29 de março de 2013

Pregões a S. Nicolau (22): 1852

S. Nicolau


O pregão de 1852 foi escrito pelo cónego António de Oliveira Cardoso, de cuja pena já haviam saído os de 1842 e 1844. O declamador voltou a ser, pela quarto ano consecutivo, Sebastião da Costa Vieira Leite.
O pregão anuncia o programa da festa do dia seguinte (Rubras maçãs, castanhas lourejantes, / Que ofertam com meiguice os estudantes. / Do Manuel Mendes o entremez chistoso, / Da Polca e da Mazurca o passo airoso, / Tudo e nada ante as farsas e choreias, / Com que o fogo acender farão nas veias. / De Veneza imitando os gondoleiros, / Como as Musas cantando em sons fagueiros).
O cónego Oliveira Cardoso introduz nesta edição, pela primeira vez, duas personagens que passarão a marcar presença constante nos pregões a S. Nicolau: a tricana, rapariga do povo ou camponesa (A tricana, inda feia, é contemplada, / Se tiver olho terno, e andar lavada) e o futrica, termo importado de Coimbra e que se aplica aos não estudantes que se intrometem nas festas (Qual há por aí futrica arrebicado, / Que a tal delito se arrojasse ousado!).
O pregão de 1852 seria repetido em 1883, em tempo de agonia das festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau.

Bando escolástico
Recitado por Sebastião da Costa Vieira Leite no dia 5 de Dezembro de 1852
Ò povos do Universo, tende inveja
Da ventura sem par que aqui flameja;
Soberbas Capitais, Paris, Lisboa,
Vós mesmas abatei a altiva proa,
Que bela, qual jamais brilhara dantes,
Vai a festa brilhar dos estudantes.
Vedes o Inverno em gelos embrulhado.
Para os Alpes fugir envergonhado,
E já trajando galas de verdura,
Risos e amores inspirar Natura!
Tudo a festa escolástica anuncia,
Que em torrentes desparze alma alegria.
Congratulaste pois, ò Pátria amada,
Por esta dita imensa a ti só dada;
É mimoso florão da coroa tua,
Que nenhuma cidade tem na sua;
Nobre e antiga tu és, mal esta glória
Mais memorável te fará na história.
Guimarães, flor do mundo, ah! que folguedos
Estes mancebos te preparam ledos!
Que desejo fomenta alguém no peito,
Que todo lhe não deixem satisfeito!
O ananás do Brasil, do Douro a pera
Em doçura igualar jamais poderá
Rubras maçãs, castanhas lourejantes,
Que ofertam com meiguice os estudantes.
Do Manuel Mendes o entremez chistoso,
Da Polca e da Mazurca o passo airoso,
Tudo e nada ante as farsas e choreias,
Com que o fogo acender farão nas veias.
De Veneza imitando os gondoleiros,
Como as Musas cantando em sons fagueiros.
Mostrarão que não há por toda a parte
Quem os possa igualar em gosto e arte.
Nem cumpre para haver maçã mimosa
Ser dama de bom gosto, ou ser formosa;
A tricana, inda feia, é contemplada,
Se tiver olho terno, e andar lavada.
Nem só quem traz judia, e traz bigode,
As danças, as facécias gozar pode;
Verá qualquer lapónio as farsas belas,
Té de riso estalar pelas costelas.
Mas um novo prazer, prazer dourado,
Tem para as lindas damas reservado.
Entes mimosos, que com graças tantas
Mesmo tigres fareis curvar as plantas;
Da vida esmaltes, ah! nos estudantes
Ternas cravai os olhos flamejantes,
Deixai-lhes apertar as mãos nevadas,
E vereis como então magnetizadas,
Num êxtase ficando o mais jucundo,
Prazer do Eliseu gozareis no mundo.
Receais que haja aí Feitiçaria?
Sossegai, força é mais da simpatia;
Arte empregam também os estudantes,
Mas astúcias não são de nigromantes.
São puras; doces, qual o mel no favo,
São feitiços de amor, não do Diabo.
Temeis que negras mãos, que mãos calosas
Vão as vossas tocar-vos tão mimosas?
Não temais, que só eles podem tanto,
E neles tudo é mimo, e tudo encanto.
Qual há por aí futrica arrebicado,
Que a tal delito se arrojasse ousado!
Parvos! tocar-lhe a dextra, e no seu rosto
Gozar assomos de ternura e gosto.
Isso e de glória a mais viçosa palma,
É recompensa da cultura de alma;
Vós não chuchais, que no crisol do estudo
Polir não ides o toutiço rudo,
E mal fareis se para ao crime ousardes,
Com máscara os focinhos ocultardes;
No tanque do Toural mergulhos cento
Em pena sofrereis do louco intento,
E a cada mergulho uma apupada
A cachola vos deixa atordoada.
Nem sonheis nos bestuntos delirantes
O valor arrostar dos estudantes;
Quem tenta resistir-lhe ao braço forte,
Que nesse instante não encontre a morte!
Ai de vós se tentais, patetas broncos,
Que o raio tão veloz não fere os troncos;
Com passo de gigante vos alcançam,
E só com um pontapé ao pó vos lançam;
Como Alexandre, da vitória o nume,
Chegar, ver, e vencer, e seu costume.
Mas vós não abuseis, sócios amados,
Só ofendidos vos mostrai ousados;
Era prudência e valor sempre os primeiros,
Sede em guerra leões, em paz cordeiros,
Derramando à manhã doce alegria,
Porfiai em sossego, e cortesia,
E agora do tambor ao som jucundo
A festa anunciai à pátria, e ao mundo.
                                         A. O. Cardoso.
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