20 de março de 2013

Escritores vimaranenses (43): Joaquim Inácio de Freitas


JOAQUIM INÁCIO DE FREITAS, Bacharel formado em Cânones pela Universidade de Coimbra, tendo-se aí matriculado no primeiro ano o curso jurídico em 30 de Outubro de 1788. Exerceu o magistério por muitos anos, primeiro como Professor de Retórica e Filosofia, e depois de Gramática e Língua Latina no Real Colégio das Artes, anexo à Universidade. Em 1814 foi-lhe conferido o cargo de Revisor da Oficina Tipográfica da mesma Universidade, o qual desempenhou, segundo creio, até o seu falecimento, ocorrido em Fevereiro de 1831. — A sua naturalidade é para mim ainda problemática. O reverendo Prior Pereira Coutinho, que a meu rogo procurou averiguar este ponto no cartório da Universidade, conseguiu encontrar, depois de aturadas diligências, o requerimento que Joaquim Inácio fizera ao reitor pedindo ser admitido a matricular-se no primeiro ano do curso jurídico; e neste requerimento ele se declara natural da vila de Guimarães, e filho de Domingos José de Freitas. Examinado porém o assento da matrícula no livro competente, acha-se que aí se declarava a princípio ser ele natural de Guimarães; mas que depois em cota marginal, e como emenda se escrevera natural do Pará; ora isto concilia-se maravilhosamente, visto haver na província do Pará, hoje império do Brasil, uma vila assim chamada. Contudo, pessoas que se dizem bem informadas, sustentam que Freitas fora nascido em Guimarães, mas na província do Minho, onde dizem tinha família e casa, na qual costumava ir passar as férias nos fins dos anos lectivos. À vista de tal insistência, confesso a minha perplexidade, não sabendo o que deva ter por verdadeira neste caso.
O que não admite sombra de dúvida, ou discrepância, é que Freitas era um homem inteligente, estudioso, bom filólogo, e de muita probidade. No tempo em que serviu de corrector na imprensa da Universidade prestou àquele estabelecimento importantes serviços, e não foram menores os que fez às letras nacionais com a publicação de vários trabalhos que empreendera; os quais embora lhes falte o cunho do génio, provam quando menos a sua infatigável paciência, e o desejo de ser útil e prestável a seus concidadãos. — Algumas das obras que abaixo seguem, saíram com as iniciais J. I. de.Freitas; outras anónimas.
Collecção chronologica dos assentos da Casa da Supplicação e do Cível. Segunda edição augmentada com 37 assentos, e diligentemente emendada dos frequentes erros e faltas da primeira. Coimbra, na Imp. da Universidade 1817. 4.º-
Colecção das leis e provisões d'el-rei D. Sebastião, por Francisco Corrêa. Agora novamente reimpressas por ordem chronologica, uma numeração de §§. que em algumas faltava; seguidas de mais. algumas, leis, regimentos, e provisões do mesmo reinado. Ordenado tudo por J. I.de F. — Ibi, na mesma Imp. 1818. 4.° (Vej. o artigo Leis d'el-rei D. Sebastião.)
Collecção chronologica de varias leis, provisões, e regimentos d'el-rei D. Sebastião, para servir de Appendix á nova edição das que colligira Francisco Corrêa em 1570. Com algumas mais de Filippe II e III, anteriores á publicação de suas Ordenações em 1603: Ordenado tudo e correr do, conforme as primeiras edições e manuscriptos authenticos. Ibi, na mesma Imp. 1819. 4.°
Collecção chronologica de leis extravagantes, posteriores á nova compilação das Ordenações do Reino, publicadas em 1603. Desde este anno até o de 1761, conforme as collecções Vicentinas e seu appendix, etc. Recenseadas todas, acuradamente revistas, e frequentemente emendadas de muitos erros e faltas. Ibi, na mesma Imp. 1819. 4.° 6 tomos.
Supplemento de que, como parte integrante, se devem provêr todos os que tiverem a minguada e incorrecta edição da Descripção de Portugal por D. N. do Lião, reimpressa em Lisboa, 1785, 8.° por Borel, Borel e Companhia. Segue-se ao Supplemento uma larga errata, cuja mór parte è igualmente applicavel á mesma 1.ª edição.— E no fim: Coimbra, -na R. Imprensa da Universidade 1825. 8.º de 16 pag.— Não traz a declaração, expressa do nome do autor. Da necessidade e valia deste opúsculo já disse o que havia mister, no artigo Duarte Nunes do Leão.
Sonetos a Dona Guiomar, filha do doutor Pedro Nunes, sobre a cutilada que deu em Coimbra; extrahidos de um antigo manuscripto em 4.°, em que miscellaneamente se acham colligidas muitas peças curiosas em prosa e verso, pelo próprio punho do collector Gil Nunes de Leão, contador dos Contos do Beino e Casa, sobrinho do desembargador Duarte Nunes do Leão. Segunda edição mais accrescentada. Coimbra, na R. Imp. da Universidade 1826. 4.º de 12 pág.
