29 de março de 2013

Escritores vimaranenses (52): José de S. Bernardino Botelho


JOSÉ DE S. BERNARDINO BOTELHO, natural de Lisboa, nasceu a 20 de Maio de 1742, sendo filho de José Bernardo Pessoa, cavaleiro da Ordem de S. Tiago, capitão-mor e governador que fora da fortaleza de Santo António de Gorupá, na capitania do Pará, e de sua mulher D. Clara Josefa Seabra do Amaral. Concluídos os seus primeiros estudos, entrou na congregação dos Cónegos seculares de S. João Evangelista, mais conhecidos pelo nome de Lóios; ignora-se porém o ano em que professou, bem como quando saiu dela. Exerceu durante trinta e cinco anos o ministério paroquial, primeiro como Reitor da igreja de S. Romão de Vilarinho e Celeiros; depois como Prior em Santa Maria da vila de Torres Novas; e a final como Abade de S. João de Gondar, de onde passou em 1802 ou 1803 para Cónego da Basílica patriarcal de Santa Maria-Maior de Lisboa. Neste exercício faleceu aos 23 de Novembro de 1827, na provecta idade de 85 anos. Teve uma filha natural, por nome D. Cândida Filoteia Botelho, a qual reconheceu, e no ano de 1816 a deu em casamento a António Pinto da Fonseca Neves, então tenente de artilharia, do qual já se fez menção no tomo I deste Diccionario.— Conta-se, que no ano de 1798 tirando-se-lhe o retrato, para ser gravado como foi na oficina do Arco do Cego, pedira que lhe exarassem por baixo do nome a inscrição seguinte: Filósofo, Teólogo, Orador e Poeta.— E.
OBRAS EM VERSO.
Ecloga pastoril de Frondoso e Albina, dedicada a todos os curiosos de ambos os sexos. Lisboa, na Offic. de Caetano Ferreira da Costa 1771. 4.° de 16 pág.— Consta de 46 oitavas.
Sobre a fundação da nova Universidade de Coimbra, feita por ordem de Sua Magestade Fidelissima. Lisboa, na Regia Offic. Typ. 1772. 4.º de 7 pág. — É uma ode.
Epistola ao sereníssimo sr. D. José, príncipe do Brasil, no dia 21 de Agosto de 1778. Lisboa, na Regia Offic Typ. 1788. 8.° de 10 pág.
Ode ao felis governo de.S. A. B. o Príncipe Regente nosso senhor. Lisboa, na Offic da Casa Litteraria do Arco do Cego 1800. 4.° de 7 pág.
Por occasião do felicíssimo nascimento do sereníssimo sr. infante D. Miguel. Ode offerecida ao Príncipe Regente nosso senhor. Lisboa, na Regia Offic. Typ. 1802. 4.º de 8 pag.

