pág. Tem além do rosto impresso um frontispício alegórico aberto a buril, e um retrato do autor, sob cuja efígie se gravou o dístico seguinte:
“Qui fuit, est, erit, effigies en unica Thomae,
“Unicus ingenio, solus et ipse solo.”
Tenho porém observado em alguns exemplares riscadas, ou trancadas com tinta a ponto de ficarem de todo ilegiveis, as palavras “Qui fuit, est, erit,” sem poder atingir que escrúpulo ou melindre censório determinou tal supressão. Consta o poema de dez livros, ou cantos em oitavas ritmadas. Os exemplares são algum tanto menos raros que os da Insulana; isto é, aparecem de venda mais vezes: e o seu preço varia, creio eu, entre 800 e 1:200 réis.
União sacramentai, offerecida a el-rei D. João IV do nome, e XVIII entre os reis portuguezes. Ruan, por Lourenço Maurry 1650. 8.° É consagrada a celebrar o mistério da Eucaristia, e dividida em sete hinos, ou cantos, com um proémio também em verso, dirigido ao sobredito rei.
Na Bibl. Nacional existe um exemplar desta obra, bem como das duas superiormente mencionadas. São elas as que da Bibl. de Barbosa passaram para o pseudo-Catálogo da Academia. O colector deste omitiu do mesmo autor as quatro seguintes, das quais a primeira é indubitavelmente escrita em castelhano, e provavelmente o serão as outras três, sendo esse talvez o motivo da omissão praticada no catálogo.
Poema del angelico doctor Sancto Thomás. Lisboa, 1626. 8.° de 293 folhas. — Vi na livraria de Jesus um exemplar, falto de rosto. Diz-se que o autor compusera este poema aos dezassete anos de idade.
Rimas sacras, dedicadas a todos os sanctos. Anvers, por João Meursio; 1635. 8.º — Ainda não pude vê-las. Que o título é em português, não resta dúvida. Sê-lo-á porém o contexto?
Thesouro de virtudes. Anvers, pela viuva de João Cnobaro 1661. 8.º-. — Barbosa (do qual tirei estas indicações) diz que consta de vinte e um romances, que o autor intitulara hinos: porém nada declara quanto à lingua em que são escritos.
Décimas a um peccador arrependido. — São (conforme Barbosa) vinte e duas, impressas em uma folha ao alto, sem ano nem lugar da impressão, tendo na parte superior uma estampa de Cristo crucificado, a cujos pés se vê o pecador ajoelhado, com as mãos erguidas, em acto de suplicar.
Foi Manuel Tomás um poeta da escola gongorista, de cujos preceitos se mostrou sempre afervorado discípulo. Posto que o seu estilo seja, como convinha a essa escola, turgido e enfático  e que abunde em ideias hiperbólicas, em amplificações e conceitos, etc, nem por isso deixa ele de possuir seu mérito real, como homem dotado de engenho fecundo e de viva imaginação. A maior parte dos defeitos que se lhe notam, não são seus, mas do século em que viveu e das ruins doutrinas com que foi educado. O erudito Francisco José Freire na sua Arte Poética cita com louvor, e por mais de uma vez, a Insularia como uma das nossas epopeias mais notáveis; e em verdade parece ser esta a mais valiosa composição de Manuel Tomás; o seu maior pecado é talvez a sua nímia extensão, porque bem poderia reduzir-se a cinco ou seis cantos, com o que ficaria decerto mais perfeita e regular. O Phenix da Lusitânia, sobre ser mais falto de artifício poético, é mais eivado de gongorismo que a Insulana, e nele superabundam os conceitos rebuscados e o mau gosto do estilo. Quanto à linguagem o referido Freire o cita a miúdo nas suas Reflexões Sobre a Lingua port., mas nessa parte sempre com reparos críticos, censurando-lhe, ora a má escolha dos termos, ora a incorrecção dos vocábulos, ora finalmente a excessiva liberdade que tomara em aportuguesar vozes latinas, etc, etc.
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo VI, Imprensa Nacional, pp. 119-120
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