20 de março de 2013

Pregões a S. Nicolau (14): 1844.2

S. Nicolau

Em 1844 houve dois pregões. Um, escrito por Pereira Caldas, não teve pregoeiro. O outro, saído da pena do Cónego António de Oliveira Cardoso, foi declamado por… dois pregoeiros. Um, António Joaquim de Almeida Gouveia, dando a voz à deusa Minerva, leu os seis primeiros versos. Os restantes (102) foram ditos por Inácio Luís Pereira do Lago, encarnando a figura de Mercúrio, o deus mensageiro.
O pregão anunciava a festa do dia seguinte, em que os estudantes quentinhas, a pelar, darão castanhas e se exibirão em farsas de escangalhar de riso e numa dança militar.

Bando Escolástico - 1844

MINERVA
Queridos filhos meus, que a doce vida
Gastais em me adorar no templo honroso,
Hoje férias vos dou à dura lida,
Para entregar-vos ao recreio, ao gozo.
Mercúrio em sons facundos anuncia
O festejo, o prazer do excelso dia.

MERCÚRIO
Ò pátria, ò Guimarães, ò flor mimosa,
Que toda te apavonas orgulhosa
De acalentar de Lísia o rei primeiro,
Que os reis maravilhou do mundo inteiro.
Viste o entrudo assomar todo casquilho,
Levando tranças de ouro, alvo polvilho,
E branda seta em doce devaneio,
Na laranja embebendo o níveo seio,
Tudo envolver em donairosa guerra,
Que nos ecos ribomba o vale e a serra.
Viste do S. João a mão rugada
Com harmónicas chácaras cantada,
Por entre a relva a seus adoradores
Brando rocio entornar, néctar de amores,
E na alcachofra em chamas crepitantes
Mostrar seu fado a fervidos amantes.
E nada em ti calou doce alegria!
Almejar só de Nicolau o dia
Em que o estudante em mimo transcendendo
Tudo vai de prazer embebecendo!
Respira, que no espaço vem sorrindo,
Perlas vertendo, rosas esparzindo,
E por mais a função tornar preclara
Lá do Olimpo baixou Minerva cara;
Tudo pois neste dia luminoso
Há de em torrentes transbordar de gozo.
Ricos gibões trajando os estudantes,
Que o Grão-Mogol não traja tão brilhantes,
Mil dons, em cantos mil, com graça e arte,
Cuidosos, espalharão por toda a parte.
Aqui para dum fartar magras entranhas,
Quentinhas, a pelar, darão castanhas;
Aí a outros de prudente siso
Farão com farsas escangalhar de riso;
E dança militar, que amor desperta,
A todos deixará de boca aberta.
Mas vós, queridas, que o gemer do peito
Com um volver adoçais do lindo aspeito,
Vós, neste dia a que prestais fulgores,
Distinguidas sereis com seus favores.
Maçãs, na cor rivais de vosso rosto,
Belas choreias de apurado gosto,
Em requebros primando, em louçania,
Para vós as reservam à porfia.
Porém o galardão condigno seja
Da ternura que na alma lhes flameja,
Do pomo ao receber, deixar de leve,
Doce o lábio tocar na mão de neve;
De airosas danças na afanosa lida,
Terno suspiro lhes esmalte a vida.
Minerva, sim, a castidade ordena,
Mas de amor puros gozos não condena.
Que temeis pois? o genitor rugoso,
Que severo vos mostra o gesto iroso?
Porque o gelam talvez setenta invernos
Quer em vós abafar suspiros ternos?
Deixai-o, que ao amor o dia é dado,
E se a mão vos puser o ginja ousado,
A chorina senil irão tirar-lhe
E com ela depois na calva dar-lhe.
Temeis que do peralta o lábio impuro
Tóxico verta ao suspirar mais puro;
Coitado, silvos são da inveja ardente,
Que deles ver não pode a dita ingente,
Porque a melena à Nazaré penteia,
Porque todo arrebiques se alardeia,
Anelava também finezas caras
Sem votar dulias de Minerva as aras!
Casquilhos, um conselho: retirai-vos,
E das selvas nos antros ocultai-vos,
Que tanto vos não vale a inveja infecta
Que parte ouseis tomar na excelsa festa.
É de estudante só condão augusto,
De mil lucubrações o prémio justo;
E mal dos vis que no bestunto a mente
Lhes der para infringir a lei potente;
Ao Toural entre apupos arrastados,
Serão no largo tanque mergulhados;
E se alçarem também ousados braços,
Logo feitos serão em mil pedaços.
Quer Minerva que em paz respire a terra,
Mas para a lei guardar ordena a guerra;
E seus filhos por ela protegidos
Têm sido sempre de lauréis cingidos.
Embora duros sabres empunhando,
De hostes assome numeroso bando,
Aos alunos de Palias nada espanta;
Quais espartanos heróis, que a fama canta,
Quantos inimigos são saber não querem,
Mas só aonde estão para os baterem.
Tremei, tremei do impávido estudante,
Que ou à lança, ou ao murro, é sempre ovante.
Deusa, ò deusa imortal, que douta e forte,
Na ciência és fanal, na pugna és morte,
É o a égide ampara a cara juventude,
Inspira-lhe almo génio, alma virtude.
E vós, filhos da cândida Minerva,
Que o gélido pavor jamais enerva,
Eia, sons do tambor mandai aos ares,
Que atroem novos mundos, novos mares,
E o eco festival, que aos astros sobe,
Vá invejas causar no Olimpo a Jove.
FIM
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