Sonho poético, consagrado aos faustos desposorios do ill.mo e ex.mo sr. D. Luis Machado de Mendonça, etc. Lisboa, na Regia Offic Typ. 1802. 4.° de 8 pág. — Tem no fim as iniciais J. d. S. B. B- C. d. B. e Ab. Res. d. S. J. R. d. G. que se interpretam: José de S. Bernardino Botelho, Cónego da Basílica, e Abade reservatário de S. João Baptista de Gondar.
O Templo da Gloria: Composição dramática para o dia natalicio de S. A. R. Augusto Frederico, príncipe da Gran-Bretanha. Lisboa, na Regia Offic. Typ. 1802. 8.° de 16 pág.
Ode consagrada a S. A. B. o sr. Augusto Frederico, príncipe dos reinos unidos da Gran-Bretanha e Irlanda. Lisboa, na Regia Offic. Typ. 1803. 4.º de 6 pag.
Hymno á Saúde: No dia natalicio do mesmo senhor. Lisboa, 1804. 8.° de 6 pág.— No fim tem as iniciais J. d. S. B. B. C. d. B. P. S. M. Ab. res. de G....
Aos Elysios: Epistola ao ill.mo e ex.mo sr. João de Saldanha de Oliveira e Sousa, primeiro conde de Rio-maior, etc. Lisboa, na Imp. Regia 1805. 8.° de 8 pág.
O Templo de Hymeneu: Composição dramática, para se cantar nos desposorios da ex.ma sr.a D. Maria Ignacia de Saldanha Oliveira, e Daun com o ill.mo e ex.mo sr. D. Luis da Costa de Sousa de Macedo, etc. Lisboa, na Imp. Regia 1807. 8.° de 13 pág.
Profecia política realisada no ex.mo Arthur Lord Wellington, visconde de Talavera, etc, etc. Lisboa, na Imp. Régia 1811. 4.° de 7 pág. — Consta de um soneto, e uma ode.
Discurso em verso sobre o abuso das paixões, dedicado á ex.ma sr.a D. Maria Isabel Corrêa de Sá, feito no anno de 1795 por ***: Seguida de outro discurso em prosa, com o título de Cathecismo da Amisade, feito no mesmo anno. Mandados agora imprimir por um amigo do auctor, com uma breve carta do editor ao auctor de um famoso poema, que gira manuscripto, intitulado «A Sandice, ou os Burros.» Lisboa, na Imp. Regia 1815. 8.» de 20 pág.— A carta final versa sobre uma alusão injuriosa, que José Agostinho fizera ao cónego no canto VI do poema Os Burros, dizendo dele:
“Arvoradas nas mãos traz odes duas,
“Uma ao príncipe Augusto, outra aos Franceses,
“Que a jóia donde venta molha a vela.
Consta que além destas, compusera muitas outras poesias em .diversos géneros, bem como alguns dramas, que nunca lograram o benefício da impressão. Neste caso está também a seguinte obra, que se lhe atribui e que se realmente lhe pertence, é talvez a mais importante das suas produções:
Fariade: Poema épico em seis cantos. Manuscrito.
É assunto deste poema a reforma da Universidade de Coimbra, feita por Baltasar de Faria no reinado de el-rei D. João III. O autor que se afirma ser o cónego José de S. Bernardino, posto que tal não conste do transunto que tive presente, dedicou-o ao Marquês de Pombal, quinto neto materno do herói do mesmo poema. Parece haver sido escrito no tempo em que o Marquês preparava a nova reforma da Universidade.
O exemplar que vi, escrito com muito asseio, e ricamente encadernado, indicava ser o próprio que fôra apresentado ao marquês; não posso contudo assegurar que seja autógrafo; e tenho até por mais provável o contrário. Pelo menos é facto haver nele letras de diversas mãos. Seu dono, o falecido F. de P. Ferreira da Costa, me disse, que o comprara em 1836 na feira do campo de Santa Ana. — O comendador Francisco José Maria de Brito teve também noutro tempo um exemplar, ou transunto, que vem descrito no Catálogo da sua livraria, com a nota de avariado.
O exemplar de F. de Paula é no formato de 4.°, contendo 136 folhas numeradas só na frente, das quais 90 preenchidas pelo poema, e o resto por notas, e índice dos nomes próprios, com varias explicações.
A Fariade é escrita no gosto da escola francesa, em versos hendecassílabos, ora soltos, ora rimados, à semelhança do que também usou Francisco de Pina de Melo. O maravilhoso é um agregado, ou mistura de cristianismo, com algumas personagens alegóricas, tais como a Discordia, a Perfídia, a Superstição, etc. Posto que não possa dizer-se obra de primeira ordem, não parece contudo destituído de mérito, e José Maria da Costa e Silva, tendo-o examinado, julgou-o assaz favoravelmente.
ESCRITOS EM PROSA.
Oração fúnebre do muito alto, poderoso, fidelissimo rei e senhor nosso D. José 1: pronunciada nas exéquias que se celebraram na real collegiada de N. S. da Oliveira de Guimarães. Lisboa, na Regia Offic. Typ. 1787. 8.º de VI-55 pág.
Oração fúnebre do sereníssimo sr. D. José, príncipe do Brasil, pronunciada nas exéquias solemnes que fez celebrar o Senado da Câmara da.villa de Torres-novas. Lisboa, na Regia Offic. Typ. 1788. 8.°
Meditações sobre a paixão de Jesu Christo, e Santíssimo Sacramento da Eucharistia, divididas em semanas, etc. Lisboa, na Regia Offic. Typ. 1790. 8.° de XII-143 pág.
Oração fúnebre, pronunciada nas exéquias solemnes da ill.ma e ex.ma sra-* D. Maria Amalia: de Carvalho e Daun, primeira condessa de Rio-maior, na igreja de S. Pedro de Alcântara. Lisboa, na Imp. Regia 1812. 4.° de 19 pág.
Salvação de todos os innocentes pela redempção de Jesu Christo. Lisboa, na Offic. da Viuva de Lino da Silva Godinho 1822. 8.° de 169 pág.
Tanto este livro, como a refutação ou impugnação que contra ele publicara anónima o P. Lucas Tavares (vej. O artigo competente), foram ambos proibidos depois sob pena de excomunhão pelo cardeal patriarca D. Carlos da Cunha, em uma pastoral datada de 28 de Janeiro de 1824, a qual corre impressa, e foi também inserta por aquele tempo na Gazeta de Lisboa. Dá como causas da condenação, quanto ao primeiro: “porque nele se inventa um novo modo de apagar o pecado original e suas consequências nos meninos e adultos que morrem sem baptismo, modo que a igreja nunca reconheceu, nunca aprovou, e nunca definiu; e com a maior temeridade, e com indesculpável incoerência se conta a mesma opinião que se inculca entre os erros de Pelágio, que a igreja tão altamente tem condenado.” E quanto ao segundo, “porque empenhando-se em rebater aquela extravagante doutrina, declina para um lado bem perigoso, e bem fácil de levar a maior parte dos homens à desesperação, quando com um tom magistral, e com arrogância imperdoável profere proposições qua assombram, e que escandalizam, e que estão condenadas.”
O século do sr. rei D. José I. Lisboa, 1822.— É de todas as obras aqui descritas a única que ainda não vi.
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo IV, Imprensa Nacional, pp. 273-275

