31 de março de 2013

Da ópera para o convento

Antigo Convento das Capuchinhas de Guimarães (hoje, Oficinas de S. José)


Na sua edição do dia 25 de Julho de 1844, a Revista Universal Lisbonense traz uma notícia onde se dá conta de uma exibição no teatro do Porto, cuja receita reverteria para as freiras Capuchinhas de Guimarães, dos cantores de ópera Sra. Olivier e Sr. Sermallei. A notícia é atravessada por uma manifesta ironia, que se percebe, por outros textos publicados pela mesma revista, da antipatia que os seus redactores dedicavam àqueles artistas.

HARMONIA ENTRE O MUNDO E O ERMO
Quais serão no orbe moral os antípodas de um convento de capuchinhas se não forem os dos virtuosos escriturados? e quais serão os antípodas de um teatro de ópera se não for um convento de capuchinhas? Pois… coisa inaudita!... acabámos de ver trabalhar entre estes antípodas um telégrafo eléctrico de amor.

A Sra. Olivier e o Sr. Sermallei fizeram no teatro do Porto um benefício para as velhas e desamparadas religiosas capuchinhas de Guimarães, que lhes rendeu 240$ réis (o domine, lábia mea aperies ás sopas della mia felicitá!).

As santas religiosas agradeceram ao Sr. Sermallei e à sra. à Sra. Olivier numa carta muito bem concertada, em que se falava mais de Deus do que de Donizetti, em que rematavam prometendo-lhes a glória, não a dos folhetins, mas a eterna: e com esta carta lhes mandaram algumas caixas de doces finos, obra de suas mãos, tão saborosos no seu género como as caritativas árias tinham sido no seu.

Revista Universal Lisbonense, volume 4, 1844-1845, 25 de Julho de 1844, p. 11
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