5 de março de 2013

Escritores vimaranenses (28): Padre Francisco Vaz


P. FRANCISCO VAZ, Presbítero secular, natural da vila, hoje cidade de Guimarães. As datas do seu nascimento e óbito, com o mais que lhe diz respeito, são circunstâncias hoje desconhecidas, e que escaparam ás indagações de Barbosa.— E.
Obra novamente feita, da muito dolorosa morte e paixão de N. S. Jesus Christo, conforme a escreveram os quatro Evangelistas, feita por um devoto padre, chamado Francisco Vaz de Guimarães. Lisboa, I659. 4.°, tendo no frontispício a imagem de Cristo crucificado, e o texto intercalado com pequenas gravuras em madeira, que representam vários passos da paixão do Salvador.— Parece que esta é a primeira edição deste curioso e extraordinário apto, a darmos credito ao que diz J. Adamson, na sua Bibl. Lusitana, onde declara possuir dela um exemplar.
Sucessivamente foi reimpresso este auto em várias edições, das quais apontarei as seguintes, por achá-las mencionadas em Barbosa: Évora, por Manuel de Lyra 1593. 4.° — Ibi, por Francisco Simões 16... 4.°—Braga, por Fructuoso (Lourenço?) de Basto 1613. 4.°—Lisboa, por António Alvares 1617 e 1639. 4.° — Ibi, por Domingos Carneiro 1659. 4.°—Após estas se publicaram (que me conste) as três seguintes, das quais todas conservo exemplares: Lisboa, pelos herdeiros de António Pedroso Galrão 1739. 4.°—Ibi, por Francisco Borges de Sousa 1783. 4.°—Porto, por António Álvares Ribeiro 1785. 4.º Cada uma destas edições consta de 40 páginas, e todas trazem intercaladas no texto as vinhetas do costume, sendo porém as gravuras inteiramente diversas entre si, como feitas de propósito para cada uma das edições.
O texto é composto em verso de várias medidas. As três edições que conheço deste opúsculo andam inquinadas de erros, que muitas vezes transtornam o sentido, e mostram a incúria e ignorância dos que as dirigiram. Cumpre notar além disso que, segundo os testemunhos escritos de alguns bibliógrafos acreditados, a Inquisição fez expurgar a edição de 1613, mutilando e transtornando vários lugares do mesmo texto, os quais daí em diante continuaram a ser impressos com essas alterações, por modo que diferem muito das três primeiras edições; por conseguinte, para restabelecer a integridade do texto, e fazer as correcções necessárias, será preciso ter presentes exemplares dessas edições primitivas, as quais até agora não pude ver, nem sei onde existam.
Até aqui chegara eu com as minhas observações, quando ultimamente me apareceu uma espécie nova, que cumpre não deixar em silêncio. O nosso insigne filólogo, o sr. dr. Rivara, na introdução que pôs à frente da reimpressão por ele feita da gramática da língua Concani do jesuíta Tomás Estêvão (vej. o artigo competente) fala a pág. CCVIII de uma versão feita naquela língua do opúsculo de que aqui se trata, a qual, por alheio testemunho, diz ter sido impressa em Lisboa, por Domingos Carneiro no ano de 1659. Confessa que esta obra (a tradução em concani) é para ele um enigma bibliográfico; e que do original português não tem mais conhecimento que o obtido na Bibl. de Barbosa, e no Catálogo da Academia. Por isto bem claramente demonstra, que nem ao menos teve notícia das três edições de 1739, 1783, e 1785, de que (como acima digo) possuo exemplares havendo além destas outras, de datas posteriores, e feitas já no presente século.
Que a obra foi originalmente escrita e impressa em português, é ponto fora de dúvida: que algum missionário da índia, ou pessoa versada no conhecimento da língua concani fizesse a tradução para uso e aproveitamento dos cristãos daquelas partes, parece-me suposição bem fundada, e a que pode dar-se inteiro crédito. Mas que essa versão se imprimisse em Lisboa no ano indicado, é para mim duvidoso, e o será até aparecer exemplar que o comprove. Não vejo inconveniente em que o tradutor, quem quer que ele fosse, servindo-se para a sua versão de um exemplar da edição portuguesa de 1659, copiasse para o rosto da sua Declaração o titulo daquela ipsis verbis, com a indicação do ano, lugar, etc. em que fora estampada, e que a cópia assim permanecesse, ou ainda outras, que dela se tirassem pelo tempo adiante; e afinal, que de alguma dessas cópias viesse a servir-se quem reimprimiu a obra em Bombaim, em 1845, como se lê a pág. CCX da Introdução do sr. Rivara.
O que porém resta ainda a advertir, é que a tal versão, ou Declaração como ela se intitula, não foi feita simplesmente sobre o escrito do P. Francisco Vaz, tal como este se imprimiu em português; mas sim se reuniu à desta a tradução de outras obras de diverso, posto que análogo assunto. Assim, dos extractos citados, e da Tábua dos capítulos reproduzida pelo sr. Rivara, vê-se evidentemente que a versão concani começa na conceição da santíssima Virgem, e prossegue com a vida d'esta, e com o nascimento e infância de Cristo, até chegar ao capitulo XIII, que se intitula “De como N. S. Jesus Christo seis dias antes de sua morte veio para morrer pelos peccadores na cidade de Jerusalém, e o que mais aconteceu.” Aqui é que começa o original português impresso, e neste não há coisa alguma que corresponda ao que o antecede na versão.
Ainda mais: o original fenece com a deposição de Cristo no sepulcro, e o pranto de sua santíssima mãe; correspondendo ao cap. XXIV da tradução. Esta à sua parte continua com mais doze capítulos, também novos, compreendendo a ressurreição, e o mais que anteveio à morte e gloriosa assunção da Virgem.
Deste modo vê-se que a tradução é talvez triplicada, e então bem merece as honras de original, ou pouco menos.
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo III, Imprensa Nacional, pp. 75-77. 
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