7 de março de 2013

Universidade do Porto, 1921: Emídio Guerreiro, “terrorista da caloirada”



Em Março de 1962, assinalando os 50 anos da Universidade do Porto e do Orfeão Académico, foi publicado um jornal com o título Porto Académico, onde aparecia um texto de Henrique Almeida, com o título “Bons Tempos”, que se inicia com a descrição da sua primeira entrada na Faculdade de Ciências, para uma aula. A lição ficaria na memória, não pelo brilhantismo do mestre, que não apareceria, mas pelas maroteiras que dois “terroristas” exerceram sobre os caloiros incautos. Eram eles um Sobrinho Barbas e o vimaranense Emídio Guerreiro, que então andava pelos 22 anos e era “fisicamente magro, quase limitado ao osso, de génio arrebatado e de inteligência fortemente imaginativa”, com propensão para a oratória e chefe da Orchestra Katastrophica, uma banda de paródia que costumava animar os carnavais dos estudantes portuenses.

Aqui fica, com um agradecimento ao meu amigo Miguel Bastos, a parte do texto de Henrique Almeida em que fala da sua primeira aula de química, que não o chegou a ser.


Quando a rapaziada entrou pela primeira vez, em Outubro de 1921, no átrio sul da Universidade do Porto, para ouvir o mago da química Ferreira da Silva, foi com pânico que viu os estudantes Emídio Guerreiro e o Sobrinho das Barbas, os dois “terroristas” da caloirada.

Indivíduos absolutamente diferentes e opostos no temperamento e no físico, dir-se-iam dois biótipos padrões: um, o primeiro, fisicamente magro, quase limitado ao osso, de génio arrebatado e de inteligência fortemente imaginativa — tipo D. Quixote — o outro, de avantajadas carnes, espantosamente gordo, de largo perímetro ao nível da cinta, no todo um peão humano mas de génio muito calmo, muito frio e de reacções muito lentas, tipo Sancho Pança.

A presença destes dois sujeitos — com uma fama e uma tradição insuperáveis no que dizia respeito à perseguição ao caloiro — era para nós, os neófitos universitários, uma segura e certa promessa de que daí a nada, dentro de muito poucos segundos, haveria espectacular garraiada. E assim foi. A coisa principiou logo ali no átrio de química pela operação denominada a tonsura do caloiro. O Sobrinho das Barbas, aquele Himalaia de banha, de tesoura em punho, caiu impiedoso e sádico sobre as cabeleiras que ele, o vândalo de instintos capilaricidas, julgou de mais pretensiosas ou de mais petulantes.

E um após um dos componentes daquele bisonho, triste e conformado rebanho foi sujeito a esta e a muitas outras tropelias, deste e de outros doutores. O Guerreiro, que era então o chefe da Orchestra Katastrophica — a mais obsoleta e estúpida instrumentação musical que jamais se viu—e que tinha a mania do discurso — para o que tinha inegável jeito, diga-se de passagem — obrigava ora este ora aquele a perorar sobre os temas os mais disparatados ou os mais extravagantes.

“Fale — impunha o Guerreiro — sobre a influência do queijo no aparecimento e no crescimento das Pirambóias do Egipto”. E ai daquele que não dissesse meia dúzia de asneiras de respeito e todas de enfiada; massacrava-o então com perguntas e cavalgava-o, o que era bem pior.

Foi assim sob uma penosa influência duma praxe — já então muito pouco aceitável e muito pouco recomendável para a época — que nós fomos ouvir a primeira lição do sábio químico Ferreira da Silva.

(…)
Henrique Almeida, Porto Académico, n.º único, Março de 1962, p. 8
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