30 de março de 2013

Escritores vimaranenses (53): José de Sousa Bandeira


JOSÉ DE SOUSA BANDEIRA, natural de Lisboa e nascido em 1789. Era Escrivão do judicial na comarca de Guimarães, quando em 1828 foi preso por motivos políticos, e processado pela Alçada do Porto, que o condenou a degredo perpétuo para o presídio de Pungo-Andongo em África. Transferido da cadeia do Porto para a de Lisboa, e remetido depois para a torre de S. Julião da Barra, aí jazeu desde 11 de Agosto de 1830, até obter a liberdade com todos os seus companheiros de infortúnio em 24 de Julho de 1833.
É desde alguns anos o decano dos jornalistas portugueses, por ser ele o que em 1826 começou a redigir em Guimarães o periódico Azemel. Foi em 1835 redactor do Artilheiro, passando depois a colaborador do Periódico dos Pobres do Porto, no qual escrevia as Cartas de Braz Tisana, que serviam de folhetins. Adoptou enfim este título para o novo jornal, que, desligando-se da empresa dos Pobres, começou a publicar por si em 1851, e que ainda agora dura contando já nove volumes.
O redactor e proprietário fez desta folha um periódico de índole peculiar, espécie de Pasquino ambulante, ou verdadeiro campo neutro, aberto, como ele diz, ao ataque e à defesa. As suas colunas aparecem diariamente preenchidas com as correspondências de toda a casta, e sobre todo o assunto, enviadas de diversos pontos do reino, principalmente de Lisboa. O carácter, estilo e fim de tais correspondências variam entre si tanto como diferem os dos indivíduos que as fornecem. A maior parte das pseudónimas não passa, pelo comum, de ser o veículo de nojentas intrigas particulares, e de vinganças é ódios pessoais, apenas disfarçados sob capa do zelo do bem público. A decência, e a própria verdade, nem sempre são respeitadas pelos escrevinhadores, que julgando-se acobertados da máscara mais ou menos diáfana com que presumem disfarçar-se, vibram contra os adversários o punhal do doesto e da calúnia, sacrificando quase sempre ao próprio interesse o crédito e reputação alheia. Daí a divulgação de defeitos pessoais, falsos ou verdadeiros, a invenção ou curso dado a mentiras e embustes, que às vezes se vêem forçados a confessar tais, quando se trata de invocar contra eles a severidade da lei (Vej. ainda há pouco o n.º 262 de 13 de Novembro corrente, na pág. 2.ª, col. 3.ª); e sobretudo o detestável gosto de enxovalharem com dictérios e ápodos ridículos aqueles que reconhecem por incapazes de tirar desforra por meios tão indecentes. Se a maledicência folga e ri com tudo isso, geme a moralidade pública, afrouxam-se os laços sociais, e caminha-se para um estado de desânimo e de descrença, cujo termo não é dado prever.
Dos actuais correspondentes do Braz Tisana distinguem-se por mais assíduos o denominado Lusitano, que a voz pública revelou ser o sr. Joaquim Lopes Carreira de Melo, director do colégio de N. S. da Conceição, já mencionado por vezes neste Diccionario; o qual também assina algumas com a sigla **; — e outro que se intitula Ribeirinho, e é, segundo se diz, um sujeito mais geralmente conhecido em toda a parte pela festival e significativa antonomásia de Poeta, granjeada no verdor da idade, e que ainda conserva em anos já maduros. Dele não tratei no lugar próprio, em razão de carecer de alguns esclarecimentos: porém espero ressarcir amplamente essa falta, como tantas outras, no Suplemento final.
Voltando ao redactor do Braz Tisana, e a escritos por ele publicados em Separado, apenas hei notícia dos seguintes:
O sino das duas horas: comedia original em cinco actos, pelo Barbeiro dos Pobres. E um appenso da tia Michaela. Porto, Imp. de Alvares Ribeiro 1840. 8.º gr. de 148 pág.
A apotheose dos martyres da pátria: elogio dramático para se representar no real theatro de S. João em 8 de Abril de 1837. Porto, Imp. de Gandra & Filhos 1837. 8.° de 15 pág. —São interlocutores a Justiça, a Lealdade, o Patriotismo, o Génio Portuense, a Religião e o Despotismo; com um coro de Fúrias.
Alguns que se presumem bem informados, pretendem atribuir-lhe a seguinte composição anónima:
A Revolução: poema heroi-comico em seis cantos e oitava rima. Paris, chez N. B. Duchesne, libraire, rua S. Jacques 1850. 8.° gr. de 144 pág.— As indicações são supositícias, pois se conhece evidentemente haver sido impresso no Porto. — O prólogo, ou exposição da obra consta apenas das seguintes linhas: “A revolução acontecida no Porto em 1846 é um facto histórico público e bem sabido; o que dispensa aqui circunstanciá-lo. Versa neste facto a acção do poema, adornado poeticamente.”
Parece também ser dele uma tragédia em cinco actos, e em verso, que se representou no Porto em 1839, da qual se trcta nas Memórias do Conservatório, tomo II, a pág. 402.
Como o presente artigo vai talvez deficiente, deixarei também para o já aludido Supplemento o mais que porventura teria aqui lugar.
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo V, Imprensa Nacional, pp. 140-141
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