5 de fevereiro de 2013

1905: A questão do emblema da Associação Artística (4)


Recorte do jornal Justiça de Guimarães onde se publica  uma carta do arquitecto Nicola Bigaglia


Na sua edição de 16 de Abril de 1905, o jornal Justiça de Guimarães retoma a questão da destruição do emblema da Associação de Socorros Mútuos Artística Vimaranense, que encimava a porta da sua sede, na rua de Gil Vicente. No artigo que dedica ao assunto, identifica o autor da façanha (o 1.º secretário da direcção) e traz a lume uma carta do arquitecto que desenhou o edifício, o italiano Nicola Bigaglia, que desmente o carácter maçónico do emblema, uma vez que, quando o concebeu, apenas pretendeu “simbolizar as artes”.

Associação Artística – A sua Direcção com… agonia – A atitude dos sócios – Uma carta do arquitecto

Quando no último número deste semanário relatámos aos nossos leitores e aos sócios desta a
Associação, o facto de que tratámos apontámos como responsável toda a preclaríssima Direcção, porque era voz corrente que era esta que tinha ordenado a demolição de um emblema que simbolizava o trabalho, alegando como desculpa que o mesmo emblema simbolizava a maçonaria! Tal desculpa e tal proeza é própria só de espíritos tacanhos e inteligências medíocres, mas adiante.

Hoje, porém, mais bem informados, temos a dizer que o autor da burricada foi um conhecido catoliqueiro redondo circulório, que na Associação exerce o cargo de 1.º secretário da direcção, o qual, depois de ter ordenado a demolição do emblema e já depois de praticado o vandalismo é que dele deu conhecimento aos restantes membros da direcção.

Estes, ouviram e calaram-se e, como diz o ditado: “quem cala consente”, consentiram e, por este motivo, nós continuaremos a acusar toda a direcção como responsável por este delito, e mesmo porque, segundo rezam os estatutos da mesma Associação, que dizem no Cap.º 7.º art.º 28… respondem porém pessoal e solidariamente para com terceiros[1] pela inexecução do seu mandato e pela violação dos estatutos…”

Que os estatutos foram violados pela actual direcção, já o demonstrámos no último número e que a mesma direcção não executa como deve o mandato que lhe foi confiado, demonstra-o ela própria praticando uma irregularidade como a que acaba de praticar, e que completamente a exautora.

Aos sócios, que já começam a protestar contra o absurdo, compete tomar-lhe contas de tudo quanto temos dito e que ainda havemos de dizer, a não ser que alguns dos membros queira dar cumprimento ao disposto no ¶ único do citado artigo 28.º, que diz: “Desta responsabilidade são isentos os membros da direcção que não tiverem tomado parte [2] na respectiva resolução, se a reprovarem por declaração na acta, ou por qualquer outro modo autêntico, logo que dela tenham conhecimento.

Só os que tiverem votado expressamente contra ela, e os que tiverem protestado por qualquer modo autêntico contra as deliberações da maioria, antes de lhes ser exigida a competente responsabilidade.”

Alguns sócios já requereram a convocação de uma assembleia geral, na qual não vão pedir, mas exigir contas à direcção deste verdadeiro escândalo, filho da monomania catoliqueira, de um mandão beático que, sem conhecimento do que praticava, se lembrou ao menos de consultar antecipadamente os seus colegas de direcção.

Para melhor fundamentarem a sua justa exigência, os sócios que pretendem praticar tão louvável intento (que é quase a totalidade) acabam de escrever ao exmo. Snr. Nicola Bigaglia, arquitecto em Lisboa e autor do projecto do edifício deturpado, relatando-lhe o sucedido e pedindo-lhe a sua opinião a tal respeito.

A resposta, que foi breve, é a que se segue:

Nicola Bigaglia
ARQUITECTO

Lisboa, 8 de Abril de 1905.

Exmo. Snr. Francisco Pereira.
GUIMARÃES

Apresso-me responder à sua amável carta hoje recebida.

Quando muito gostosamente elaborei o projecto para a prestimosa Associação Artística Vimaranense, quis com o emblema a que V. Exa. se refere, simbolizar as artes.

O compasso e o esquadro são os instrumentos indispensáveis à mais humilde e à mais excelsa arte. Há quem veja no esquadro e no compasso o diabo: creia que se eu tivesse imaginado que este caso se desse também na sua bela cidade, teria poupado a mim o desgosto de ver mutilado o meu projecto e a quem tirou o emblema o incómodo pela massada inútil.

Com a mais subida consideração sou de V. Exas.

Muito atento e Venerador
Segue-se a assinatura do arquitecto.

Artes. Exma. Direcção, artes e não maçonaria, como pretendem falsamente propalar, que era que simbolizava o emblema.

O próprio autor do projecto lamenta a mutilação do mesmo, pela brutalidade que cometeram.
E a quem tirou o emblema o incómodo pela massada inútil.

Compreende, Exma. direcção?

Se não compreende, para a semana lho diremos.

Até à semana, pois.
Justiça de Guimarães, 16 de Abril de 1905, p. 3.



[1] Neste caso, são todos os sócios.

[2] Se não tomaram parte em outra, tomaram-na depois, Exmos. directores.


Ao contrário do prometido, na semana seguinte o jornal Justiça de Guimarães nada disse sobre este assunto. E nada voltaria a dizer acerca dos desenvolvimentos da polémica acerca da destruição do emblema da Associação Artística, uma vez que com aquele número, publicado a 23 de Abril de 1905, se encerrava a curta existência deste jornal.


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