5 de abril de 2013

A opinião de João de Meira sobre as festas a S. Nicolau no ano de 1901

Bombos e caixas nicolinos, foto de Guimarães2012

No jornal Independente de 8 de Dezembro de 1901, foi publicado um texto sem assinatura, mas escrito por João de Meira, em que fala das festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau, da sua história  das suas tradições e de certas práticas que, por o autor as considerar anacrónicas e perturbadoras do sossego público,  deveriam ser banidas. Aqui fica:

S. Nicolau
Entre todas as manifestações da actividade humana, nem uma só existe, por mais insignificante, que seja, desprezível como elemento subsidiário para o estudo de uma raça ou de um povo,
Do seu começo nada se sabe, mas nos princípios do século passado (data do estatuto que as regulamenta quase como hoje se efectuam) eram já classificadas de imemoriais.
Se os traços grosseiros de um fragmento de argila permitem avaliar o estado da civilização de uma antiga tribo, se as gravuras de almanaques e de toda a literatura de cordel medem bem a compreensão artística de um povo, é fácil também, para um espírito medianamente ilustrado, aquilatar o grau de intelectualidade dos estudantes que aqui frequentaram latim há cem anos, pelas usanças das festas de S. Nicolau que a academia actual herdou de seus antepassados sem sensíveis modificações.
Do seu começo nada se sabe, mas nos princípios do século passado (data do estatuto que as regulamenta quase como hoje se efectuam) eram já classificadas de imemoriais.
Vindas assim de longe, no rigorismo das exclusões e na severa pena aplicada aos intrusos (um banho de choque em Dezembro) está se lendo o espírito intolerante dos tempos absolutistas.
Hoje, uma corporação ameaçada por elementos estranhos de perturbações na celebração das suas festas pediria o auxílio da polícia e não se arrogaria na qualidade de ofendida o direito de juiz e algoz.
Mas da severidade da pena uma outra verdade ressalta com nitidez e vem a ser que as festas naquele tempo eram tidas como coisa de subida importância, nem de outro modo se explica que alguém se arriscasse a intrometer-se nelas fraudulentamente.
Se a cerimónia da entrega das maçãs não é do século XVIII, nem do século XX, porque é de todos os tempos, dada a constituição do nosso organismo e a necessidade fisiológica do amor, já a cerimonia dos motes teve de terminar como inteiramente incompatível com a nossa época e só realizável no tempo dos abadessados e nas arredadas épocas em que Tadeu Luís António Lopes de Carvalho da Fonseca e Camões reunia em honra do arcebispo D. José, os dois maçudos volumes do Guimarães Agradecido.
O espaço escasseia-nos para divagações, mas estamos certos de que analisadas com cuidado, as festas diriam muito neste sentido, sobre os costumes antigos da nossa cidade.
Respeitáveis como tradições inofensivas e alegres, há nelas, todavia, duas coisas que bom seria eliminar: O rapto das tabuletas e o rufar de tambores ante-manhã.
Geralmente aqueles que um grande entusiasmo impele não podendo dormir, julgam-se no direito de não deixar descansar os outros; e assim, em dias de santo mais reverenciado, somos acordados ao romper da alva por estrepitosas salvas de bombas reais, e assim pela quaresma devotos zelosos badalam pelas ruas uma sineta rachada, estremunhando as famílias e chamando os fiéis à penitência das vias-sacras.
Os estudantes não deviam pois, arregimentar-se com estes perturbadores, tocando bombo desabaladamente pela madrugada, nem deviam também, com o roubo das tabuletas, desrespeitar a liberdade alheia, quando com tão severas penas pretendem conservar a própria liberdade.
Independente, Guimarães, 8 de Dezembro de 1901
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