7 de março de 2013

Pregões a S. Nicolau (1): 1817



Dos que conhecemos, o mais antigo autor de pregões a S. Nicolau não era aquilo a que, nos tempos que correm, chamaríamos um nicolino, por não ter estudado em Guimarães, terra para onde se mudou quando já ultrapassara largamente os 30 anos de idade. João Evangelista de Morais Sarmento era natural do Porto, onde veio ao mundo a 26 de Dezembro de 1773. Cursou na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, “por necessidade, e não por inclinação”, tendo concluído o curso em 1801. Era, acima de tudo, um poeta, com fama de repentista. Em 1808, veio viver em Guimarães, em casa dos senhores de Vila Pouca. De saúde frágil e debilitado por uma paralisia que o acometeu em 1823, viria a morrer, em Outubro de 1826, quando contava 52 anos. É o autor dos quatro primeiros pregões da festa dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau que se conhecem, os que foram recitados nos anos de 1817, 1818, 1819 e 1822.

No primeiro daqueles poemas, composto por 52 versos, são já introduzidos alguns dos elementos que virão a ser sucessivamente glosados nos pregões nicolinos. Desde logo, a presença recorrente de personagens da mitologia clássica (Lísia, Minerva, Marte), dos ginjas, do sórdido taful e do audaz Caixeiro, a quem estavam destinadas duras penas, caso se intrometessem nos festejos (aquele que o tentasse há-de limpar-nos com a língua as bota / e levar as costelas meias rotas). Melhor trato não teria o rendeiro de Urgezes a quem cabia entregar aos estudantes a sua “posse”, onde se incluíam as maçãs que depois eram distribuídas pelas damas vimaranenses, caso não recebesse os estudantes convenientemente (o Rendeiro a não estar bem preparado / há-de ser no Toural arcabuzado). Mas, acima de tudo, percebe-se que os estudantes pretendiam cativar as atenções das raparigas, as Belas, o condigno ornamento das janelas.

Terminada a declamação do pregão num local, o pregoeiro ordenava:

Cubram-se as testas, o clarim se emboque.
Marchemos... O tambor ao Bando toque.

Curiosamente, no pregão de 1817, não se fez qualquer referência ao patrono da festa, S. Nicolau.


Pregão na Festa dos Estudantes de Guimarães, chamada de S. Nicolau (1817)

Oh Lísia! oh dos Impérios flor amena!
Que pouco te importou, que inchado o Sena
Trasbordando, feroz o pezo ingente
Desenrolasse da tremenda enchente
Sobre teus campos, teus estados, praças.
Rolando em cada onda mil desgraças!
Que pouco te importou que o feliz Marte
Que arrasou de Danzig o baluarte,
Que às maiores nações arrima o ombro,
E as maiores Nações cobre de assombro,
Sobre teus muros trovejasse horrendo,
Em ódio, em vingativa raiva ardendo!
Herói tiveste, que os Heróis esmaga,
Augusto morador da excelsa Plaga,
Que a frente de imortal esplendor matiza,
E as Estrelas aos pés sagrados piza.
Mimo de Jeová, mimo daquele,
Que os Orbes todos assoprando impele;
Rei dos anos; Senhor da Eternidade,
Maior, inda maior, que imensidade?
Foi ele, ninguém mais, foi, eu o juro
Quem contra a Gália ergueu bronzeado muro
Ele qual Bóreas, que o negrume espalha,
Faz em pedaços a infernal canalha,
A águia feroz de sangue tinge a pluma,
E açoitada na terra em raiva espuma.
Guimarães! Que se segue? o grato fogo
Em gratos Corações não rompe logo?
Haverá entre nós algum ingrato,
Que em culpada inacção fique insensato?
Não, assim não será; os seus louvores.
Eu já passo a ordenar. Rufem os tambores.
A sua Guarda de Honra nós compomos,
Ministros do seu culto só nós somos;
Silêncio respeitoso... Ordem do dia...
“Será sem Lei Escolástica folia.
As ruas correndo a Juventude solta
Quanto lhe agrade levará de envolta.
O condigno ornamento das janelas
Damasco não será, serão as Belas.
Aos Ginjas que tolherem que elas falem
Mil pranchadas nas costas logo estalem.
O sórdido taful, o audaz Caixeiro
Que à Função se meter de prazenteiro
Há-de limpar-nos com a língua as botas,
E levar as costelas meias rotas.
O Rendeiro a não estar bem preparado
Há-de ser no Toural arcabuzado.
O oficial maior fica incumbido
Do que mandamos a mostrar cumprido.
Cubram-se as testas, o clarim se emboque.
Marchemos... O tambor ao Bando toque.”

Poesias de João Evangelista de Morais Sarmento, Coligidas por vários Amigos seus, revistas pelo A. Poucos tempos antes de sua morte , e dadas à luz por alguns de seus admiradores, Porto, 1847, pp. 146-148
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