31 de março de 2013

Pregões a S. Nicolau (24): 1855



Sebastião da Costa Vieira Leite, que ficaria conhecido como o padre poeta e que já havia declamado o bando escolástico dos estudantes de Guimarães pelas festas de S. Nicolau, acumula em 1855 a função de pregoeiro com a de autor do pregão. Neste pregão prometia-se, para o dia da festa, “um Céu na terra de prazeres novos”.

Bando Escolástico
FEITO E RECITADO
POR
Sebastião da Costa Vieira Leite
em 1855.

Depressa ò povos mil, vinde em torrente
Pasmar à minha voz altiloquente!
Cessem penas cruéis, cessem cuidados,
Afanoso lidar, tristes enfados;
E escutai-me um programa portentoso
Que vai ditar-vos leis, vai assombroso,
Mostrar-vos como brilha a mocidade
Que logra de Minerva alta amizade.

Do frígido Dezembro a sexta Aurora,
Festiva como nunca o fora outrora,
Ou vista a nuvem parda, ou fresca rosa
Lhe tinja a face divinal, mimosa,
Ou rompa a custo, a sombra densa e escura,
Ou toda livre, em luz se envolva pura;
Quando enfim se mostrar, tereis ò povos,
Um Céu na terra de prazeres novos.
Mascarada vereis tão surpreendente,
Que endoudeça de gosto a toda a gente,
Geral entusiasmo, e riso, e danças,
Aquém e além subtis, finas lembranças,
Facécias mil, e mil exibições,
Grato enlevo de alegres folgazões,
De música dulcíssimos acentos,
Capazes de amansar tigres cruentos;
Vereis mais o que a língua não exprime,
Por ser fraca em dizer o mais sublime;
Eis aqui, Guimarães, como o estudante
Vai mostrar-te amanhã, função que espante!
Mas que falta ainda aqui de valor tanto,
Que em tudo sabe desparzir o encanto?
Ah! sim, sois vós, ò Querubins da terra.
Vós, que sendo na paz, sendo na guerra,
Delícias sempre, e mimos e primores
Donde brandos emanam mil amores;
Se de tudo vós sois a vida, o alento…
Ò virgens, sede pois, um só momento,
Aos filhos da ciência consagradas:
Esperai, na janela debruçadas,
A vermelha maçã, e amor, e vida,
E frases de paixão a mais sentida;
Escutai-as, que são a expressão de alma
Do jovem que incendido não se acalma;
E depois consenti que a mão tremente
Vá sentir-lhe de um beijo o ardor fervente.
Não pede mais a sábia juventude,
Se mais pedir-vos vai contra a virtude,
Bem longe pois, irmão degenerado,
Que connosco não quer ser mascarado;
E muito mais o peralvilho estulto,
Aos vícios dado, e na ciência inculto.
Se pois, houver algum que queira insano,
Roubar-vos este mimo soberano,
Se quiser, temerário e disfarçado,
Do estudante, amanhã, campear ao lado,
Ai dele! que melhor fora em tal caso,
O nariz cora a terra andar-lhe raso;
Ou lá numa trapeira entaliscado,
Ser mais do que chouriças defumado;
Melhor fora, que ser em pó desfeito,
Ou rachado cem vezes pelo peito.

Está ditada a lei, notória a festa!
Agora o que será que ainda me resta?
Nada mais que dizer em voz troante:
Multidão escolar! avante, avante!
Fazei de assombro estremecer o mundo
Desde o mais alto até ao mais profundo!
Rebentai os zabumbas, os tambores,
Se neste estrondo há majestade e horrores.
Enquanto a fama corre, e do universo
Subindo além, o vai deixar submerso,
E suspenso e abatido à nossa glória;
Pois, de outra igual não fala a humana história!!
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