30 de maio de 2011

A mentira tem pernas curtas

Aspecto do troço da actual rua da Rainha, que antigamente se designava por rua dos Mercadores.
(clicar para ampliar)

Na história de uma cidade não faltam casos de trapaceiros ardilosos e de vendedores de banha da cobra que se aproveitam da boa fé e da credulidade das suas vítimas para fazerem vingar as imposturas que engendram, muitas vezes movidos por um instinto de sobrevivência bastante sinuoso. Valem-se, acima de tudo, do poder da palavra, que sabem usar com a cadência e a entoação adequadas, com tais manhas e artifícios que são capazes de dar realidade à mais mirabolante das invenções: empregam a mentira com tal mestria que, mesmo quando posta a descoberto, ainda haverá quem continue a garantir que as patranhas que inventaram são a mais pura das verdades.

Um exemplo disto aconteceu em Guimarães há 175 anos, no longínquo mês de Março de 1836. Conta o cónego Pereira Lopes, tal como foi reproduzido pelo incansável paleógrafo João Lopes de Faria, que na então rua dos Mercadores, correspondente hoje à parte da rua da Rainha que desemboca na Praça da Oliveira, vivia uma viúva, desgostosa pela ausência do seu finado marido, a quem apareceu um caseiro de uma das suas quintas, afirmando “que tinha em si metida a alma do defunto Francisco Areias, seu senhorio, e que queria vir a sua casa para mandar fazer algumas restituições”. Foi acolhido pela viúva e pelo seu filho que, convencidos pela lábia do caseiro, o hospedaram em casa, “tratando-o muito bem”. O caseiro que dizia trazer no corpo a alma do finado Areias, deu de começar a distribuir a sua herança, beneficiando quem bem entendeu, chegando a incluir na sua liberalidade a Santa Casa de Misericórdia desta vila.

O escrivão de justiça José de Sousa Bandeira, que ficou nos anais como jornalista de pena mordaz e certeira (foi o mentor do primeiro jornal de Guimarães, o Azemel Vimaranense), foi a casa da tal viúva em diligência, com o propósito de interrogar aquele que dizia que falava pela sua voz o extinto Francisco Areias. Bastaram umas quantas perguntas para Bandeira constatar que estava perante um refinado intrujão, levando-o a ferros para a cadeia da vila. Quem ficou inconsolável foi a viúva, “por lho tirarem de casa e o levarem preso, indicando ainda mais por este facto, que ela estava persuadida de que a alma do seu defunto marido estava dentro do corpo do caseiro”.

Pois é, pode não parecer, mas a mentira tem pernas curtas...
Partilhar:

1 comentários:

Anónimo disse...

pernas curtas, ou saias curtas?