9 de abril de 2013

A "linha" de um jornal, segundo João de Meira (aliás, segundo Brito Aranha)

Retrato de Brito Aranha, publicado no tomo 10.º do  Dicionário Bibliográfico  de Inocêncio, a que  João de Meira se refere no seu texto.


A Revista A Memória começou a publicar-se em Guimarães no dia 16 de Setembro de 1900. Apresentava-se como literária, no cabeçalho aparecia Domingos José da Silva como responsável e teve uma curta existência, terminando com o n.º 31, em 14 de Abril do ano seguinte.
No primeiro número, aparece um texto, cuja publicação se concluiria no número seguinte, assinado com um pseudónimo (Homo) utilizado por João de Meira, o autor do texto, à altura com 19 anos de idade. Nele, dirigindo-se ao responsável da nova publicação e com o propósito de elucidação dos leitores, o jovem Meira descreve como aprendera o que era a linha de um jornal. Vale a pena ler.
O personagem que aparece identificado no texto como B. A. é Brito Aranha, o continuador do Dicionário Bibliográfico de Inocêncio Francisco da Silva. O jornal de Lisboa onde o narrador se dirige é o Diário de Notícias, onde Brito Aranha desempenhou as funções de redactor principal, após a morte do seu fundador, Eduardo Coelho. A biografia de Francisco Martins Sarmento que João de Meira pretendia publicar vinha a propósito da grande homenagem pública a Sarmento que estava a ser preparada em Guimarães e que aconteceu no dia 11 de Março de 1900.