JOSÉ DE S. BERNARDINO BOTELHO (v. Dicc. tomo IV, pág. 273). Foi processado pela inquisição de Coimbra em 1792 por maçon. Fez primeiro a apresentação por escrito e depois pessoalmente na mesa. V. Conimbricense, n.º 2.751, de 6 de Dezembro de 1873.
Na Epístola, onde está a data de 1778, leia-se: 1788. A obra descrita sob o n.° 2872 é em verso, e não em prosa. Intitula-se: O século do sr. rei D. José I epístola ao povo portuguez na collocação da estatua equestre, anno de 1775. Lisboa, na imp. Nacional, 1821. 8.º de 14 pág. Acresce:
Ode consagrada e offerecida a sua alteza real o príncipe regente nosso senhor no seu faustíssimo dia natalicio. Lisboa, na regia OIT. typ.. 1813.8.º gr. de 6 pág.
A salvação dos innocentes. — Foi proibida em Roma por decreto dá congregação do índex de 6 de Setembro de 1824.
Em 1793, sendo abade de S. João Baptista de Gondar, foi presidente em Guimarães de uma academia, que ali reuniu, e da qual existia um volume que possuía Inocêncio, e que o ilustre bibliógrafo, segundo uma nota de seu punho, julgava pela encadernação, armas reais na pasta e mais circunstâncias, ser o próprio que se oferecera ao príncipe D. João. O título é: Sessão académica, que em applauso do faustissimo nascimento da augustissima princeza da Beira celebrou na villa de Guimarães, por convite do ex.mo dom prior e cabido da insigne collegiada de Nossa Senhora da Oliveira da mesma villa no dia 20 de maio de 1793. 4.° de 110 folhas numeradas pela frente.
“Nesta colecção, acrescenta a nota de Inocêncio, vem de José de S. Berrnardino uma oração panegírica em prosa e algumas poesias; compreendendo, além disso, prosas e versos de diversos autores, a saber: António Fernandes Pereira Pinto de Araújo e Azevedo, Francisco Joaquim Moreira de Sá, Joaquim José Moreira de Sá. D. Maria Izabel Correia de Lencastre, João de Faria Machado de Miranda, José de Magalhães Menezes Malheiro, e Gaspar do Couto Ribeiro de Abreu. —
Com relação ao poema Fariade, posso deixar aqui as seguintes amostras do princípio:
Não canto aqueles homens orgulhosos,
Da humanidade algozes horrorosos,
E da espécie infeliz destruidores,
Que fundando em ruinas vãos louvores
Das alheias desgraças fabricaram
As fortunas, a glória que compraram;
Ou com sangue de extintos inimigos,
Ou dos concidadãos, ou dos amigos:
Atropelando as rodas vencedoras
Das soberbas carroças lamentáveis
Derrotados vencidos miseráveis;
Que as delícias, brutais, ímpias, sentiram
De festejar os bárbaros triunfos
Com a música horrenda das trombetas
Marciais com bramidos misturada
Dos truncados mortais, que agonizavam,
Que o pó mordendo as almas enviavam
Ao Tártaro bradar desesperadas
Vingança pelas hórridas moradas.
Minha Musa pacífica abomina
O génio fero, atroz, que Homero ensina
A fazer em seus versos gloriosa
A cólera de Aquiles perniciosa:
Ama os justos heróis à sua pátria
Leais, fiéis ao rei, que nascer fazem
Virtudes sociais, da paz no seio:
E eleva-me a cantar o incorruptível
Baltasar de Faria, que invencível
Combate o erro, a vil superstição
Que juravam mina e corrupção
Das Letras; quebra os laços, e decifra
Os pérfidos enigmas ardilosos
Dos novos Esfinges; firmes sustentando
Na famosa Coimbra da ciência
O império, em cuja base estão fundados
O lastro, e o bom governo dos Estados
Carvalho, ouvi meus versos; e entretanto
Que a vossa mão robusta, e criadora
Triunfante da Intriga abrasa, e corta
As últimas cabeças da hidra impura,
Que infestava há dois séculos o mundo,
E fundais o padrão desta vitória
Levantando a ciência submergida,
Dando às Letras extintas nova vida,
Protegei um poema, consagrado
De vosso quinto avô ao nome honrado:
Desta sorte animai vigílias novas,
Por vós, e aos vossos olhos educados,
Que algum dia cantando felizmente
Vossas dignas acções, vossa memória,
Darão lustre dobrado à vossa glória.

Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo XIII, Imprensa Nacional, pp. 196-197
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