10 de fevereiro de 2013

1000



Nem todos os números merecem uma efeméride e é certo que 1000  é somente o número que se segue a 999 e que antecede 1001. E, como diria Mota Amaral, há mais curiosos números. Mas este, por ser tão redondo, não costuma passar despercebido. E eis porque, em chegando ao milhar de posts publicados nas Memórias de Araduca, cumpre assinalar a efeméride com um balanço de deve e haver. Um balanço ao que foi, para tomar balanço para o que será.
Desde o dia 1 de Outubro de 2007, já muita água correu debaixo das pontes. Naquele dia já distante, escrevia-se o prefácio das Memórias de Araduca, onde nos propúnhamos ir colocando as nossas reflexões sobre a história, a cultura e as tradições de Guimarães e dos vimaranenses, sob a forma de simples contributos para o estudo e a compreensão das nossas raízes históricas e culturais. Confesso que, de início, este espaço foi concebido essencialmente como uma espécie de arquivo aberto para ir dando a conhecer materiais que ia encontrando por aí e que poderia vir a utilizar, ou não, noutros trabalhos, assim que tivesse tempo de me debruçar sobre eles. Tempo que, na maior parte dos casos, ainda não chegou e que, se calhar, nunca chegará. Essa função de repositório partilhado continua a ser a principal função deste espaço. Tenho consciência de que, melhor ou pior, vai cumprindo essa tarefa.
Os temas mais tratados nas páginas destas Memória têm sido os que levam as etiquetas que remetem para Guimarães,  os vimaranenses, o Toural, Afonso Henriques, a Capital Europeia da Cultura, as nossas efemérides, as relações quase sempre conturbadas entre Guimarães e Braga, os Monumentos,  as Nicolinas, a praça da Oliveira. Sem que saiba explicar porquê, o texto mais lido, de todos os que aqui se publicaram, continua a ser o que fala da passagem do cometa Halley em 1910.
Mal nasciam, logo as Memórias se Araduca deixaram de se confinar ao território do tempo que já não se pode mudar, o passado, umas vezes luminoso, outras obscuro. Aqui também se olhava para o presente, assumindo-se causas que iam aflorando nos dias que corriam. Logo nos seus primeiros dias, foi por aqui que começou a despertar o movimento cívico de contestação ao projecto de renovação do Toural que, a concretizar-se, esventrando o chão, para abrir túneis e instalar um parque de estacionamento subterrâneo, consumaria um processo irreversível de bracarização da nossa praça mais emblemática. Recusando uma proposta que subjugava a praça aos automóveis e que iria abrir feridas que deixariam cicatrizes permanentes no coração da cidade, defendia-se o Toural dos cidadãos. Que é o que, afinal, hoje temos.
Depois, foi a polémica que resultou da súbita descoberta da tese de A. de Almeida Fernandes, velha, revelha e até aí ignorada, de que Afonso Henriques teria nascido em Viseu, que em 2009 se tornou numa bandeira repentina de quem, até aí, nunca se tinha lembrado da existência do primeiro rei português - os responsáveis políticos viseenses. Usando o argumento dos documentos (ou melhor, da falta deles), as Memórias de Araduca também deram o seu contributo para a desmontagem daquela tese fantasiosa. Quanto ao local de nascimento do filho de Henrique e Teresa, continuamos como estávamos antes da falácia viseense, e vivemos bem com isso.
As Memórias de Araduca contribuíram também para alertar as consciências para o muro que se ia erguendo,  algures entre a  cidade e os que então se alojavam no palácio do Monte Cavalinho, afastando os cidadãos de Guimarães da sua Capital Europeia da Cultura. Quando, apesar da incomodidade latente, persistia uma espécie de bloqueio mudo, foi por aqui se rompeu o silêncio, com a publicação, no dia 29 de Outubro de 2010, de um texto que funcionou como uma pedrada no charco e que, ainda hoje, permanece como um dos mais lidos de sempre neste blogue. Ali se escreveu:
Recordo aqueles dias tensos, desgastantes e sinuosos, com sucessivos avanços e recuos, em que se vivia um clima ora de guerra aberta, ora de paz podre. Um tempo em que o mais fácil era o silêncio. Um tempo de fractura irremediável entre "eles" e "nós". "Eles", os de lá de cima, eram os responsáveis da Fundação Cidade de Guimarães. "Nós", os de cá de baixo, os cidadãos de Guimarães.
Recordo que se chegou a um momento em que, na sequência de um debate de onde muitos saíram convencidos de que nada mais havia a fazer, dando  por definitivamente perdida a causa que defendia uma CEC dos cidadãos. Em tempos em que muitos se deixavam mergulhar no desânimo e na resignação, aqui se escreveu que ainda não era tempo para a desistência:
E não era esse o tempo. Como logo se comprovou. Não seriam necessários mais do que alguns dias para se perceber que, afinal, ainda não estava escrito o epílogo daquele enredo que, contado, daria um romance. Escrevemos então:
Depois, todos sabemos como foi. É certo que Capital Europeia de Cultura não realizaria plenamente o sonho que idealizámos no dia em que foi anunciada, em 2006. Mas foi a concretização da utopia possível para a qual, na medida das suas forças, as Memórias de Araduca também deram o seu contributo.
Nos quase dois mil dias que correram desde que se abriram as Memória de Araduca, muita coisa mudou no tempo alucinante que regula o ciberespaço (e a que estas Memórias não ficaram indiferentes: basta notar-se que o debate que dantes acontecia na caixa de comentários do blogue, agora, se transferiu para o Facebook). Também por aqui já houve a tentação de mudar para algo substancialmente diferente. Mas acredito que, enquanto tiver leitores (e continuo a surpreender-me com a quantidade de gente que por aqui passa e torna a passar), estas Memórias continuarão a ser aquilo em que se tornaram ao longo do tempo: um espaço de divulgação e de reflexão dedicado aos temas da história e da cultura de Guimarães, mas também um caderno onde se se inscrevem as nossas causas comuns.
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3 comentários:

casimiro silva disse...

Parabéns por número tão redondo, mas, fundamentalmente, pelo trabalho aqui desenvolvimento. Belo, momento, este!

Miguel Salazar disse...

Parabéns pelo nº 1000, António.
Esmorecer neste seu trabalho é uma das poucas coisas que nunca poderemos aceitar.
O seu trabalho é único e fundamental para quem gosta verdadeiramente de Guimarães, do seu passado, das suas tradições... da sua Cultura.
Continue por favor.
Os verdadeiros Vimaranenses agradecem-lhe...

Antonio Amaro das Neves disse...

Obrigado, meus amigos.