30 de março de 2013

Sousa Bandeira e a moda do "Te Deum"

José de Sousa Bandeira

Te Deum Laudamos (A Vós, ó Deus, louvamos) é um hino litúrgico católico geralmente atribuído a Santo Agostinho e a Santo Ambrósio, de que se conhecem inúmeras versões cantadas, que costumava ser cantado em momentos de congratulação. Os acontecimentos políticos, muitas vezes antagónicos, eram motivo frequente para que houvesse Te Deum cantado nas igrejas, com solenidade e pompa. O confronto político entre liberais e absolutistas, entre 1820 e 1834, fez com que este tipo de celebração litúrgica se banalizasse. Por tudo e por nada se cantava o Te Deum, hino que, naqueles tempos, muitas vezes se entoou na igreja da Colegiada, ora a celebrar vitórias dos liberais, ora em congratulação pelos avanços dos miguelistas. O hino era o mesmo, os cantores eram quase sempre os mesmos, mas o louvor a Deus erguia-se por motivos sucessivamente contraditórios.
Observador atento da realidade do seu tempo, José de Sousa Bandeira usou a sua pena sarcástica para satirizar a moda do Te Deum Laudamos, num soneto que publicou no jornal Artilheiro:

Se governa o Junot, na Sé se entoa
Te Deum aparatoso, e reluzente:
E se triunfa o príncipe regente
Político Te Deum na Sé lá soa.

Tem o lord Te Deum, se despovoa,
Se atrasa, assola o Portugal gemente;
E se o Douro dá leis à Lusa gente,
Apressado Te Deum na Sé ecoa.

Temos Te Deum se a liberdade assoma;
E se morre, há Te Deum; se surge a triste
De devotos Te Deum que imensa soma!

Té se há sangue, há Te Deum! Porém tu riste,
Não vês que da cristã moderna Roma
A santidade nos Te Deums consiste!

                                                Artilheiro, n.º 110. de 21 de Maio de 1836
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