20 de março de 2013

Krampus, a sombra maléfica de S. Nicolau


[À atenção do Miguel Bastos]
O culto a S. Nicolau está profundamente enraizado na tradição europeia. Ele é o padroeiro da Rússia, da Noruega e da Grécia e o protector dos marinheiros, das prostitutas e das crianças (e, por extensão, dos meninos do coro e dos estudantes). A origem das manifestações de devoção ao Bispo de Mira, que terá falecido no dia 6 de Dezembro do ano de 342, perde-se nos confins da idade Média, espalhou-se pelo mundo e deu forma a uma enorme diversidade de manifestações. S. Nicolau é uma entidade do Bem. No entanto, tem uma sombra maléfica: Krampus. 
Krampus é um mafarrico em figura: normalmente é representado com pele, pés e  cornos de bode, com uma língua muito comprida.
Krampus (nome que deriva do alemão antigo Krampen, com o significado de garra) é um ser fantástico que está presente na tradições do Natal e do período que o antecede nos Alpes e em países como a Áustria, a Alemanha, a Alsácia, a Suíça ou a Eslovénia. Sai à rua pela primeira vez no dia 5 de Dezembro, tal como S. Nicolau. Ambos representam papéis diferentes. Se Nicolau distribui presentes pelas crianças bem comportadas, Krampus invade as casas onde moram as crianças que se portaram mal, foram desobedientes ou mentirosas. Pode levar um saco, como S. Nicolau, mas nele não carrega presentes: servirá para meter nele e levar consigo as crianças ruins. É, no fundo, uma versão mais aprimorada do nosso homem do saco.
Krampus é a versão cristianizada de um demónio perverso que trilha os mesmos caminhos do bondoso S. Nicolau, que tem a função de lembrar às crianças que só serão recompensadas se praticarem o bem. Caso contrário, serão castigadas por um demónio aterrador.



Krampus representa o instável equilíbrio entre forças contrárias, representações da eterna dualidade maniqueísta que ao bem opõe o mal. Entre nós, ninguém o conhece, mas ainda hoje, em muitas terras dos Alpes os jovens, mascarados de Krampus, andam à volta de S. Nicolau durante as duas primeiras semanas de Dezembro, numa procissão com contornos carnavalescos, com muitas tropelias e grande algazarra. Estas tradições, aparentemente tão diferentes das nossas Nicolinas, têm vários pontos de contacto com as festas dos estudantes vimaranenses: são folias de rapazes e de mascarados, cujos momentos mais importantes acontecem a 5 e 6 de Dezembro.


As Danças de S. Nicolau têm o Afonso de língua farpada,  a D. Muma com as suas proeminentes prateleiras, o camareiro abichanado, o truão atoleimado. Têm, até, o santo bispo mais as suas intermináveis  benzeduras. Para completar o quadro vicentino, talvez lhes falte uma emanação das trevas para fazer ressaltar ainda mais o fulgor de tanta santidade. Se calhar, não faria ali má figura uma sombra para S. Nicolau.
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