Nesta segunda edição (creio que a primeira foi feita no mesmo ano) vêm algumas notas e reparos, que dizem respeito à polémica suscitada entre Freitas e o sr. dr. Francisco de Arantes, hoje deão da catedral de Coimbra, com respeito a certas inadvertências em que este incorrera no seu Compêndio de Chronologia, etc.
Considerações das lagrimas que a Virgem nossa senhora derramou na sagrada paixão, repartidas em dez passos, para a devoção dos dez sabbados, pelo P. Fr. Luiz de Sousa, da Ordem de S. Domingos. Nova edição, conforme á primeira de Lisboa, por Geraldo da Vinha, 1625. 8.° Coimbra, na R. Imp. da Universidade 1827. 8.° de 24 pág. Com uma prefação de Freitas, que ocupa duas páginas inumeradas. (Vej. Fr. Luís de Sousa.)
Errata para servir de appendix á «Compilação de varias obras do insigne João de Barros, reimpressas em beneficio publico pelos monges da real Cartucha de Évora» publicada por egual motivo pelo auctor do Supplemento e errata á «Descripção do rdnode Portugal por D. N. do Leão» etc.,etc. Coimbra, na R. Imp. da Universidade 1830. 8.° de 16 pág. — Já no artigo João de Barros, tomo III do Diccionario, tratei a propósito deste opúsculo, e do seu merecimento.
Suspiros e saudades de Deus, exhalados e expostos em breves cânticos, reduzidos e imitados dos Affectos Sanctos (Pia Desideria) do P. Hermanno Hugo, da Companhia de Jesus, pelo veneravel P. Fr. António das Chagas, missionário apostólico n'este reino, etc, etc. Acuradamente rcimpressos n'esta ultima edição, expurgada dos muitos erros das anteriores. Coimbra, na Imp. da Universidade 1830. 12.º gr. de VIII-47 pág.— Escapou mencionar esta entre as mais obras de Fr. António das Chagas, no lugar respectivo do Diccionario. Vej. também o artigo José Pereira Veloso.
Soneto sobre a morte de Jesu-Christo, traduzido do italiano (do P. Onufrio Manzoni). Coimbra, naR. Imp. da Universidade 1828. Um quarto de papel.
Advertência. Precedido desta única palavra, sem mais rosto ou declaração, aparece um caderno de 30 pág. em 4.°, contendo uma longuíssima e bem trabalhada errata do Compendio da Doutrina Christã por Fr. Luís de Granada, da edição de Coimbra, 1789; a cujos exemplares anda às vezes junta a mesma errata, que pelo tipo se conhece ter sido impressa em Coimbra, e no século actual. Sei com certeza, que é trabalho de Freitas, posto que não traga o seu nome.
De todos os opúsculos mencionados, de n.° 1601 a 1606 que são raros, ao menos em Lisboa, conservo em muito apreço os exemplares que obtive, devidos à eficaz intervenção do meu bom amigo, o sobredito prior Pereira Coutinho, que benevolamente procurou satisfazer ao empenho que a este respeito lhe manifestei. Não pude porém haver o n.° 1607, nem o que vai descrito em seguida, apesar de fazer por elles egual diligencia. Do seguinte apenas tenho visto um exemplar, em poder do sr. Figaniere.
Ode a Martim de Castro do Rio, senhor de Barbacena, etc. Coimbra, 1823. 4.° gr. de 8 pág.
Esta ode, escrita por André Falcão de Resende, foi dada à luz por Joaquim Inácio como espécimen da edição que se propunha fazer das Poesias do mesmo Resende, cujo códice viera ter às suas mãos, como já indiquei no tomo I deste Diccionario, no artigo relativo ao sobredito, a pág. 61.
É possível que além dos referidos, existam ainda alguns outros opúsculos por ele publicados, e não vindos ao meu conhecimento.
Foi Joaquim Inácio de Freitas quem dirigiu e preparou a edição crítica, que dos Lusíadas se fez na Imp. da Universidade em 1801, enriquecida por ele com um índice de palavras locupletíssimo; e é também da sua pena a Prefação que vem no tomo I das Ordenações do reino de Portugal, estampadas na mesma imprensa em 1824.
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo IV, Imprensa Nacional, pp. 85-87

[Aditamentos]
JOAQUIM INÁCIO DE FREITAS
(pág. 87, linha 48)
Por erro tipográfico escapou neste lugar a indicação de 1801 em vez de 1800, data da edição dos Lusíadas aqui mencionada. Além da Prefação que antepôs á frente da Ordenação do Reino impressa em Coimbra, na Imp.° da Univ. 1824, 3 vol. de 4.º (edição por ele revista, confrontada, e corrigida com a sua habitual e minuciosa exactidão, do que dá conta na mesma prefação de pág. XVII a XXVII) fez também, e inseriu no fim do primeiro volume um Relatório da nova errata feita nesta nova edição das Ordenações e Leis do Reino, ocupando a do tomo I, oito pág., a do tomo II seis ditas, e a do II oito ditas.
