5 de março de 2013

Martins Sarmento, empreiteiro?

O Claustro de S. Domingos (Museu da Sociedade Martins Sarmento), numa fotografia do início do século XX.
O piso superior foi mandado erguer por Martins Sarmento.


No número especial que o jornal O Progresso  dedicou a Francisco Martins Sarmento e que se publicou no dia em que o arqueólogo completou 65 anos, o seu amigo José Sampaio escreve um texto em que conta a história das obras de adaptação das ruínas do velho claustro do antigo convento de S. Domingos, tendo em vista a instalação do Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento no local onde ainda hoje se encontra. Aqui fica.


Ia a apostar em como ninguém dirá que o snr. Sarmento é também um empreiteiro de construções.

Pois é-o, e tão distinto que nenhum outro jamais o igualou.

E aí vai a prova.

Por concessão do governo, veio a poder da Sociedade Martins Sarmento o velho e arruinado mosteiro de S. Domingos.

Do seu claustro existia apenas a arcaria; tudo mais tinha desaparecido. E a arcaria, uma jóia preciosa de arquitectura gótica, desprendida da parte principal do edifício, principiava a inclinar-se para a terra na melancolia de uma verdadeira ruína.

Condoeu-se dela o snr. Sarmento com o seu amor pelos monumentos da antiguidade, e na sua fantasia brilhou a ideia de que, amparada, podia ser formoso sustentáculo para as galerias dum museu arqueológico.
Planeou a obra, chamou em auxílio o major Inácio de Meneses, um amigo seu muito predilecto e engenheiro de largos conhecimentos artísticos, que logo debuxou o alçado e levantou as plantas.

E depois... Depois, a Sociedade estava sem vintém. Tinha esgotado todos os recursos em recompor o resto do edifício para instalar a biblioteca…

O snr. Sarmento resolveu a dificuldade. Tomou, por escritura pública, a empreitada da obra, com a cláusula de receber o custo em prestações anuais.

Realizado o contrato, pôs tudo em movimento. Apruma-se a arcaria, levantam-se as paredes laterais com finos lavores nas portas e janelas, vai-se enfim convertendo o projecto em realidade.

Neste em meio chega o vencimento da primeira prestação da empreitada. Os directores da Sociedade, honrando o seu compromisso, querem pagar, mas o empreiteiro recusa-se a receber! Não recebe - que isso se aplique às estantes do museu.

Vencida a segunda, vencidas as outras prestações, concluída o obra, passa quitação e não recebe!

E digam-me se haverá outro empreiteiro que o iguale?

José da Cunha Sampaio.
O Progresso, n.º especial,  Guimarães, 9 de Março de 1898
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