21 de março de 2013

Deleite de leite



Quando eu era pequeno, a minha avó não se cansava de me chamar lambareiro, nem de alimentar a minha lambarice com artes de doceira de mão cheia. Foi-se a infância, foi-se a avó, e há cheiros e sabores que se foram com uma e com outra e de que apenas permanecem vagas reminiscências na memória. Vai daí, sou daqueles que desde cedo tomaram o gosto por essa arte quase alquímica de combinar na justa medida os ovos, o açúcar, a farinha e o mais que se lhes acrescenta, na tentativa recuperar os sabores de manjares que nunca esqueci ou que nunca provei.

Na monda dos papéis velhos em que ando tantas vezes imerso, de vez em quando deparo-me com velhas receitas, que não demoro muito a experimentar. Aconteceu-me ontem: ao percorrer o espólio da biblioteca de um velho amigo recentemente falecido, encontrei umas folhas manuscritas, seguramente do século XIX. Passando os olhos, deparei-me com umas dezenas de receitas. Hoje, experimentei a primeira, que ensina uma versão que eu não conhecia do nosso leite-creme, ali simplesmente chamado, como se chamava no tempo em que a minha avó me chamava lambareiro, creme.

Eis a transcrição da receita do “creme simples ou de leite”:

Tomem 2 punhados de farinha triga e desfaçam-se em pequena quantidade de leite, ajuntando-se 20 gemas de ovos batidos, e mistura-se tudo em 500 gramas de açúcar, juntem-se mais 2 litros de leite temperado com sal, canela inteira, casca de limão e 250 gramas de manteiga clarificada, põe-se tudo a cozer em banho de água, até estar ligado e cozido, tendo o cuidado de que não se agarre à forma, que deve ser previamente untada com manteiga.

Pode fazer-se-lhe côdea com ferro quente.

O resultado foi o que se vê na fotografia que vai aí acima. Na aparência, é um leite-creme igual a tantos outros. Porém, acreditem-me, a semelhança fica só pelo que os olhos vêem. Falta-me o talento dos provadores de vinho para descrever o sabor deste simples creme. Portanto, limito-me a repetir o julgamento do júri que hoje o apreciou à minha mesa: o melhor. Só isso.

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