É ainda auctor de outra Prefação anteposta à edição da Hist. et Inst. Juris Civ. et Crim. Lusit. de Pascoal José de Melo, que se imprimiu em Coimbra na Imp. da Univ. 1815, e depois mais vezes reimpressa. Nesta Prefação arguiu e censurou vários descuidos e faltas cometidas nas edições que da mesma obra se fizeram em Lisboa por mandado da Acad. Real das Ciências. Esta corporação, julgando-se agravada no modo como a tratava o autor da prefação, e queixosa dele, e de Francisco Freire de Melo, que fornecera a Freitas as forças ou elementos para as censuras, expulsou prontamente do seu grémio a Freire de Melo (Vej. no Diccionario tomo II, pág. 381) e conseguiu do governo um aviso régio, para ficar suprimida, e ser desde logo arrancada de todos os exemplares da obra ainda não extraídos a prefação qualificada de injuriosa à corporação académica. Assim se executou, e por isso a dita prefação é hoje mui rara de achar, e apenas se encontra nos pouquíssimos exemplares que já estavam vendidos antes da proibição. Parte destas notícias devo ao sr. cónego dr. F. da Fonseca, que igualmente me obsequiou com um exemplar em separado da sobredita prefação, constante de 13 pág. inumeradas em 4.°.
A dita impressão da Historia e Instituições de Direito Civil e Criminal tem também copiosas tábuas de erratas, e adições ordenadas por Freitas, as quais se acham no fim de cada livro, ocupando na sua totalidade não menos de trinta e seis páginas (!!!). Tal era a incúria que havia tido lugar nas anteriores!
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo IV, Imprensa Nacional, pp. 443-444

JOAQUIM INÁCIO DE FREITAS (v. Dicc, tomo IV, pag. 85).
Segundo comunicaram depois a Inocêncio, não restava dúvida de que Joaquim Inácio era natural de Guimarães.
Foi nomeado revisor da imprensa da universidade em 4 de Novembro de 1814, e em 1824 encarregado da direcção da mesma imprensa. A este propósito, nos interessantes folhetins Apontamentos para a historia da typographia em Coimbra, etc, do sr, Joaquim Martins de Carvalho, impressos no Conimbricense, leio no do n.° 2162 de 14 de Março de 1868, o seguinte: — “Foi um distinto filólogo, sendo muito zeloso pela publicação da legislação antiga e moderna, e escrupuloso na revisão das obras, de que proveio grande utilidade aos estudiosos, em razão de imensos erros que corrigiu e emendou. Entre ele, porém, e o administrador Joaquim Maria Coelho, houve sempre grande desinteligência... O administrador da imprensa Joaquim Maria Coelho faleceu em 2 de Junho de 1821, ficando muito alcançado para com o cofre da imprensa… Joaquim Inácio de Freitas faleceu em 1 de Fevereiro do 1831”.
Além da Prefacção, que antepôs à frente das Ordenações do reino, impressas em Coimbra, na imp. da Universidade, 1824, 3 tomos em 4.°, fez também e inseriu no fim do primeiro tomo um Relatório da nova errata feita n’esta nova edição das Ordenações e leis do reino, ocupando a do tomo I oito pág., a do tomo II seis ditas e a do tomo III oito ditas. V. o mais que se diz nos Additamentos, tomo IV deste Dicc, de pág. 443 a 444, e no fim do artigo Jorge de Cabedo, pág. 162.
A primeira edição dos Sonetos a D. Guiomar (n.° 1.602), foi efectivamente em Coimbra na Real Imp. da Universidade, 1826. 4.º de 7 pag. Acrescente-se o seguinte:
Breve resposta ao anonymo inserido no “Correio do Porto”, n.º 130. Coimbra, na Imp. da Universidade, 1826. 8.° gr. de 3 pág., tendo no fim as iniciais J. I. de F.—Refere-se à polémica travada com o dr. Francisco de Arantes, a propósito do Compêndio de chronologia mathematica, mencionada no Dicc. tomo II, pág. 347.
De Joaquim Inácio é também um in-folio de 4 pág., que, acerca da mesma questão, se imprimiu em 1826 na Imp. da Universidade, mas sem título, nem nome de autor.
A edição crítica dos Lusíadas, feita na imp. da Universidade, é de 1800, não de 1801, como saiu na linha 48 da pag. 87.
Foi em Guimarães, ao que parece averiguado, que Joaquim Inácio, andando em gozo de férias, encontrou o ms. de André Falcão de Resende. (V. este nome no Dicc, tomo II, pág. 61, e tomo VIII, pág. 62.)
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo XII, Imprensa Nacional, pp. 71-72
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