Uma Linha…
(página das minhas “memórias”)
Dizem-me que há-de chamar-se A Memória a nova folha para a qual estou encadeando estes dizeres à sombra de uma parreira, junto a uma bica de água que murmura e um campo de milho de onde sobe o doce perfume do pendão.
Não me ocorre o que da memória diz o filósofo Costa e Almeida por cujo douto volume aprendi a magra filosofia dos liceus; mas sei muito bem que quando no mundo ainda havia deuses a loura Memória foi amada de Júpiter — o tonante — (o tipógrafo pode compor com u se entender que o filho de Saturno, pelo que fez a inúmeras deusas, antes merece o nome de tunante.
Destes divinos amores nasceram as Musas que decerto serão propícias à gazeta que no título invoca o nome de sua mãe.
A mim, protege-me tu, austera Clio, deusa de olhar negro e profundo, coroada de louro que presides à história e à tradição.
Protege-me hoje que das minhas — Memórias — vou arrancar uma página para elucidar muitos sobre o que seja a linha de um jornal.
Num periódico de Guimarães publiquei já, o que no caderno achei escrito sobre a morte de Martins Sarmento; a página de hoje, bem diferente prende-se todavia ao mesmo assunto.
*
Alguém que me honra com a sua amizade imaginando que eu, vimaranense mais ou menos lido em velhos e novos livros, poderia escrever uma ligeira biografia de Sarmento com mais exactidão do que os jornalistas da capital, para quem a existência de Sarmento era tão problemática como a do Velocino de ouro, ofereceu-me uma carta de apresentação para o redactor principal de um dos principais diários lisbonenses do qual o meu amigo era distinto correspondente.
Isto foi em fins de Fevereiro.
Em um de Março, às oito da noite procurei na redacção o jornalista, atravessando essa mal alumiada rua dos Calafates a que o jornal emprestou a moderna denominação.
— No primeiro andar, explicou-me um empregado da secção de anúncios.
Ia subir palpando no bolso a carta, não fosse tê-la perdido, quando num sujeito que descia, de chapéu alto, cabeleira branca, bigode e pera more militum, me pareceu reconhecer quem procurava, pela indecisa recordação de um retrato entrevisto na primeira página de um dicionário bibliográfico.
— É V. Exa. o snr. B. A.?
— Sou sim.
— Trago esta carta para V. Exa.
À luz do globo branco que iluminava a escada e tinha em letras pretas o título do jornal, foi-a lendo pausadamente por sobre os óculos, e depois, tendo voltado para mim o olhar miúdo, perguntou:
— Então o senhor que deseja?
Expliquei: Fazer um artigo, uma pequena biografia de Martins Sarmento para o que tenho os necessários elementos, dizia-lhe:
— V. Exa. sabe, fazem-se em Guimarães as festas onde o seu nome é bem conhecido e o seu valor tão justamente apreciado, quanto pode sê-lo por leigos na ciência. O meu desejo, o do nosso comum amigo, que me envia a V. Exa. e o de todos os vimaranenses era que esse nome ilustre soasse bem alto pelo país inteiro; para isso contámos com o jornal de V. Exa.
Alguém entrara vestindo um comprido agasalho de veludo e agitando distraidamente na mão um stick de cana.
Tinha o cabelo grisalho e usava lunetas.
— Este moço, disse-lhe B. A., indicando-me com um gesto de mão, traz elementos para escrever a biografia de Sarmento.
E ele, um poeta cujo livro de versos pouco depois o diário ofertou como brinde aos assinantes, curvou-se num gesto de inteira aquiescência murmurando:
— Como o snr. B. A. quiser.
E novamente com a bengala fazia menção de traçar arabescos no pavimento do mosaico enquanto o outro me dizia:
— Pois então traga a biografia ou apontamentos para ela se fazer.
Eu murmurei apenas:
— Sim senhor.
Ia retirar-me quando ele acrescentou ainda:
— Estou aqui das onze às duas todos os dias. Venha no dia quatro ou cinco.
Fui a seis. No primeiro andar um criado de suíças brancas indicou-me o gabinete. ati no vidro fosco da porta e o próprio B. veio abrir convidando-me a entrar na saleta estreita bastante atrancada por cadeiras e uma secretária baixa de muitas gavetas.
Entreguei-lhe o artigo que ele se pôs a ler sentado, com demorada atenção, enquanto eu examinava os quadros pendentes das paredes: ao fundo, próximo da janela, Camões na gruta de Macau, na minha frente grande cópia de fototípias de um homem antigo em atitudes rígidas de estátua que mo pareceu Afonso de Albuquerque; havia também cromolitografias, que deviam ser brindes do jornal.
B. A. ia já no fim da segunda tira, voltou-se e pousando em mim os olhos pequenos e franzidos por detrás dos óculos, observou-me:
— Isto tem de ser alterado.
Leu o período que dizia: Sarmento secundado por um grupo de amigos atacou, no jornal fundado para isso, o Juiz Seco que recebia emolumentos indevidos e a seu bel-prazer insultava e suspendia advogados.
Depois, tomando o primeiro linguado voltado sobre a secretária, acrescentou:
— E isto também.
Era a história das tagantadas públicas no padre Clemente de Melo que injustamente criticara o arqueólogo quando ele ainda não era mais do que poeta.
— Não se pode, explicava, dizer que um juiz recebe emolumentos que lhe não pertencem. É um insulto grave! Gravíssimo! nem é conveniente contar assim um caso de chicotadas.
Eu objectei que os factos estavam narrados em livros e jornais, que eram do domínio público, que de mais a mais os indivíduos mencionados estavam decerto mortos.
Ele duramente retorquiu dizendo que o desacato era ainda maior feito a defuntos que em virtude de essa falsa posição se mão podiam defender ou vingar, e juntou, fazendo com a mão um largo gesto:
— A linha do jornal não o permite!
Pelo solene modo com que as últimas palavras foram ditas, compreendi que essa coisa para mim desconhecida a que chamavam linha devia ser augusta e intangível, e então, tendo recalcado o meu despeito, respondi;
— V. Exa. conhece essa linha que diz. Eu desconheço-a totalmente. V. Exa. alterará como entender.
Depois enquanto ele continuava a ler, a tal linha pareceu-me uma corda que municiava fortemente as ideias. Tive a tentação estúpida de perguntar se modernamente havia uma literatura de linha, como há tropa de linha e como já tinha havido literatura de cordel.
E reflexionando maduramente quis-me parecer que se a literatura era de linha, lançada ao papel não devia dar jornais, mas sim novelos.
B. A., que tinha achado no meu escrito menção do roubo feito à Sociedade M. Sarmento, interrompeu-me estas considerações, perguntando:— Então nunca se descobriu o ladrão?
— Nunca, respondi.
Acabou de ler e disse:
— Está bem. Deve sair?
— No dia 11 que é o das festas. Escreveu no verso do último linguado: para o dia e voltando-se: o nosso amigo já mandou um extenso telegrama. Leu?
Li, respondi despedindo-me.
E pela estreita rua, onde às janelas assomavam mulheres pinturiladas de carmins em trajos pelintramente espalhafatosos, segui, para o meu quarto andar, monologando:
— Afinal a tal linha é linhaça emoliente que se aplica aos artigos.
*
Cinco dias depois, ao almoço, enquanto aguardava o bife cárneo, desdobrei o jornal.
Lá estava a biografia, mas quão diferente do que tinha sido!
Transformada, errada, refundida, para ser reduzida àquele estilo amorfo e chato que é o do periódico. Só então compreendi verdadeiramente o que era aquilo que B. A. chamara a linha. Era uma superfície.
Uma superfície onde se empalmavam cuidadosamente todos os escritos que entravam na redacção…
*
E nada mais que o sineiro cá da freguesia, não sei com que pretexto, está a atroar os ares e a desfazer-me a cabeça num repenicar infrene e epilético.
12 de Setembro.
Homo.

Homo (João de Meira), “Uma linha… (Páginas das minhas Memórias)”, in A Memória, Guimarães, 1900, n.º 1, 16 de Setembro, p. 6, e n.º 2, 23 de Setembro, pp. 3-4. 
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