18 de maio de 2011

À deriva


No dia 29 de Março, o Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães, depois de fazer a avaliação da situação da preparação da Capital Europeia da Cultura, recomendou o respectivo Conselho de Administração que “prestasse especial atenção aos temas da comunicação e do envolvimento da cidade e das suas instituições” e promovesse “uma reflexão estratégica com vista a adoptar práticas que permitam uma ligação reforçada entre a CEC2012 e os agentes culturais, económicos e sociais de Guimarães e da região, que procure melhorar a articulação com o Ministério da Cultura e que faça o necessário para projectar de forma continuada e activa, nacional e internacionalmente, a CEC 2012”. Foi anunciado, pelo Conselho de Administração, que a reflexão recomendada já estava em curso e que “dentro de duas semanas” teríamos conclusões.

Cinquenta dias são passados sobre aquela data.

E nada aconteceu.

Um nada que está carregado de sinais inquietantes.

Na comunicação, o que estava mal continua mal, ou pior. De consequências das críticas do Conselho Geral, nem indícios. De preocupação com a ligação com a cidade e com o envolvimento dos cidadãos, nem um sinal, excepto palavras inconsequentes e iniciativas avulsas, mal amanhadas e mal negociadas.

A última machadada na confiança dos que ainda acreditavam que, com esta Fundação Cidade de Guimarães, era possível termos uma Capital Europeia da Cultura que não nos envergonhasse e que cumprisse os objectivos mínimos das expectativas que nos foram criadas, é a notícia que hoje vai correndo por aí: está consumada a demissão do Director de Projecto, peça chave no processo de concepção e desenvolvimento do programa cultural para Guimarães 2012. O que fica? Fica um grupo de programadores que trabalham em circuito fechado. Fica uma estrutura inorgânica, composta por peças desagregadas, a que falta a perspectiva de conjunto que permita perceber que as partes dão forma a um todo congruente e harmónico.

Uma Capital Europeia da Cultura não se constrói assim.

O barco vai à deriva, sem rumo certo, anunciando-se o afundamento. O problema já se percebeu onde está. Está na sala de comando, onde, apesar dos avisos, quem comanda, não vê, nem ouve. Mas fala: cada vez mais distante da realidade, vai explicando, com eloquência e vazio, que a sombra que se aproxima, não é o abismo que todos adivinham, mas o sol radioso da terra prometida, que ninguém mais enxerga.

E nós? Ficamos a ver o naufrágio acontecer?
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5 comentários:

casimirosilva disse...

Ver o naufrágio? Não pode! Guimarães não se tornou conhecida pelas grandes lutas contra a apatia? Onde andam esses vimaranenses?

casimirosilva disse...

Pelos vistos já há novidades (http://casimirosilva.blogspot.com/2011/05/ja-chega-nao.html), só que são um desastre.

aan disse...

Estou certo de que o naufrágio não vai acontecer, porque não vamos, todos nós, deixar que aconteça. A solução é só uma e está à vista. Vai ter que ser tomada. Quanto mais tarde, pior.

Miguel Martins disse...

O naufrágio já aconteceu há muito tempo. E todos (menos você e uns poucos quantos) ficaram a ver o barco a afundar. É tarde e tudo o que vier será de recurso. Mas antes de recurso que destes capitães de lagoa. Que vergonha tanto desaforo e maior inépcia! Demissão já.

Paulo Pinto disse...

Guimarães tem massa crítica suficiente para operar a mudança, mas agora parece-me já tarde para que alguma coisa venha a ser diferente (ou pelo menos muito diferente). Contudo, há um efeito positivo que advirá de uma tal acção: o de fazer prevalecer os valores do "princípio da não-maleficiência".